quarta-feira, 25 de maio de 2011

Amor de cão


As surras de toalha molhada nem as tapas na cara não o deprimiam, ajudavam a analisar seus erros explícitos ou subliminares: demorou mais de dez minutos para perceber o novo corte de cabelo da esposa, ousara colocar um pouco de sal no almoço perfeito que ela fizera com tanto sacrifício, esquecera a tampa do sanitário levantada numa noite insone tentando entender os motivos do último esporro, pecara trazendo da padaria pão careca doce em vez de salgado ao voltar estressado do trabalho.

Embora soubesse merecedor dos corretivos, não sabia mais o que fazer para alegrar aquela mulher. A própria burrice o atormentava e seu esforço era inumano para superá-la. A patroa, compreensiva, acabava aceitando a própria sina. Ela olhava-o com desespero nos dedos entre os cabelos e, louca de amor, deixava escapar que não sabia mais o que fazer com ele.

Com a agenda lotada de compromissos de mimos da amada, ele desdenhava dos próprios: emprego, saúde e espelho. No início da tarde foi sumariamente demitido e voltou ansioso por consolo dos braços da mulher. Encontrou os amados braços ocupadíssimos entre as pernas do cara da TV a cabo. Ao ver a mãe de seus filhos com o rabo para cima gemendo sentiu a fúria latejando na garganta. Quis gritar, pular no pescoço, quebrar tudo. Não é justo! Não é justo! Praguejou com a bílis sufocada. Arrancaria os ovos dele com os dentes dela, furaria os olhos de ambos com as hastes de seus óculos, rasgaria os buchos com a faca Ginsu que a desgraçada fez questão de importar pela internet, jogaria os corpos pela janela pelados para que toda a rua visse a desonra. É isso, comigo é assim...mas o que é isso?

Pela fresta da porta observou melhor a felicidade radiante da esposinha. Tão meiga, tão bela... Nossa, que alegria, que disposição, nossa... O sol ainda está tão alto para tanta fúria... Criticou-se por chegar tão cedo. Deveria ter avisado antes. Ela ficaria furiosa com a surpresa. Saiu de fininho e ficou na esquina da rua esperando o técnico terminar o serviço de instalação.

domingo, 15 de maio de 2011

Carta a um exército particular

Meu amigo é um lutador canhoto. Não de esquerda, e muito menos de direita, não de artes marciais ou de tribuna; tampouco épicas e sim diárias, sem fazer estardalhaço diante das vitórias ou derrotas. O escudo do meu amigo tem a transparecia dos retilíneos e sua arma mais poderosa é o amor puro e profundo pela vida através da família, dos amigos, dos livros e da música de sua terra natal.

Meu amigo tem uma estratégia: conhecer o inimigo e, o mais rápido possível, atacá-lo de frente com os arqueiros e com a cavalaria pelos flancos. Sabe que sempre haverá baixas que serão assimiladas com a força dos patriarcas e a sabedoria das mães.

Hoje o meu amigo ganhou mais uma batalha de uma guerra morna, cozida em fogo brando, anunciada. Outras virão, mas nosso herói não teme, já que sua natureza nasceu assim livre dos terrores terrenos; até porque, também, além do que, até, pois, sabe que não está sozinho. A guerra é dele, mas seu exército é de fidelidade inquestionável e nada, nada mesmo que respire, pulse ou ouse pisar neste planeta o atingirá.