sexta-feira, 29 de maio de 2009

O mar de Beth


Cada um que chegava, batia seu ponto e sentava imediatamente à bancada de trabalho. Com o consumo das horas, o falatório aumentava cada vez mais. Beth não se estressava, nascera para o SAC. Atendia cada consumidor como um destemido salva-vidas. Lançava-se em ondas gigantescas para resgatar um direito perdido ou uma informação afogada. Sabia ouvir o desespero sem perder o controle da maré. E ainda guardava fôlego para, ao final, reanimar o cliente com massagens no ego e soluções salvadoras. Nunca perdera uma vida, isto é, um cliente. Tal qual heroina de guerra, mantinha as inúmeras condecorações penduradas no lado esquerdo do peito.
Em sua primeira ligação do dia, sentiu a maresia gelada do outro lado da linha:
- Bom dia? Só se for prá você!! Quero encerrar a minha conta agora e não aceito argumentações. Não ouse desligar ou transferir esta ligação para o setor X, Y ou Z, pois anotei seu nome, cara Beth! Fui claro?
- Muito claro, senhor. O senhor gostaria de...
- Eu avisei mocinha. Quero falar com sua supervisora agora. Vai, vai chamar.
- Mas senhor eu só per...
- Você é idiota ou se faz? Isso não vai ficar assim!
Pipipipipi...
Pronto. Já tinha seu primeiro cliente perdido. O restante do dia passou em turbulentas ondas intransponíveis. Sentia as vidas afundarem na espuma das ligações truncadas. Por mais que tentasse sair da rebentação, seus braços foram adormecendo e não mais conseguiam nadar no apertado fio telefônico. Levou tanto caixote nos ouvidos que as vítimas sumiam nas águas turvas sem que Beth as alcançasse.
No final do dia, sentia tanto frio que as mãos tremiam ao bater o ponto. Estava destruída. Com os olhos marejados, foi para a praia conversar com o mar. Pensou longamente com as lágrimas voando e imaginou o quanto estaria gelada a água. Aproximou-se da beira, tirou os sapatos, o casaco e largou a bolsa. Parou. Pegou um punhado de areia branca e guardou no bolso do jeans. Sorriu e falou sem medo para o oceano: Levo a lembrança da batalha hoje perdida para não me esquecer de ganhar a guerra amanhã!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O carcará de pés azuis



Batizou o filho com nome nobre: Artur, o rei, não teria futuro semelhante aos seus; nascera para ser grande. Em que? Não interessa, Deus sabia, avisou.
Foi numa alvorada abafada que, Maria, sôfrega, trincou os dentes no paninho e expulsou o rebento do paraíso. Quase não sangrou e, ao ver a luz, Artur chorou.
O pai olhou pela janela e viu o céu cor-de-rosa paralisar as folhas do cajueiro, de susto. O carcará espreitou a moita, inerte, calculando o sabor da presa. Antes que a nuvem soçobrasse na caatinga, um assovio de assombro virou vento embolando a cortina de chita, assustando as moscas posseiras do cão esquálido que dormia ali, na sombra de qualquer coisa parada.
A ventania veio no maior vexame: corre daqui, corre dali, tira a roupa e o charque do varal, bota as crianças pra dentro e fecha a porteira cacarejada das galinhas.
Era o aviso.
O pai, mais que depressa, pegou Artur entre as mãos rachadas e o ergueu aos céus para ser abençoado. O Celeste arrancou de Artur o cueiro em fúria e, se não fosse a força das mãos paternas, teria levado o pequenino para Sua casa. Mas ele ficou, e não chorava mais.
Os pingos começaram a cair fazendo na terra esturricada um barulhinho oco de soco em porta de pau-de-fé. Um atrás do outro, foram encharcando o sertão de brilho; fazendo poça, riso, charco e vida.
Como começou, parou o tempo cansado deitando na roça de feijão-de-corda. O dia nasceu assim, satisfeito e abundante.
Artur, missão cumprida, mamou e dormiu sobre o seio suado de sua mãe.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Pequeno poema pueril: pobre poeta


Pesco palavras perdidas
Próximas ao perpétuo padrão
Pelo paradoxo prolixo
Peço perdão
Perto das pendências
Peco pelo pontual pedaço provocador
Pendente na persona palhaça pestilenta
À pedra e à pá persigo
A prosa prostituída, parto
Para a paródia proscrita
Presa perene das patas
Provocadoras do peito pétreo
Paro e penso pouco
Pois provo a parcos pingos
A promessa de paixão