quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Porque o inferno se perdeu


Bolas de sabão explodem alopradas pelo vento
Pegá-las! Pegá-las em correria desatinada
Canta de roda a ciranda que foi minha e foi tua
No meio da rua que mandava ladrilhar
Com cerol de vidro amassado com cola polar
Batatinha-frita-um-dois-três vezes pula a perna num pé só
Amarelinha de um ao céu, porque o inferno se perdeu
No pique da bandeira hasteada no pátio da escola
Hino nacional cantado de conga e meia três quartos
Sempre desarrumados tal estratégia de queimado
Corre! Corre que lá vem bola! Topada e ronxa
Não dói nada. Nem sarampo, catapora ou febrão
Impede correr atrás de doce em dia ou noite
De São Cosme e Damião.

Abelhas e moscas


Olhou para o ponto no teto insone e pensou:
As abelhas e as moscas
Devem ser da mesma raça
Mas freqüentam igrejas diferentes.

A flor de Adriana


Sentei na mureta da praça e, pela primeira vez depois que saí do prédio, levantei o queixo para a estátua úmida e dura como o meu coração. A sensação era igual a de abrir os olhos pela manhã: nada. Havia uma névoa torpe nos meus passos. Coisa estranha. O nada vem acontecendo todos os dias em todos os momentos. Por que continuar se só o limbo aguarda do outro lado da praça? Sempre achei incômodas essas pessoas que passam sorrindo para os próprios chinelos. É um sorriso cheio de prazer íntimo. O interessante é que não têm em comum a idade, a cor, o sexo, só o sorriso abestalhado.
Lá vem o maior dos enigmas, a pequena Adriana e sua velha mãe sacrificada. Ela vem saltitando seus pezinhos gordos. Ao contrário dos outros, sorri para as árvores, abraça o pipoqueiro, acena para o mendigo e também para o guarda. Perito algum encontraria vestígios de lágrimas naqueles apaixonantes olhos mongóis. Seus cabelos feitos de nanquim balançavam inquietos.
Ela me olhou.
Desviei o olhar, sua felicidade me ofendeu profundamente. No início deu certo pois, em seguida, ela subiu no coreto e, se esticando toda na pontinha dos tênis, colheu uma grande flor púrpura oferecida pela trepadeira cabeluda. Veio com aquele maldito sorriso doce ondulando ameaçadora na minha direção. Haveria tempo para fugir? Se me levantar agora e caminhar bem devagar, distraidamente mirando absorta a estátua, talvez a mãe se toque e segure Adriana.
Tarde demais. Ela me alcançou antes que eu pudesse mover um dedo, apavorada na minha dor, vi-me diante de seus grandes cílios. Muita calma nesta hora. Não se mexa.
- Tá triste tá?
Como assim? Pensei sentindo o calor da nuca invadir as bochechas amarelas. Não respondi e fechei os olhos. O ataque se concretizava e nada havia a fazer. Senti a mãozinha redonda puxar em câmera lenta o elástico que prendia o meu cabelo. Pronto, agora estava nua, ali, na praça. Os fios foram soltos e uma mecha enrolada delicadamente em volta do caule da flor. Abri os olhos lentamente para que ela não me escutasse; só assim percebi o quanto Adriana estava concentrada na tarefa. A língua presa na lateral da boca carnuda denunciava a importância daquela missão.
Pregou com o elástico a mecha enrolada sobre a orelha.
- Linda! Agora tá feliz!
Achando pouco, Adriana me beijou a pele seca e me abraçou pela metade com seus braços curtinhos. Antes que eu pudesse protestar, antes que eu pudesse reagir, ela voou saltitando atrás da mãe.
Mirei a estátua e com assombro percebi os respingos da fonte formando uma áurea de brilho em toda sua volta. Isto nunca aconteceu. Meu pescoço dobrou-se para trás e lá estava a aberração: o céu azul, a copa das árvores e eu planando baixo por cima do prédio do Corpo de Bombeiros. Não mais irritantes barulhentos, mas sim encharcados de uma beleza crua, intensa, segura. Cheiro delicioso de flor, de churrasquinho de rua, de asfalto, de pão quentinho saído agorinha. Senti, senti, meu cheiro ocre e mofado, torpe e abandonado. Nojo. Corri pra casa e não havia mais névoa, só vento nos pés. Entrei no chuveiro e renasci.

O balde cheio


Chovia, mas chovia muito na cidade maravilhosa. Mas era tanta torneira despencando dos beirais que não mais se via a via expressa, somente bueiros ferventes. O rio Carioca enlaçava-se às pernas hesitantes das almas encharcadas. Os inevitáveis carros dos bombeiros gritavam vermelhos ao fazerem marolas sobre as calçadas escondidas. As árvores dançavam bêbadas a música do caos, lançando folhas ao vento como filhos à própria sorte.
Lá em cima, baldes sôfregos corriam de mão em mão, urgentes em salvar o barraco afogado. O céu rugia nas encostas lançando fleches assustadores no paredão de pedra, tal qual correspondente de guerra tirando fotos a cada rajada de raios torturantes. A geladeira pulou para cima da mesa, o fogão, já sem ar, soltava uma fumacinha ardida de gás. Balde de mão em mão, suor, balde, lama. O coração pulava apertado no peito enrugado. Balde, balde, barro, lama, suor e mais lama do céu crescendo de baixo para cima. Balde de mão em mão, barro, lama, mão e mais barro já em sopa de coisa boiando. O suor foi cedendo espaço para a enxurrada que lava, suja, lava e leva a merda das valas irmanada com o açúcar, o feijão, as roupas, e as panelas despencadas do armarinho.
E, por fim, dentro de uma verga de lama, o balde despenca, derrotado, em direção ao breu do barranco mole. A terra treme, não de frio, mas de medo e vergonha diante do enorme tobogã de miséria deslizante em direção à zona sul da cidade. A boca rachada da floresta cospe a sopa de nada de quem perdeu tudo. O caldo vai descansar fétido sobre as brilhantes telhas da orla julgando, inocente, atingir os comedores da raiz da montanha por covardes séculos mudos.

sábado, 4 de outubro de 2008

A garota do telhado


Chegava da escola arrancando o uniforme e vestia somente um shortinho de algodão. Passava na cozinha, enchia um prato fundo de feijão com arroz e farinha. Comia sentada no chão fazendo bolinhos com as mãos, ladeada por gatos que destrinchavam sardinhas sobre um jornal.
Terminada a refeição, divertia-se deixando que os gatos lambessem suas mãos. Corria para o quintal, alçava o muro e ganhava os telhados. Ali, era a rainha dos gatos, sempre com um séquito de rabudos no encalço.
Conhecia os gatunos pelos nomes por ela mesma batizados. Brincava, cochilava e embolava com os felinos pelas telhas do quarteirão entre a Rua Uberaba e o Largo do Verdun.
Os vizinhos já a conheciam, os cachorros também; nem por isso aceitavam aquela gata magrela em seus muros: latiam, jogavam água, praguejavam. Ela? Fugia como um gato, mas ria; coisa que os companheiros não sabiam fazer.
O tempo foi crescendo, o short apertando, os telhados subindo, a noite chegando, as regras nascendo e os gatos morrendo dentro dela, um por um.