sexta-feira, 13 de março de 2015

ABRICÓ CANADENSE

                                               

         Pensei em escrever algo para a despedida de uma amiga canadense prestes a voltar ao lar depois de uma exaustiva temporada carioca. Algo que a fizesse ter lampejos de saudade das cores e sons do Rio quando estivesse tomando um vinho aos pés de uma lareira enquanto a neve caísse romanticamente lá fora através da janela; bobagem, logo não permitirei cenas pobres procriando em minha mente.    
         Os canadenses são famosos pela tolerância e respeito pela individualidade. Eu gostaria que minha amiga, que além de ser do bem ainda ostenta um intrigante sorriso de desenho animado, levasse uma lembrança significativa para a sua terra. O tema “partida” ficou martelando minha cabeça e não consegui encaixar o termo à despedida e sim à divisão, ao rompimento e à nossa cidade partida.
         Ônibus. Os ônibus sempre têm respostas. Peguei a linha 498 no Largo do Machado. Sentei ao lado da mulata farta, vestido florido, toalhinha no ombro, bolsa grande, fala fácil. Anéis. Quem usa muitos anéis tem muita história para contar. Fomos do bom dia ao papo íntimo em reles segundos só contemporizados pelo relógio do piscar carioca da garota no ponto para o cara na banca de revistas, aquele tempo registrado entre o convite passa lá em casa e o tô chegando se nem saiu de casa ainda. Atemporal, esta cidade se oferece aos viajantes. Venham e deixem seus temporais desabarem por aqui. Não nos assustamos fácil e gostamos da diversidade. Depois juntamos os cacos e criamos a partir de novas informações e valores. Tragam seus sotaques e peles amarelas, rosadas, negras e tatuadas. Bebam nossa caipirinha, mas se deixem aqui também. Derramem suas tintas e sons sobre nossos morros e praias sem matar a arte existente. Tragam seus euros, gourdes, dinares, dólares, coroas dinamarquesas ou não tragam nada; venham conquistar. Entrem em nossas casas, praças, florestas e águas, mas levem seus restos; já temos que lidar com os nossos. Cantem e dancem, amamos a festa, mas também o canto escandaloso das cigarras e das maritacas. Ainda fazemos silêncio para assistir a corrida dos micos pelo fio e das ondas pela encosta do Arpoador. Não à toa vivemos entre o mar e a floresta.  Às vezes ficamos putos, muito putos. Principalmente quando um puto chega aqui e se acha.
Se perca.
         Na bagagem, minha amiga, leve o que há de melhor e de pior do Rio: fragmentos de um povo sem origem completa que se reinventa todos os dias às topadas em suas ruas nervosas e escorregadias de suor.