sábado, 21 de junho de 2008

Mulheres, borboletas e moscas



Acorda, corre para o calendário e pensa: Caramba, o dia dos namorados caiu no auge da TPM da Margarida. Estou ferrado. Não vai ser fácil escolher o presente.
Toma banho caprichado, faz a barba e veste a camisa que Margarida deu no natal. Sem perfume para não irritar. Já no shopping, percorre as vitrines recheadas de roupas e bijuterias. Não cometeria o mesmo erro do ano passado. Não reparara que ela não usa brincos, anéis ou pulseiras e dera um conjunto completo; até hoje pendurados no gancho da rede do quarto a título de decoração. Com roupas ela não se empolga e livros é tão difícil saber o que ela não leu ou o que jamais lerá.
Embora não se enfeite, Margarida decora a casa como um ninho de passarinho: vários pequenos objetos compondo um quadro caótico. Coisas coloridas achadas na rua, pequenos presentes e muita bugiganga.
Sai do shopping frustrado e vai bater na feirinha de artesanato de Ipanema. Acha um troço lindo, a cara dela. Compra e passa numa floricultura. Rosas brancas, as preferidas e ideais para um dia crítico.
Encontra-a vestida de azul com o olhar perdido na parede, a mão esquerda em vírgula segurando a caneta no ar diante das folhas do caderno batendo asas. Tira uma foto com o coração e guarda. Chega de mansinho para não assustar e beija-a. Meio sorriso, olhos receptores. Tudo bem. Entrega as flores e ganha outro beijo. O presente só depois. Sabe que a TPM prende as palavras dentro da boca da amada, o que é deveras preocupante. Nos dias normais ela administra uma verborragia contagiante, falada e escrita. No entanto, nestes dias inglórios, cultua reticências e meias palavras. Uma profunda tristeza inexistente a invade, sendo o silêncio ou a irritação o principal sintoma.
Ele conhece o próprio potencial de tirá-la daquela letargia. Fala da praia, do sol e do vento. Ah! O vento! Ele sabe o quanto ela ama o vento e o seu som. Vendo-a mais aminadinha, fala dos animais, das plantas e dos personagens ímpares que circulam incógnitos pela cidade. Pronto, tem agora toda a atenção de Margarida. Ela solta o cabelo e ri abertamente. É a hora. Entrega o embrulho e se arrepia quando ela solta um gritinho de prazer ao retirar da caixa o móbile de borboletas e moscas coloridas.
Saindo dali, foram para casa onde ele preparou uma massa com molho de tomate, vinho branco, beijos e canções.
Não há TPM que resista a um homem desses.

Um comentário:

Sylvia Regina Marin disse...

Uau! Acertou na mosca!
Nada como um homem bem resolvido e atento! MA-RA-VI-LHA!
Beijos.
Sylvia