domingo, 1 de junho de 2008

Sábado de gato gordo



Entrou no pequeno armazém como fazia nos últimos quarenta anos, mas baixou a grade em seguida. Determinado, correu até a pia e começou a preparar a coisa. Dois litros de óleo de soja, banha passada à vontade, um litro de creolina, uma concha de sabão em pó, Cinco ovos podres cultivados ao sol na véspera, duas pitadas de ódio e cem gramas de vingança. Misturou tudo até ferver. Cozinhou lentamente em mágoa branda. Para finalizar, preparou a calda grossa de impotência derretida em doses generosas de tristeza.
Esperou a tarde cair. Deste sábado não passaria. Era certo.
Sábados...Sábados...Lembrou das crianças fazendo fila para comprar pirulito de açúcar queimado, bala de tamarindo e maria-mole, branca ou morena. As senhoras, vindas da rua da frente e da rua de trás, compravam manteiga a granel, arroz do tonel, pomada Minâncora, Leite de Rosas e Polvilho Anticéptico Granado. Dava gosto ver aquele mulherio borbulhando, se misturando com o tilintar das garrafas de leite. À tarde, chegavam os maridos para compartilhar o balcão com uma cervejinha, uma branquinha, um sambinha, salaminho e tremoço. O gato, com o bucho gordo de rato, dormia sob o balcão com o rabo entre os copos e o tira-gosto. E assim o sábado se orgulhava de sua opulência. Seu Manoel orgulhava-se também de seu estoque diminuto, mas do tamanho da necessidade do bairro. Fazia pesquisa entre os clientes, visitava o porto e o mercado municipal procurando sempre a melhor oferta e a novidade. Trazia enlatados lindos e oferecia a casa mais limpa e lustrosa das redondezas. Daria para comer no balcão, sem prato. Alguns clientes, no apagar das luzes, ao derramar um copo de precioso líqüido, ameaçavam lamber o honrado balcão, mas Seu Manoel nunca permitiu, era uma casa de família. Na testa da loja, exibia a placa pintada pelo cunhado: Casa do Coração do Alentejo, em homenagem aos seus compatriotas da terrinha distante.
Em frente à Casa do Coração do Alentejo, funcionava a maravilhosa Fábrica de Tecidos Esperança, onde todos trabalhavam. Mas a Esperança morreu primeiro, no primeiro de abril. Quase mentira se não fosse verdade. Fechou as portas e calou as máquinas de supetão, na cara de todo mundo. Seu Manoel ficou ali, vendo a grande reforma da Esperança virar um grande, hiper, mega, monstruoso armazém.
Sábados...Sábados...Mas os sábados foram ficando menores e silenciosos. Já não havia novidades que trouxessem de volta as senhoras ou as crianças. Um bêbado ou outro tropeçava no balcão e levava para casa um pacote de feijão que esqueceram de comprar no último supermercado. Supermercado...
O caldo estava pronto. Engraxou os sapatos, vestiu o terno de domingo, embora fosse sábado. Passou brilhantina na cabeleira rala, encheu dois galões da coisa e instalou num carrinho de mão. Era a coluna que cobrava o preço dos anos carregando caixas. Tomou de um gole só um vidro de Leite de Magnésia e outro de Lactopurga. Pegou a velha bombinha Flit, encheu com a gosma asquerosa e atravessou a rua.
Entrou olhando fixamente para o campo de batalha. Puxando seu carrinho de mão, dirigiu-se resoluto para a bancada de frios. Derramou metade de um galão sob os filés-minhon, picanhas e maminhas. Estrategicamente, espalhou o restante do primeiro galão pelo corredor principal. Abriu os lacres de fuagrás, alcaparras e alcachofras e mandou lufadas de bombinha neles. Passava resoluto com os braços nas prateleiras de grãos, garrafas e sacos. Os clientes, traidores, escorregavam junto com os seguranças. Armado de sua bombinha devastadora, dirigiu-se aos caixas e deferiu uma rajada nojenta nas registradoras. Gritos lascinantes não o intimidavam, davam-lhe forças sobre-humanas. Abriu o último galão, apoiou sobre os ombros e despejou a arma química por cima dos doces.
Acabada a munição, não seria capturado facilmente. Fez pipi nas hortaliças e rolou no balcão dos pães soltando a metralhadora giratória de leite de magnésia e lacto-purga. Farejando o fim próximo, tirou o pino da granada: botou o dedo na goela e adicionou molho extra sobre os importados.
Seu Manoel foi agarrado por cinco escorregadios guardas enojados. Dobraram o velho em quatro partes, feito envelope, e depositaram na urna da viatura. Voto válido.
O velhote sorria por entre as grades dos dentes, vendo a Casa do Coração do Alentejo se afastar de seus sábados para sempre.

Um comentário:

Anônimo disse...

Catarina, minha jovem, este assim postado, se lido pela pessoa certa, levas o primeiro prêmio. Se publicado vira sucesso mundial. Arretado. Mas vem cá quando é que sai o livro mesmo, heim? Valeu.

Sammy | Email | 12-06-2007 08:48:22