segunda-feira, 30 de junho de 2008

Notícias do limbo


Querido amor,
Trago notícias do limbo. Aqui não faz sol e nem chuva, frio ou calor. Os dias são iguais às noites assim como estas letras simétricas. Peço, desde já, desculpas pela forma sonolenta do relato, mas outra forma não haveria como chegar aos teus olhos, quiçá ao coração. Gostaria imensamente que recebesse esta cheia de descobertas e felizes encontros, flores na estrada e temperaturas inusitadas. Quero que saiba que jamais te escreveria à toa se, realmente, não estivesse esta pobre alma perdida entre um parágrafo e outro.
Ciente e arrependida de meus crimes cumpro abnegada minha pena. Conto os dias com riscos na parede e, ao mirar o mural de retalhos, desespero-me com o tempo esquartejado e jamais recuperável. Daqui do limbo contemplo o infinito do que não fiz, do que não comi e, principalmente, do que não fui. Faz parte da pena a turbulência dos próprios pensamentos e o silêncio do futuro.
Quanto tempo mais ficarei por aqui? Com certeza o meu nobre anjo está a perguntar. É necessário que entenda a natureza do meu crime imprescritível, inafiançável e incomensurável por seu torpor. Trata-se de uma abominação continuada, logo a pena também o é. Sei que há volta, há fim dentro deste enorme círculo vicioso, no entanto a data não foi registrada nos livros oficiais do limbo. Preciso ter paciência ao vislumbrar cada manhã sem cor, posto que seja chama escondida dentro de mim.
Certa de encontrá-lo bem, coloco neste envelope meus cacos. Guarde-os numa caixa grande e arejada. Voltarei para juntá-los.
Com amor, sempre tua.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A casa do Seu Pedreira



Seu Pedreira tinha como domicílio oficial a Praça São Salvador – oficial sim por que há relatos de que recebia cartas das mãos do próprio carteiro. Catava coisas na rua e papelão, principal matéria prima para confeccionar sua residência móvel, instalável em qualquer dos trezentos metros quadrados de seus domínios. Durante o inverno, no coreto; no verão, ao lado do chafariz. Mas era na primavera e no outono que sua criatividade aflorava: armava o barraco em qualquer recanto da praça, do parquinho das crianças ao canteiro dos cachorros. No entanto, nem tudo era flores para Seu Pedreira. Vez por outra agentes da limpeza urbana recolhiam seus pertences. O homem virava bicho. Xingava Deus e o Diabo e quem fosse portador. Era pedreira para acalmar o velho. Daí o nome.
Diante dos inúmeros percalços, Seu Pedreira acordou um dia inspirado. Olhando fixo para as árvores viu a solução de seus problemas. Na calada da noite, aproveitando-se das folhagens densas, iniciou o grande projeto da casa na árvore. Fez a planta baixa para instalar no alto. Decidiu que seria de madeira. Passou o outono recolhendo material de demolição e pregando aqui e ali. Construiu uma escada discreta com ripas da cor da árvore. Achou no lixo um saco de lápis-de-cera. Durante o inverno desenhou no lado externo da casa todas as folhas e flores arquivadas na memória. Orgulhoso da camuflagem partiu para o interior. Desenhou aviões, foguetes, carros, crianças e bichos. Gostava mais do macaco rindo na cabeceira da cama. Decorou o lar com objetos valiosíssimos doados pelos sacos pretos: embalagens de batata-frita coloridas, brinquedos quebrados, garrafas pet, latinhas, vidros e flores de plástico. Construiu mesa, cadeira e armário. Para completar a obra, realizou seu sonho de menino. Fez um gigantesco móbile de arame, cacos de vidro e latinhas de alumínio. Enquanto o móbile rodasse brilhando sobre a sua cama, nada poderia atingi-lo.
Comprou cem gramas de mortadela e uma garrafa de cachaça para a grande inauguração. Ficou lá em cima cantando e dançando o novo lar. A festa durou três meses, tempo programado para a poda das árvores.
Seu Pedreira acordou com sol na cara e a moto-serra quente no lombo. Pulou num susto, pegou a munição – montanha de pedras portuguesas mantidas ao lado do colchão – e, aos urros, metralhou os operários com a determinação de um pastor alemão. Seus berros chamaram a atenção dos freqüentadores da praça. Janelas curiosas foram abertas e dedos-duros apontados para a árvore. O povo foi saindo dos bares, da farmácia, do mercado e convergindo para a árvore de Seu Pedreira. O velho gritava a plenos pulmões: - Socorro! Querem destruir o meu lar! Polícia! Bombeiros! Prefeito, Governador, Presidente, estão me roubando! Larga minha árvore se não eu mato! Ah!
O circo armado, personagens prontos, só faltavam as autoridades. Não demorou, chegaram junto com as emissoras de TV. Quem ligasse a televisão naquela hora veria a transmissão ao vivo de Seu Pedreira brandindo suas pedras e cuspindo fogo.
O público passou por várias fases emocionais. Primeiro o susto, depois a dó e por último a simpatia pela causa. Só quem conhece o povo carioca sabe o perigo que representa a simpatia coletiva por uma causa nessas terras quentes.
Enquanto lá no alto os bombeiros resgatavam Seu Pedreira, o povo indignado saia no tapa com a polícia lá em baixo. Coisa de dar inveja ao Green Peace. Ruas interditadas, cordão de isolamento, spray de pimenta, bandeiras quebradas e, muito barulho depois, o velho foi recolhido para o abrigo municipal.
A horda não deixou que destruíssem a casa na árvore. Fez vigília, deitou no chão, chamou ONGs, acionou o MP, a ONU e o escambau a quatro. Sucesso no Fantástico. Depois de um longo processo na justiça, a mansão de Seu Pedreira foi tombada como patrimônio cultural do Município. Instalaram uma placa ao lado da árvore contando toda a saga, com direito a foto do artista com pedra na mão. A prefeitura fez um cercadinho em volta da obra e cobra R$ 1,00 para quem quiser visitar o museu.
E onde está Seu Pedreira? Quem sabe? Que diferença faz?

terça-feira, 24 de junho de 2008

A trocadora de sonhos

Crônica publicada em 2007 na Revista de Domingo do Jornal do Brasil


Dalva trabalhava naquela linha há vinte sacolejados anos. Viu o trajeto ser alterado em ruas que viraram mão outras que viraram pé. Atuou com muitos motoristas, alguns mal humorados, muitos cavalheiros, incontestáveis kamikazis do trânsito. Presenciou atropelamentos, quedas de passageiros em freadas, assaltos, trocas de tinta com táxi, moto, caminhão e, principalmente, outros ônibus. Mas, verdade seja dita, foi testemunha de aniversários, pedidos de casamento, raspadinhas premiadas, trocas de presentes, beijos, amassos e sarros.
Por gosto, tinha o hábito de, depois de adquirir a intimidade do terceiro bom dia, perguntar ao passageiro como a ilustre pessoa estava, como tinha sido o seu dia, se tinha dormido bem...Ali na roleta, começou a atender uma clientela assídua, ansiosa por contar seus causos, conquistas e mazelas. Ouvia a todos, só interrompendo rapidamente para concordar, confortar, dar uma palavra de força. Quando perguntada, Dalva dava opiniões revolucionárias:
- Deixa esse cara, vai estudar dança de salão!
- Já pensou que se seu filho puder cuidar da vida dele sobra tempo pra você cuidar da sua?
- Prá que você precisa de dois olhos se com um a gente já vê mais coisa do que gostaria?
O consultório funcionava melhor em dia de engarrafamento, concorridíssimo! Os casos, totalmente públicos, eram polemizados e discutidos efusivamente pelos demais passageiros. Mas a conclusão brilhante, incontestável, definitiva, era da trocadora Dalva. Tinha em seu currículo casamentos salvos, divórcios libertadores, empregos trocados e incontáveis receitas de bolo bem sucedidas.
Ocorre que, numa segunda feira qualquer, começou a circular na linha ônibus sem trocador.
- Como assim?
O novo motorista, verdadeiro polvo, usava seus tentáculos para abrir a porta, segurar o volante, dar seta, passar marcha, trocar dinheiro, arremessar moedas e fazer incontroláveis gestos tetosterônicos para os demais motoristas barbeiros.
- Onde estaria Dalva???
Foi um assombro a onda de depressão instalada no semblante dos passageiros. Olhavam para o lugar dantes do trono de Dalva, agora preenchido por dois lugares vazios. Questão de respeito.
Chilique, faixa na janela, abaixo assinado e até greve foi organizada pela volta de Dalva. Mistério. Pararam o trânsito gerando um engarrafamento em escala industrial, na pressão, com gás.
Conseguiram, através de negociações coletivas emocionadas, que, do mesmo jeito que sumiu, Dalva reapareceu, depois de um intensivo na auto-escola, comandando um reluzente coletivo urbano.
Ela estava de volta, com mais tentáculos do que qualquer vendedor de pulseiras poderia sonhar, mais polva do que nunca!
Quem pagou passagem pode ver como Dalva conseguia guiar aquele trambolho e as almas com a mesma velocidade!
Poucos, mas pouquinhos mesmo, conseguiram perceber que, dos trocadores de sonhos, apenas Dalva retornou.

domingo, 22 de junho de 2008

Emergência



- Boa tarde, doutor. Estou morrendo...
- O que a senhora sente?
- Dor no corpo, febre, piriri, enjôo, ardência na gengiva quando bebo chope mal tirado e coceira no dedão do pé esquerdo...É grave?
Cutuca daqui, escuta dali, luz na garganta, nos olhos, nos ouvidos, bolina barriga, sovaco, pélvis, pescoço e nuca. Sentença imediata:
- É virose. Vitamina C, antiinflamatório por sete dias, antitérmico quando tiver febre e repou...
- Virose? Mas que vírus? Ebola? Gripe espanhola? Herpes?
- Virose simples, passageira.
- E a coceira no dedão?
- Frieira. Vou passar um talco e...
- E a gengiva?
- Não tem nada aparente, mas a senhora deve procurar um dentista regularm...
- Mas assim? Virose e pronto? Sem tomografia computadorizada? Nem um modesto kit exame de sangue e urina? Fezes! Há muitos anos não faço um exame de fezes. Nunca gostei de sair por aí com aquele potinho cheio. Mas, pela saúde, faço qualquer negócio. O doutor não acha que pode ser uma solitária devorando as minhas entranhas?
Doutor perfumado, barbeado, jaleco branco, olha muito fixamente a vítima:
- Não creio. Vou passar um vermífugo para tomar apenas um comprimido por prevenção.
- Sei...Olha, eu sou fumante ativa; e se for um efizema terminal ou tuberculose crônica ou pneumonia galopante? Veja bem a sua responsabilidade...
- Virose.
- Uma abeugrafiazinha não custa nada, não é doutor?
- Tome os remédios e volte daqui a dez dias.
- E se eu morrer até lá? O senhor garante meu pronto restabelecimento? Presta atenção: tenho histórico na família de câncer, diabetes, cardiopatia, esquizofrenia e neuroses múltiplas. Não seria melhor investigar?
- A senhora pode procurar uma outra opinião, talvez a de um terapeuta...Deixar de fazer pesquisa sobre doenças na internet já ajuda bastante...
- Essa manchinha no braço, também é da virose?
- Sol. Protetor solar evita as próximas.
- O doutor sabia que dengue e febre amarela são de comunicação obrigatória aos órgãos de saúde?
- Não é o seu caso. Virose, comum no verão. Boa noite e...
- Não! Espera! Eu tenho um agravante. Sou da geração 80, aquela que não media escrúpulos para se divertir. Sabe como é, não é doutor?
- Sei. Tome os remédios e vá dormir. Amanhã vai acordar bem melhor. Boa noite e, por favor, na saída chame o próximo paciente.
- Tem certeza, doutor?
- Tenho.
Magoada resmunga batendo a porta:
- É por isso que eu não gosto de médico, além deles não fazerem nada do que a gente quer, não possuem um pingo de imaginação!

sábado, 21 de junho de 2008

Mulheres, borboletas e moscas



Acorda, corre para o calendário e pensa: Caramba, o dia dos namorados caiu no auge da TPM da Margarida. Estou ferrado. Não vai ser fácil escolher o presente.
Toma banho caprichado, faz a barba e veste a camisa que Margarida deu no natal. Sem perfume para não irritar. Já no shopping, percorre as vitrines recheadas de roupas e bijuterias. Não cometeria o mesmo erro do ano passado. Não reparara que ela não usa brincos, anéis ou pulseiras e dera um conjunto completo; até hoje pendurados no gancho da rede do quarto a título de decoração. Com roupas ela não se empolga e livros é tão difícil saber o que ela não leu ou o que jamais lerá.
Embora não se enfeite, Margarida decora a casa como um ninho de passarinho: vários pequenos objetos compondo um quadro caótico. Coisas coloridas achadas na rua, pequenos presentes e muita bugiganga.
Sai do shopping frustrado e vai bater na feirinha de artesanato de Ipanema. Acha um troço lindo, a cara dela. Compra e passa numa floricultura. Rosas brancas, as preferidas e ideais para um dia crítico.
Encontra-a vestida de azul com o olhar perdido na parede, a mão esquerda em vírgula segurando a caneta no ar diante das folhas do caderno batendo asas. Tira uma foto com o coração e guarda. Chega de mansinho para não assustar e beija-a. Meio sorriso, olhos receptores. Tudo bem. Entrega as flores e ganha outro beijo. O presente só depois. Sabe que a TPM prende as palavras dentro da boca da amada, o que é deveras preocupante. Nos dias normais ela administra uma verborragia contagiante, falada e escrita. No entanto, nestes dias inglórios, cultua reticências e meias palavras. Uma profunda tristeza inexistente a invade, sendo o silêncio ou a irritação o principal sintoma.
Ele conhece o próprio potencial de tirá-la daquela letargia. Fala da praia, do sol e do vento. Ah! O vento! Ele sabe o quanto ela ama o vento e o seu som. Vendo-a mais aminadinha, fala dos animais, das plantas e dos personagens ímpares que circulam incógnitos pela cidade. Pronto, tem agora toda a atenção de Margarida. Ela solta o cabelo e ri abertamente. É a hora. Entrega o embrulho e se arrepia quando ela solta um gritinho de prazer ao retirar da caixa o móbile de borboletas e moscas coloridas.
Saindo dali, foram para casa onde ele preparou uma massa com molho de tomate, vinho branco, beijos e canções.
Não há TPM que resista a um homem desses.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A urna e o gelo



Acordou cedo, tomou banho e fez a barba. Procurou o título, mas lembrou ser a identidade desbeiçada o suficiente. Vestiu a camisa vermelha, achando-a por si só explicativa, e saiu fingindo indiferença de quem vai cumprir velha obrigação.
Não tinha fila e os mesários estavam ali só para ele. Diante da urna, um frio covarde na espinha fez com que demorasse seculares segundos para tirar a cola do bolso. Digitou o número e teclou confirma. Tiririririm!! Acabou. Soltou um pumzinho aliviado e respirou orgulhoso. Tá feito.
Sentia o corpo leve, mas sabia que teria de dar satisfações. Foi pensando no caminho pro trabalho: poderia mentir ou alegar que revelar voto é sacrilégio, ou melhor, dizer que esqueceu. Não vai colar. Começou a ficar nervoso só de pensar.
Chegando na birosca da Dona Otília, viu a patroa com a cara azeda de costume. Dizem que sofre dos bofes. Ninguém para atender. Colocou o jaleco amarelo e antes de conseguir chegar no balcão, a peçonhenta atacou:
- Votou em quem?
Fingiu que não era com ele e começou a socar o gelo com o porrete na chopeira.
- Menino, você está surdo?
- Não senhora. Já votei sim senhora.
- Em quem?
- No homem, de novo.
- Mas é um idiota mesmo. Não falei pra você votar no outro?
- Falou sim senhora.
- Então o que foi? Deu bobeira na urna?
- Não senhora. Eu até levei o número que a senhora me deu, mas na hora, na frente daquela máquina, me deu um troço nas vistas...
- É um banana mesmo. O que que eu faço com você?
- Sei não senhora.
- Você sabe como estão os juros? Sabe quanto eu pago de imposto? Tem noção do mensalão, sanguessuga, dólar na cueca e um milhão e setecentos mil tudo misturado?
- Não sei de nadinha não senhora.
- É por isso que essa merda de país não sai da merda, por culpa de milhões de merdas como você!
- Sim senhora.
- Vai! Vai! Cala a boca e soca esse gelo logo!
Voltou a socar o gelo olhando pro outro lado da rua. Viu as crianças brincando na praça e os velhotes pegando sol. Olhou para Dona Otília e para o porrete. Do porrete para Dona Otília e vice-versa de novo. Apertou os olhos mirando a nuca sebenta da Dona Otília. Levantou o porrete e deu tanta surra, mas tanta surra no gelo que só parou quando os braços suados amoleceram. E o gelo virou neve de geladeira.
Encarou Dona Otília que estava com os olhinhos répteis esbugalhados, a boca mole, uma mão crispada na máquina registradora e outra no coração. Soltou o porrete, tirou o jaleco e foi embora sem olhar pra trás.
Na manhã seguinte acordou cedinho como sempre, tomou banho, fez a barba e ligou a televisão para ver o homem de novo presidente. Meu presidente. Vestiu a camisa social, cinto e sapato engraxado.
Dia bom pra procurar emprego. Birosca é o que não falta neste país de Deus.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Calor, né?


- Moço, aperte o número 23, por favor! Muito grato.
- 12
- 5
- %#@!!
- Senhor, qual o andar mesmo?
- É surdo? 28.
- Calor, né?
- Vai chover.
- Ôô...
- Ainda bem que a viagem é rápida.
TREC
- Vocês ouviram um TREC?
- Devem ser os cabos...
- Ou os freios...
- Freios?
- É assim mesmo.
TREC-TREC. Luz apaga. Pára tudo.
- Ai meu-deus-do-céu!!
- Calma, não foi nada...
- Como “nada”? Não enxergo nada!
- Vão ligar os geradores...
- Daqui a pouco...
- É só ter paciência...
- É...
- Aperta o botão vermelho!
- Botão vermelho?
- Onde?
- Ôi?
- Virgem Maria! Valei-me meu Jesus Cristinho! Não deixe que eu morra nesta lata de sardinha!!
- Ninguém vai morrer aqui. Vamos sentar e esperar.
(...).
- Tô com o ar faltando...Uma angústia no peito...
- Mas só se passou um minuto...
- Não interessa, tô preso, sem ar.
- Ih...O cara vai dar defeito...
- Ninguém merece...
- Relaxa, cara...
- Deixa de merda...
- Ai, minhas mãos estão dormentes, suando frio, a vista escurecendo...Ui...
- Bate palmas...
- Abre e fecha as mãos...
- Faz pressão na nuca e sopra...
- Vou te encher de porrada se não parar com essa frescura, caralho!
- Passou!! Dia quente, né?
- Ôôôô...

Segredo


- Mas que merda! Tira esse troço preto fedido daqui!
- Assim estraga a amizade. Qual é o seu problema com a minha mochila? Tu é racista, nêgo?
- Racista é o cacete! Não gosto é de fedentina. O que tem aí dentro? A cabeça da tua sogra?
- Antes fosse, colega, antes fosse...Vou te mostrar.
- Nem pagando! Vira essa trolha para lá!
- Não tem risco. É de comer.
- Você acha mesmo que eu como merda?
- Não. É queijo.
- Queijo? Podre, é certo.
- É francês.
- Francês não toma banho e passa o queijo no sovaco enquanto prepara. Estou até vendo a cena...Credo...
- O gosto é bom.
- Deixa eu ver esse negócio.
- Vou cortar um pedacinho para você experimentar...
- Feio, ein?...Está mofado, seu idiota, joga essa porra fora!
- Só um pedacinho...
- Parece maluco. Tá querendo me envenenar?
- Pára com isso, cara, você precisa quebrar esse paradigma, experimentar coisas novas...
- Vou dizer já o que eu vou quebrar...
- Ummm...Está uma delícia. Nossa, pena que você não consegue...
- Se eu comer esse bolor você pára de me encher o saco?
- Agora.
- Pedaço pequeno que é para não intoxicar muito...
- Gostou?
- Onde foi que você comprou essa porcaria?
- Na Chic Import em Ipanema.
- Caralho, deixou os ovos lá empenhados?
- Mais ou menos. Mas vale cada centavo!
- É, não é tão ruim assim...Mas é coisa de veado. E a patroa, está sabendo dessas novas preferências?
- Nada a ver, cara, desencana.
- Vamos comer esse breguete que está muito bom. Mas se você sair por aí falando...Eu nego! Eu nego e acerto as contas contigo depois. Vai, vai, porra, dá um palito aí e vê se não come tudo!

domingo, 1 de junho de 2008

Sábado de gato gordo



Entrou no pequeno armazém como fazia nos últimos quarenta anos, mas baixou a grade em seguida. Determinado, correu até a pia e começou a preparar a coisa. Dois litros de óleo de soja, banha passada à vontade, um litro de creolina, uma concha de sabão em pó, Cinco ovos podres cultivados ao sol na véspera, duas pitadas de ódio e cem gramas de vingança. Misturou tudo até ferver. Cozinhou lentamente em mágoa branda. Para finalizar, preparou a calda grossa de impotência derretida em doses generosas de tristeza.
Esperou a tarde cair. Deste sábado não passaria. Era certo.
Sábados...Sábados...Lembrou das crianças fazendo fila para comprar pirulito de açúcar queimado, bala de tamarindo e maria-mole, branca ou morena. As senhoras, vindas da rua da frente e da rua de trás, compravam manteiga a granel, arroz do tonel, pomada Minâncora, Leite de Rosas e Polvilho Anticéptico Granado. Dava gosto ver aquele mulherio borbulhando, se misturando com o tilintar das garrafas de leite. À tarde, chegavam os maridos para compartilhar o balcão com uma cervejinha, uma branquinha, um sambinha, salaminho e tremoço. O gato, com o bucho gordo de rato, dormia sob o balcão com o rabo entre os copos e o tira-gosto. E assim o sábado se orgulhava de sua opulência. Seu Manoel orgulhava-se também de seu estoque diminuto, mas do tamanho da necessidade do bairro. Fazia pesquisa entre os clientes, visitava o porto e o mercado municipal procurando sempre a melhor oferta e a novidade. Trazia enlatados lindos e oferecia a casa mais limpa e lustrosa das redondezas. Daria para comer no balcão, sem prato. Alguns clientes, no apagar das luzes, ao derramar um copo de precioso líqüido, ameaçavam lamber o honrado balcão, mas Seu Manoel nunca permitiu, era uma casa de família. Na testa da loja, exibia a placa pintada pelo cunhado: Casa do Coração do Alentejo, em homenagem aos seus compatriotas da terrinha distante.
Em frente à Casa do Coração do Alentejo, funcionava a maravilhosa Fábrica de Tecidos Esperança, onde todos trabalhavam. Mas a Esperança morreu primeiro, no primeiro de abril. Quase mentira se não fosse verdade. Fechou as portas e calou as máquinas de supetão, na cara de todo mundo. Seu Manoel ficou ali, vendo a grande reforma da Esperança virar um grande, hiper, mega, monstruoso armazém.
Sábados...Sábados...Mas os sábados foram ficando menores e silenciosos. Já não havia novidades que trouxessem de volta as senhoras ou as crianças. Um bêbado ou outro tropeçava no balcão e levava para casa um pacote de feijão que esqueceram de comprar no último supermercado. Supermercado...
O caldo estava pronto. Engraxou os sapatos, vestiu o terno de domingo, embora fosse sábado. Passou brilhantina na cabeleira rala, encheu dois galões da coisa e instalou num carrinho de mão. Era a coluna que cobrava o preço dos anos carregando caixas. Tomou de um gole só um vidro de Leite de Magnésia e outro de Lactopurga. Pegou a velha bombinha Flit, encheu com a gosma asquerosa e atravessou a rua.
Entrou olhando fixamente para o campo de batalha. Puxando seu carrinho de mão, dirigiu-se resoluto para a bancada de frios. Derramou metade de um galão sob os filés-minhon, picanhas e maminhas. Estrategicamente, espalhou o restante do primeiro galão pelo corredor principal. Abriu os lacres de fuagrás, alcaparras e alcachofras e mandou lufadas de bombinha neles. Passava resoluto com os braços nas prateleiras de grãos, garrafas e sacos. Os clientes, traidores, escorregavam junto com os seguranças. Armado de sua bombinha devastadora, dirigiu-se aos caixas e deferiu uma rajada nojenta nas registradoras. Gritos lascinantes não o intimidavam, davam-lhe forças sobre-humanas. Abriu o último galão, apoiou sobre os ombros e despejou a arma química por cima dos doces.
Acabada a munição, não seria capturado facilmente. Fez pipi nas hortaliças e rolou no balcão dos pães soltando a metralhadora giratória de leite de magnésia e lacto-purga. Farejando o fim próximo, tirou o pino da granada: botou o dedo na goela e adicionou molho extra sobre os importados.
Seu Manoel foi agarrado por cinco escorregadios guardas enojados. Dobraram o velho em quatro partes, feito envelope, e depositaram na urna da viatura. Voto válido.
O velhote sorria por entre as grades dos dentes, vendo a Casa do Coração do Alentejo se afastar de seus sábados para sempre.

Manga com leite



Entrou no boteco, bateu no balcão e gritou:
- Bota aí um copo de leite batido com manga e chumbinho que hoje eu quero morrer!
- Leite com manga? Não tem não senhor.
- Ah! Então traz cachaça de cabeça e um chope. Na pressão. Demoro a morrer, mas morro!
Virou o pedido e devorou uma empada de frango para empapuçar logo. Quem sabe conseguiria acabar com o sofrimento entalado? Fumou três cigarros emendados um no outro para não apagar. Tossiu tal qual cachorro sarnento, cuspiu no chão e latiu:
- Hoje eu morro! Sai mais uma manga com leite na pressão!
- ?
- O mesmo! O mesmo! Tem que explicar tudo aqui...
Mais três cigarros e pensou na Lurdinha rebolando com a safadeza dos dentes arreganhados no pagode. Aquelas toras de pernas suadas esbarrando em tudo quanto é tipo de malandro. Malvada.
- Hoje eu morro e ela vai chorar rosas vermelhas de sangue no meu caixão! Mais um queijo com molho de manga!
Abraçou os olhos com as mãos para não ver a lembrança de Lurdinha entrando no banheiro com o playboy. Saindo toda serelepe, se ajeitando. Passando diante de seu desespero e soprando uma dúvida de hálito doce em seu ouvido. Saindo gargalhando em ondas pela calçada morena. Levou com ela o perfume da dama-da-noite, flor do verão. O mundo ficou sem cheiro, sem som, sem dentes.
- Vou morrer banguela! Cadê minha manga com leite? Traz mais! Traz mais!
Enfiou a mão entre os botões da camisa encontrando o próprio coração destroçado. Bufou com a imagem de Lurdinha chegando sorrateira num comprimento único: apertando levemente seu mamilo esquerdo. Gritou:
- Sai um chantilly de manga!
Esvaziou os copos enquanto tentava equacionar Lurdinha no lado dormente do cérebro. Gemeu:
- Lurdinha...
- Ôi, amor!
Mão quente no mamilo esquerdo.
- Traíra! O que você está fazendo aqui? Veio assistir o meu fim?
- Já chapou o coco, nego?
- Eu vi tudo...Você no banheiro com o playboy...
- O Marcelinho?
- Não brinca comigo, minha flor, que eu sou capaz de fazer uma loucura...
- Você está com ciúmes do Marcelinho? Ah! Bobinho, da fruta que eu gosto ele come até o caroço.
- Jura?
- E precisa?
- Hoje eu morro!
- Vem cá meu nego...
- Eu morro...Eu morro...