terça-feira, 24 de junho de 2008

A trocadora de sonhos

Crônica publicada em 2007 na Revista de Domingo do Jornal do Brasil


Dalva trabalhava naquela linha há vinte sacolejados anos. Viu o trajeto ser alterado em ruas que viraram mão outras que viraram pé. Atuou com muitos motoristas, alguns mal humorados, muitos cavalheiros, incontestáveis kamikazis do trânsito. Presenciou atropelamentos, quedas de passageiros em freadas, assaltos, trocas de tinta com táxi, moto, caminhão e, principalmente, outros ônibus. Mas, verdade seja dita, foi testemunha de aniversários, pedidos de casamento, raspadinhas premiadas, trocas de presentes, beijos, amassos e sarros.
Por gosto, tinha o hábito de, depois de adquirir a intimidade do terceiro bom dia, perguntar ao passageiro como a ilustre pessoa estava, como tinha sido o seu dia, se tinha dormido bem...Ali na roleta, começou a atender uma clientela assídua, ansiosa por contar seus causos, conquistas e mazelas. Ouvia a todos, só interrompendo rapidamente para concordar, confortar, dar uma palavra de força. Quando perguntada, Dalva dava opiniões revolucionárias:
- Deixa esse cara, vai estudar dança de salão!
- Já pensou que se seu filho puder cuidar da vida dele sobra tempo pra você cuidar da sua?
- Prá que você precisa de dois olhos se com um a gente já vê mais coisa do que gostaria?
O consultório funcionava melhor em dia de engarrafamento, concorridíssimo! Os casos, totalmente públicos, eram polemizados e discutidos efusivamente pelos demais passageiros. Mas a conclusão brilhante, incontestável, definitiva, era da trocadora Dalva. Tinha em seu currículo casamentos salvos, divórcios libertadores, empregos trocados e incontáveis receitas de bolo bem sucedidas.
Ocorre que, numa segunda feira qualquer, começou a circular na linha ônibus sem trocador.
- Como assim?
O novo motorista, verdadeiro polvo, usava seus tentáculos para abrir a porta, segurar o volante, dar seta, passar marcha, trocar dinheiro, arremessar moedas e fazer incontroláveis gestos tetosterônicos para os demais motoristas barbeiros.
- Onde estaria Dalva???
Foi um assombro a onda de depressão instalada no semblante dos passageiros. Olhavam para o lugar dantes do trono de Dalva, agora preenchido por dois lugares vazios. Questão de respeito.
Chilique, faixa na janela, abaixo assinado e até greve foi organizada pela volta de Dalva. Mistério. Pararam o trânsito gerando um engarrafamento em escala industrial, na pressão, com gás.
Conseguiram, através de negociações coletivas emocionadas, que, do mesmo jeito que sumiu, Dalva reapareceu, depois de um intensivo na auto-escola, comandando um reluzente coletivo urbano.
Ela estava de volta, com mais tentáculos do que qualquer vendedor de pulseiras poderia sonhar, mais polva do que nunca!
Quem pagou passagem pode ver como Dalva conseguia guiar aquele trambolho e as almas com a mesma velocidade!
Poucos, mas pouquinhos mesmo, conseguiram perceber que, dos trocadores de sonhos, apenas Dalva retornou.

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei! Somos todas Dalvas ou Amélias.O fato é que andar de ônibus como alternativa de condução para trabalharmos e outros fins nos faz imaginar mil coisas.Admito que já olhei para Dalvas, Marias e Amélias e para aviadores sem nomes, mas daí imaginar estórias só uma mente inquieta como a sua.Muito bacana mesmo, e por uma cobradora não será mais a mesma pra mim.

Simone Moura Lins de | Email | 03-02-2007 15:14:31