terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O sofá do Barreto



Barreto ganhou um sofá usado do hotel onde trabalha: cinco lugares, estofamento de couro preto curtido e manchado. Uma belezura. Chamou o cunhado e o vizinho do caminhão, acertou umas cervejas para depois do carreto e partiram os três para pegar o presente do patrão. Aos “ais” carregaram o sofá da recepção do hotel até o caminhão. Mas sabiam da odisséia que estava por vir.
Chegando ao conjunto habitacional, daqueles com jeitão de pombal, Barreto não precisou estudar engenharia para perceber que o trambolho não caberia no elevador. Passou no bar e convocou Zé das Couves e Pirulito para a empreitada via escada. E quem disse que o sofá dava curva? Só se fosse dobrável, o que não era o caso. Agora era uma questão de honra. A sala limpa, os amigos zoando, a criançada e a patroa na janela esperando o gigante. Foi juntando gente. Apareceu uma corda e amarraram o monstro para ser içado até a janela do 3º andar. Em baixo, Zé das Couves e Pirulito administravam a corda-guia dentro da capacidade etílica da dupla, enquanto Barreto, as crianças e os vizinhos puxavam o mamute pela janela. A mulher abraçada ao terço, rezava.
Seguiram içando até que o traste despontou no alpendre. A emoção foi tanta que quase soltaram o safado que ficou balançando entre a sala e o abismo. Diante do perigo, a senhora do sofá não teve dúvidas: benzeu-se e mergulhou seus 100 kg sobre o móvel que, vencido, entregou-se completamente ao chão da sala.
A festa de inauguração do sofá do Barreto durou até o dia amanhecer.

A deusa do amendoim



Não tinha dó. Vinha de shortinho e top prá lá e prá cá. Os marmanjos coçavam as carecas numa pausa instantânea para que ela passasse toda sua opulência juvenil por entre as vítimas. Oferecia amendoim e, naquela mesa, sempre vendia no mínimo três. Ouvia todo tipo de piadinha e convites. Mas dar, que é bom, só um sorriso tímido e o troco.
A maioria dos boêmios se conformava com o agradecimento da pequena, menos Luisinho, o contador. Não só de números como também de histórias improváveis. Passou a flertar com a menina que, apertando os olhos, poderia ser a sua neta.
O contador não pensava em outra coisa além dos botões em flor por baixo do top. Deu para persegui-la de carro, oferecer carona e o número do telefone; sempre recusado. Meses de labuta se passaram sem que a garota cedesse nem um olhar mais tenro. Desesperado, ofereceu dinheiro, casa, comida e o que mais a deusa desejasse. Até que, enfim, acendeu uma luz perguntando se ele cuidaria de seus irmãos e da mamãe também. Luisinho respondeu “ Claro, meu anjo, tudo que você quiser.” Já enrolando no dedo indicador um cacho dos cabelos da morena. A menina pediu que ele se encontrasse com ela na praça Tiradentes às dez da noite, sem falta.
O homem endoidou. Jurou amor eterno, beijou mão e saiu para se preparar para a grande noite. Reservou uma suíte num motel discreto e limpinho. Comprou uma garrafa de vinho tinto para amaciar a moça. O plano era simples: Deixar a piveta doidona, comê-la, dar uma nota de 50 reais a título de cala a boca, e devolvê-la para a praça Tiradentes.
O contador chegou na praça às 9h45min. Esperou com a cabeça cheia de idéias e posições poderosas. Ela apareceu com seu paço de garça e sorriu. Ele sentiu um arrepio e beijou-lhe o cangote. Foi a última cena que viu. Levou a primeira bordoada do irmão caçula bem no meio das costas. Caiu no chão e pediu clemência para o irmão mais velho, concedida essa em forma de um chute nos ovos. Bufou, fechou os olhos e esperou terminar o festival de sopapos vindos de todos os lados.
Luisinho? Nunca mais comeu amendoim.

Hora do arrocho


- Ai!
- Desculpa aí.
- Não está vendo que não dá para passar...
- Não quero passar. Só quero colocar o meu outro pé no chão.
- Deu?
- Brigada.
- Ô comandante, liga o ar aí!
- Está quebrado.
- Abram as janelas se não eu tiro a roupa. Calor do cão!
- Mas está chovendo.
- Então abre o guarda-chuva.
- Abre! Abre! Abre!
- Vai descer!
- O senhor trouxe um bote?
- Não, mas não vou ficar nesse imprensado. Prefiro ser engolido pelo rio carioca.
- Espera a água baixar um pouco, velho.
- O trânsito está todo parado. Vou nadando e chego antes de vocês.
- Mãe, quero fazer xixi.
- Segura, moleque, que já está chegando.
- Mãe, chegando onde se a gente está parado aqui há um tempão?
- Cala a boca e não enche.
- Abre a porta agora! Vou sair!
- O senhor é quem sabe...
- Nossa... está puxando muito...
- Volta! Volta! Volta!
- É, vou esperar mais um pouquinho.
- Tudo bem aí, filho?
- Agora já estou aliviado.
- Fazer o que, né?
- Vamos levar um sambinha?
- Samba! Samba! Samba!
- “Assassinaram o camarão!”
- “Assim começou a tragédia no fundo do mar...”
- Dr. Trocador, leva na caixa!

Homenagem aos Originais do Samba.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Interagindo na área de risco


- Mãe, estou morrendo de fome...
- Deixa que eu faço um macarrão prá você, filho.
- Então acende o fósforo.
- Eu não. Vai explodir tudo.
- Claro que não. Não está vendo que o gás está fechado.
- Vazando. Sinto o cheiro.
- Já botei sabão na borboleta do fogão e não borbulhou.
- Continuo sentindo cheiro de gás.
- Fui eu, e daí?
- Olha lá, heim...
- Pronto, abri o gás.
- Lá vai...
- Viu? Acendeu tranqüilo. Agora bota a panela prá ferver.
- Já botei.
- Com água, não é mãe?
- Claro, claro, peraí...
- Cortou a cebola e o alho?
- Eu não. Faca é perigoso. Tem um mix de temperos ótimo aqui.
- Ih, mãe... Deixa que eu faço.
- Tá bom. Eu fico com a louça. É mais seguro assim.
- Olha a água.
- Tô olhando.
- Ferveu?
- Há um tempão...
- Por que não avisou?
- Você não falou nada...
- Tá legal, mãe. Bota o macarrão na água enquanto eu faço o molho de salsicha.
- Cuidado, meu filho, a água pode respingar em você.
- Deixa que eu ponho. Agora é só mexer de vez em quando.
- Sinto cheiro de queimado.
- É a cebola fritando.
- Não passou do ponto?
- Não mãe, tá tudo dominado.
- Sei.
- O macarrão tá pronto?
- Não sei.
- Experimenta, mãe.
- Tá quente.
- Tá pronto.
- Beleza, filho.
- Vamos ao que viemos!
Algumas horas depois...
- Bem, hoje fiz um macarrão para o nosso filho e ele adorou!
- Você fez?
- É. Ele ajudou um pouco... Deu trabalho, mas ficou ótimo!