terça-feira, 17 de novembro de 2015

Meu primeiro assédio

                 


           O assunto da moda é o primeiro assédio. Antes de entrar neste ponto gostaria de contar como descobri que era diferente dos meninos. Eu tinha dez anos e não lembro o que estava fazendo. Soltando pipa, fazendo cerol, jogando queimado, pique esconde, pique bandeira, pelada, amarelinha? Não sei. Estava descalça e sem camisa, só de short, como todas as crianças que brincavam no asfalto fumegante enquanto não vinha carro. As camisas e chinelas ficavam amontoadas na calçada. Neste dia minha mãe me arrastou pra casa e me informou oficialmente: “Você é uma mocinha e não pode mostrar os peitinhos na rua.” Aleguei a mais pura verdade, que eu tinha peitos iguaizinhos aos dos meninos e que eu brigava com eles de igual também. Até os meus cabelos curtinhos e desgrenhados eram iguais aos deles.   Piorou minha situação, fiquei de castigo meia hora porque lá em casa ninguém nunca apanhou e castigo tinha limite; eu é que não tinha. Vira e mexe “esquecia” da proibição sem sentido, principalmente quando tinha que jogar no time dos sem camisa. Os meninos nunca reclamaram e eu muito menos.
         Um dia eu estava sentada na calçada esperando a vez de entrar no pique e o pai de uma amiguinha, que até então eu frequentava a casa quase diariamente, sentou do meu lado e colocou a mão direita sobre os meus ombros descendo rapidamente até o meu micro peito e apertou. Dei um pulo assustada enquanto ele saía andando apressado e olhando para o chão. 
           Naquele instante mudo algo se quebrou dentro de mim e virei mulher. Mantive segredo e nunca mais tirei minha blusinha em público. A partir daquele dia entendi que teria de lutar muito, por toda minha vida, para brincar de pique com os meninos de igual para igual. E consegui.


Um quilo de tomates (7º lugar no desafio www.entrecontos.com.br)


¾    Glorinha, minha flor, precisa de ajuda aí na cozinha?
¾     Mô, vou fazer aquela macarronada que você adora. Vai lá ao mercado rapidinho e traz um quilo de tomate bem maduro. Um quilo só e tem que ser do débora que é pra molho. Traz também uma garrafa de vinho daquele que só você sabe escolher.
                    Era a deixa que Reboque estava esperando.
¾     Pode deixar, minha flor, volto já!
¾     Olha só, vai pela avenida para não passar pelo boteco do Seu Dodoca. Se eu tiver que sair daqui e te encontrar jogando porrinha com aqueles trastes eu te mato.
¾     Não vou passar nem perto.
                    Reboque chega esbaforido. A mesa para a Grande Final do Campeonato de Porrinha do Boteco do Seu Dodoca já está lotada.
¾     Porra, Reboque, já ia começar sem você!
¾     Só por cima do meu cadáver.  Vou soprar você da mesa rapidinho, Farofa. Bora logo que hoje eu estou possuído. Não tem pra ninguém. Seu Dô, traz logo uma gelada para lavar a serpentina.
¾     Ó, vou servir, mas se a Glorinha aparecer aqui quebrando tudo você paga o prejuízo. Da última vez ela espantou toda a freguesia.
¾    Sabe que eu não me lembro de nada disso?
¾    Claro que não, você saiu daqui rebocado; como sempre.
¾     Deixa de mimimi, homem de Deus, tua freguesia é toda de pinguço que só se espanta com água. Traz logo um tira-gosto de bife detetive acebolado. Com pimenta porque é pra macho. Seu Dô, dá logo a partida. Tô com um pouquinho de pressa.
¾     Na primeira mão não vale “lona”, acertar o “tiro” é ponto duplo, quem perder paga a rodada e vira a cana numa talagada. Tudo mundo ligado, né? Então já!
                    Ali só tinha pato para ele. Nunca perdeu para Farofa, Bola5, Jofre e jamais perderia para o Calçada; o coitado fazia as contas nos dedos então todo mundo via o que ele tinha na mão. Foda é derrubar o Coxinha, exímio blefador, riquinho da cobertura da esquina que frequenta o bar só em dia de porrinha, enche a cara de uísque doze anos com Coca-Cola, fuma cigarro eletrônico e segura os palitos como se fossem cartas de pôquer. A galera reclama que nem pobre na chuva que café, Coca-Cola e energético é doping e devia ser proibido numa roda decente de porrinha. Mas Seu Dodoca é muito rígido com o Estatuto da Porrinha, criado por ele mesmo, e aponta onde a regra é clara: “Art.23º. É obrigatório o consumo de bebida alcoólica em todas as rodadas; Inciso primeiro. É livre o consumo de qualquer outro tipo de bebida ou comida para acompanhar; Parágrafo Único. Toda bebida e comida deve ser adquirida neste estabelecimento e, de preferência, paga ainda no mês corrente. Trazer marmita de casa para tira-gosto e garrafinhas no bolso implicará na desclassificação do concorrente”.  Para alterar o Estatuto só com Assembleia Extraordinária e por unanimidade; vedado o anonimato. E como nunca conseguiram ser unânimes em absolutamente nada, ficou por isso mesmo.
                    Coxinha não perdia uma mão, bateu os adversários calmamente entre um gole de uísque e uma baforada eletrônica. Nem uma palavra e Roboque ali na cola. A peleja pau-a-pau e Reboque cantando de galo. Não perderia a oportunidade de zoar toda a mundiça que vinha sacaneando ele desde a acidental visita de Glorinha no estabelecimento, daí o maldito apelido.
¾     Rá! Comigo é assim, mato no palito. Isso aqui é pra gente grande. Eu sou pica voando! E aí, Coxinha? Tá se borrando todo dentro dessa calça de linho, né? Sei como é, camarada, calma que está quase na hora de você ir se limpar.  
                    Reboque acertou dois “tiros” e mandou bem com uma “lona”. Um a um os competidores foram sendo eliminados. Chegou à última rodada da exaustiva maratona etílica com os números dançando na cachola dos finalistas: Coxinha e Reboque. O adversário manteve a classe de um lorde, mesmo quando perdeu a penúltima mão. Reboque comemorou com um soco na mesa aos gritos:
¾     Que foi? Passaram quetichupe na coxinha? Ah lá, o riquinho ficou vermelho feito tomate. Caraca, os tomates da Glorinha! Sou um defunto posto. Vou ali antes que feche o mercado, um pé lá outro cá, e já volto. Segura a última rodada que é questão de vida ou morte.
¾    Vai logo ou vai perder por W.O.
¾    Tô indo, tô indo...
                    Entra no mercado se segurando nas prateleiras e arrastando os chinelos. Diante da gôndola pensa que nunca tinha percebido como eram altas aquelas prateleiras de garrafas. Achou melhor escolher qualquer uma ao alcance das mãos. Foi para o caixa, errou a senha do cartão duas vezes e na terceira o anjo da guarda resolveu ajudar. Já na calçada:
¾    Caceta, os tomates!
                    Volta para o mercado e se apoia com as duas mãos na bancada de frutas e legumes. Olha pra um, aperta outro, cheira mais um acolá, analisa cada exemplar com muito cuidado. Enche um saco com pouco mais de três quilos e sai orgulhoso sem pagar. O gerente chama de volta e, já sem paciência, Reboque tira uma nota de cem reais do bolso, amassa e coloca na mão do gerente. Agradece e segue para o boteco reclamando sozinho que comida está custando os olhos da cara. Estava até pensando em parar de comer para não ficar cego.
                    De volta ao boteco, já a postos no seu canto do ringue, Reboque pede mais uma para se concentrar. Bebe de uma vez só e encara Coxinha imaginando ele batendo panela na varanda da cobertura. O playboy só na desfaçatez, testa mais fria do que parede de hospital e cruzando as pernas como quem não tem saco. Reboque perde a primeira mão e chuta o pacote no chão sem querer. Ajeita cuidadosamente em cima da mesa e prepara a última mão. Agora é tudo ou nada. Coxinha fechou a mão perto do queixo de Reboque provocando. Levantou a sobrancelha esquerda sorrindo uma gota de veneno no canto da boca e arriscou:
¾    Tudo de seis!
                    Reboque olhou a arquibancada lotando o balcão e resolveu curtir um pouco mais o momento. Fez cara de interrogação, coçou a careca, acariciou o cavanhaque:
¾     Seu Dô, traz uma branquinha pra desanuviar.
¾     Bora, deixa de merda, mostra logo essa mão ou eu não sirvo mais ninguém.
¾     Se a torcida clama eu atendo com o ardor dos campeões, como já era esperado, hoje...
¾    Hoje você morre, seu safado!
                    A tapa na nuca fez Reboque soltar os palitos sobre a mesa e espirrar a cerveja.
¾    Glorinha, você aqui, minha flor?
                    Glorinha pegou a garrafa de vinagre que Reboque havia comprado e despejou na cabeça dele. Rasgou o embrulho com os dentes e foi arremessando os caquis maduros para todo lado.  Campeonato suspenso por motivo de força maior, muito maior. Quem viu jura que não ficou um copo inteiro na birosca.
A final
¾   Abraço de bêbado é vômito, pranto ou curra. Afasta de mim este corpo que não te pertence, Reboque!
¾   Caraca, Farofa, meu amigo de rolimã, pula-carniça e pipa vai amarelar? Agora que tô na merda ninguém joga um resto de amor pro velho amigo.
¾   Também não é assim, porra. Não precisa de discurso boiola comigo. O que tá pegando?
¾   Glorinha jogou minhas roupas num saco preto de lixo, daqueles de condomínio que serve também para cobrir presunto no asfalto, e me expulsou de casa na frente dos meus filhos. Fez a partilha dos bens ali mesmo com os vizinhos assinando como testemunhas:
¾   Fora daqui, safado, que a casa é minha e de meus filhos. Leva tua coleção de copos e garrafas vazias naquela porcaria de carro. Não esquece os troféus e medalhas dos campeonatos de pelada e porrinha envergonhando minha sala.
¾   Assim mesmo, cara, na lata? Isso dói.
¾   Tô dormindo no golzinho. O pessoal do escritório não pode saber. Mas vou ter que vender o meu companheirão para pagar o prejuízo da rodada de baiana da Glorinha domingo. Sou um exilado político do boteco sem direito a defesa.
¾   Por essas e outras que sou solteiro. Bobagem. Dorme lá em casa até baixar a poeira.
        Mas a poeira continuou rondando a vida de Reboque. A quitinete de Farofa fedia a cinzeiro de zumbi cariado e, volta e meia, Reboque tinha que sair às pressas para Farofa receber visitas especiais. Numa dessas chovia muito e Reboque declinou do convite. Farofa já não aguentava mais Reboque fungando, peidando e gemendo no seu sofá:
¾   Minha Glorinha, meus filhos, meu golzinho 1.0, minha porrinha, meu boteco; Deeeeus, eu quero morrer!
        Farofa botou o amigo na rua para que seu objetivo fosse logo alcançado. Amigo é para essas coisas.  Pra quê? Reboque saiu sem olhar para trás deixando um bilhete: “Não consigo arrastar a vergonha que enxertei em minha família honrada e em meus amigos nem tanto. Acabarei com minha incômoda vida sumindo como um peixe selvagem navegando na incompreensão dos fedidos ralos cariocas . Adeus mundo cruelmente amado! Assinado: O último refugo de Reboque”.
        Antes precisava marcar a fogo sua tragédia. Passou na casa de Bola5 e foi direto ao assunto:
¾   Bola5, você ainda faz tatuagem? Preciso fazer uma para a Glorinha agora mesmo.
¾   Tô um pouco enferrujado, meio assim, sei lá. Mas a mão tá firme e sendo questão de Glorinha não se pode arriscar. Vai querer o quê?
¾   Bota aí em cima do coração um tomate cor de sangue com o talo cravado no meu peito escrito: “Glorinha, amor eterno”.
¾   Forte isso, cara. Tira a camisa e morde este guardanapo que não tem pomadinha pra dor. Vai na valentia mesmo.

        Chovia tanto que o asfalto se abraçava com a calçada por baixo de uma onda de lama. Reboque arrastava seu saco de lixo como se fosse um cachorro fiel. Encontrou a porta do Seu Dodoca fechada e concluiu ser o lugar ideal para sua última morada. Deitou no meio fio e deixou as águas torrenciais lamberem seu corpo.
        No lugar mais provável de ser visto, preso com durex na tampa da privada, Farofa encontrou o bilhete do suicida. Pensou profundamente e gritou:
¾   Fodeu!
        Ligou para todo mundo. Farofa, Glorinha, Bola5, Jofre, Coxinha e Calçada rodam procurando Reboque pelo bairro debaixo de chuva. Coxinha dirige seu BMW reclamando que aquele covarde não tiraria o seu título de Campeão da Porrinha 2015 simplesmente morrendo. Passando na porta do bar encontram Seu Dodoca segurando Reboque desfalecido em seu colo. A comitiva segue, atochada no BMW, para o hospital com Coxinha grudado na buzina e no acelerador enquanto Calçada urra pela janela:
_ Uam! Uam! Uam! Sai da frente, poooorra!!

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¾   Você não tem o direito de fazer isso com a gente. O médico falou que você estava tão chapado que quase morre afogado numa poça.
¾   Juro, minha flor, que a partir de hoje não toco em álcool nem pra desinfetar pereba e muito menos em palito, nem de churrasquinho. Sou um novo homem. E não me chame mais de Reboque.
¾   Deus tá vendo, Reboque. Vou te dar só mais uma chance.
¾   Deus não só está vendo como participando ativamente. Olha a mensagem divina que ele te mandou?
Abre a camisola de hospital e mostra a declaração de amor encravada no peito ainda inchado.
¾   Ai, Reboquinho, que fofo! Não me dá mais um susto destes, viu? As crianças estão com saudades e aquela estante da sala ficou tão vazia sem os seus troféus. Não precisava ter feito um sacrifício destes, sei o quanto você se borra de medo de agulha. Tadinho do meu amor. Tão corajoso.
¾   Tomate madurinho do jeito que você gosta. Todo seu.
¾   Bobo, isto aí no teu peito é um caqui murcho.
¾   Vou matar o Bola5.
¾   Ele está lá fora no corredor com todos os outros trastes. Salvaram tua vida. Pega leve. Volto daqui a duas horas com as crianças. Te amo, meu caqui.
¾   Também te amo, minha flor.
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¾   Diga aí, vaso ruim! Que presepada foi essa? Tudo isso para reconquistar a Glorinha ou fugir da final? Tá com medinho é?
¾   Medinho? Coxinha, você vai ver o tamanho do meu medinho agora! Bola5, seu traíra da mão mole, fica de guarda na porta do quarto e não deixa ninguém entrar. Cuidado com uma enfermeira nazista do tamanho de um tanque de guerra, ela confiscou minha garrafinha e adora furar veia.  Seu Dô, trouxe o material?
¾   Palito e cachaça.
¾   Não bebo cachaça. Não trouxe o meu uísque e minha coca por quê? Tá de conluio com o caqui suicida?
¾   Tudo bem, Coxa, vamos no seco mesmo, mas aí você começa playboy.
¾   Ok. Três.
        Reboque pensou nas variáveis possíveis. Coxinha escolheu três para colocar dois contando com Reboque colocar só um. Coxinha é muito guloso, adora números pares e nunca bota zero. Lona na final nunca foi vista nesta roda. Reboque, tricampeão do bairro, conhecia o adversário desde menino e concluiu que o advogado iria jogar lona para surpreender. Fechou a mão vazia e se preparou para gritar lona. Antes de jogar levou o punho cerrado ao peito e sentiu o caqui queimar seu coração. Abriu a mão mostrando três palitos:
¾   Quatro!
Coxinha pulou da cadeira e abriu a mão vazia.
¾   Lona! Ganhei! Novo campeão nas paradas!
        Coxinha foi erguido pelos amigos e carregado pelo corredor do hospital aos gritos de “É campeão”. Reboque assistiu a cena em silêncio, sorriu e acariciou seu caqui.


     


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A Nave (40º lugar no desafio www.entrecontos.com.br)




         A Nave foi criada através de um estudo que durou meio século. Dotada de atmosfera autorregulável e autolimpante prescindia de filtros. Transparente em toda sua circunferência recebia luz regulada naturalmente, alimentando seus geradores dia e noite. Gerava sua própria água fundindo luz com o oxigênio artificial. As hortas não manipuladas eram semeadas, nasciam, cresciam e eram colhidas pela própria nave, evitando assim contaminação cruzada. Estava preparada para uma longa viagem.
O feito inédito, visitar um planeta de outra galáxia, exigiu um plano de exatidão matemática. A nave seria lançada através do grande arco atmosférico que se abria periodicamente. Uma grande massa de ar empurraria a densidade da nave maleável para o espaço. A viagem seria lenta e longa. O pouso estava previsto para  09:42:12 horas de 03/07/2463 – hora local - em um campo  de luminosidade intensa porém fresca, solo macio apenas o suficiente para suavizar o impacto do pouso.
O lançamento foi perfeito. A equipe comemorou emocionada. As condições atmosféricas estavam dentro do previsto. A nave cumpriu sua função em todos os setores. O comandante, exultante, mandou que todos se preparassem para o pouso. Não havia o que fazer. A própria nave estava programada para pousar sem a interferência da tripulação, basicamente de cientistas.
O comandante, horrorizado, viu o campo de pouso se aproximando inexoravelmente. Convocou toda a tripulação com urgência.
¾   Senhores houve uma falha inexplicável no projeto. A nave está condenada. Foi uma honra fazer parte desta equipe de bravos que deram suas vidas pela ciência. Nosso planeta nunca mais será o mesmo depois de todos esses avanços. Mas como não previmos esta variável?

Uma menina sopra numa argola. Uma bolha de sabão é lançada no ar e viaja pelo céu do jardim. Um grande pastor alemão dorme no gramado de barriga para cima, com a boca aberta e a língua pendurada. A bolha de sabão explode na sua boca. Ele abre um olho, boceja e volta a dormir. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Cavalo de Troia (6º lugar no desafio www.entrecontos.com.br)

         Cavalo de Troia

         Com Betão não tem tempo ruim. Encara cave jump, escalada na chuva, mergulho de plataforma de petróleo, mulher ciumenta, chefe burro e turismo no Complexo do Alemão. Sem contar que é ciclista no Rio de Janeiro. O cara é foda.
         Ou quase.
         Em segredo mantém-se refém de um inimigo íntimo de alta periculosidade terrena. A simples visão de um espécime rondando uma inocente banana causa-lhe espasmos neurológicos com reflexos imediatos no controle de todos os esfíncteres. A boca se contrai até os lábios beijarem a goela. As pernas bambeiam e o suor arde nas pálpebras.  Entretanto, apenas uma leve espuma seca no canto da boca poderia denunciar o inferno dantesco em que Betão cai quando percorre os perigosos mercados e feiras.
         Aprendeu táticas de dissimulação e guerrilha desde a infância, embora preferisse evitar o combate corpo a corpo.  Aprimorou com o tempo. Pode-se dizer que hoje é um especialista em seu medo. Maquiavel ficaria orgulhoso.
         As manhãs de sábado eram especialmente difíceis. Adentrava o campo de batalha bem cedo enquanto o exército inimigo ainda dormia. Sabia que a virgindade das frutas, ainda não bolinadas pelos infectos dedos dos clientes, seria fundamental para evitar o avanço inimigo. Treinou os olhos para identificar o movimento furtivo dos ignóbeis. Tudo anotado numa planilha. Não saía de casa sem um estudo profundo.
         Um dia acordou tarde e achou mais seguro sortear uma carta no tarô moderninho on line antes de ir às compras:
“A morte:
Pousa teus vermelhos olhos
Na minha doce decomposição
Vem me encarnar o teu fel
Enquanto a vida escorre
Só os podres renascerão.”
         Entendeu perfeitamente a mensagem. Não sairia de casa. Nem do quarto, nem da cama e nem do facebook. Melhor mijar numa garrafa e fazer jejum até a meia-noite besuntado de repelente e armado de inseticida. Beber Coca-Cola com energético durante a vigília até as pupilas dançarem rumba.
         Quando a campainha tocou sentiu o toque da besta no ombro. Era o sinal. Mas não iria abrir nem que fosse a própria mãe estrebuchando na porta. Pelo olho mágico filmou a gostosa do 102 com um cacho de bananas maduras entre os peitos. Pode ver toda aquela formosura cercada por nuvens de aviões inimigos. Os dentes da vizinha escancarados num sorriso de metralhadora. As drosophilas melanogáster brincando entre suas mechas douradas. Vade retro Nosferatu! Maldito Cavalo de Troia! 
         Abriu a porta.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

É a da feira?


¾   Bom dia, o senhor pode me dar uma informação?
¾   Só se for agora!
¾   A Rua Senador...
¾   ...Vergueiro? Facinho. Pega aqui a vida toda, quando não der mais mão chegou.
¾   Senador Corrêa.
¾   Ih, esse senador é mais difícil. Ô Parafuso! Vem cá, traste! Larga essas caixas agora!
¾   Deixa, moço, ele está trabalhando.
¾   Trabalhando nada. Tá só enrolando para não fazer entrega. Ô menino, já fez entrega na Rua Deputado Corrêa?
¾   Senador...
¾   Aquela da feira, dona?
¾   Não sei, não conheço, é que...
¾   Deixa de ser abilolado. Tem feira todo dia na cidade toda. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta-feira, sábado-feira, domingo-feira, feriado-feira. De que feira você está falando?
¾   A do Corpo de Bombeiros, chefe.
¾   Ah, bom. Por que não falou logo? Mas não tem mais feira lá. Acabou faz mais de década. O Seu Manoel da barbearia deve saber. Ô Mané, vem cá, Mané!
¾   Que é homem de Deus? Não vês que estou a barbear?
¾   É rapidinho. Sabe pra onde foi a feira da Praça dos Bombeiros?
¾   Foi para junto do viaduto. Não sei o dia, pergunta à Maria do mercado.
¾   Parafuso, vai lá no mercadinho chamar Dona Maria.
¾   Gente, muito obrigada, mas eu preciso ir, tenho hora marcada no...
¾   Vai sair perdida por aí? De jeito nenhum. Senta aqui e espera.
¾   Quem tá morrendo Zé da Banca pra me tirar do balcão?
¾   Pô Dona Maria, ajuda a moça aqui desesperada atrás de uma feira.
¾   Eu só queria a Rua...
¾   Mas hoje é terça. Só tem feira lá no Largo do Machado. E essa hora já tá tudo amassado desmontando.
¾   É mesmo Maria. Olha Dona, para a senhora ir pro Largo do Machado é moleza, é só voltar quatro quadras. Mas nesse calor nem sei se vale a pena. Mas tem o mercadinho da Dona Maria que tem de tudo um pouco fresquinho aqui do lado.
¾   Vem comigo, minha filha. Tenho o melhor tomate da cidade. Você gosta de tremoços?


sexta-feira, 13 de março de 2015

ABRICÓ CANADENSE

                                               

         Pensei em escrever algo para a despedida de uma amiga canadense prestes a voltar ao lar depois de uma exaustiva temporada carioca. Algo que a fizesse ter lampejos de saudade das cores e sons do Rio quando estivesse tomando um vinho aos pés de uma lareira enquanto a neve caísse romanticamente lá fora através da janela; bobagem, logo não permitirei cenas pobres procriando em minha mente.    
         Os canadenses são famosos pela tolerância e respeito pela individualidade. Eu gostaria que minha amiga, que além de ser do bem ainda ostenta um intrigante sorriso de desenho animado, levasse uma lembrança significativa para a sua terra. O tema “partida” ficou martelando minha cabeça e não consegui encaixar o termo à despedida e sim à divisão, ao rompimento e à nossa cidade partida.
         Ônibus. Os ônibus sempre têm respostas. Peguei a linha 498 no Largo do Machado. Sentei ao lado da mulata farta, vestido florido, toalhinha no ombro, bolsa grande, fala fácil. Anéis. Quem usa muitos anéis tem muita história para contar. Fomos do bom dia ao papo íntimo em reles segundos só contemporizados pelo relógio do piscar carioca da garota no ponto para o cara na banca de revistas, aquele tempo registrado entre o convite passa lá em casa e o tô chegando se nem saiu de casa ainda. Atemporal, esta cidade se oferece aos viajantes. Venham e deixem seus temporais desabarem por aqui. Não nos assustamos fácil e gostamos da diversidade. Depois juntamos os cacos e criamos a partir de novas informações e valores. Tragam seus sotaques e peles amarelas, rosadas, negras e tatuadas. Bebam nossa caipirinha, mas se deixem aqui também. Derramem suas tintas e sons sobre nossos morros e praias sem matar a arte existente. Tragam seus euros, gourdes, dinares, dólares, coroas dinamarquesas ou não tragam nada; venham conquistar. Entrem em nossas casas, praças, florestas e águas, mas levem seus restos; já temos que lidar com os nossos. Cantem e dancem, amamos a festa, mas também o canto escandaloso das cigarras e das maritacas. Ainda fazemos silêncio para assistir a corrida dos micos pelo fio e das ondas pela encosta do Arpoador. Não à toa vivemos entre o mar e a floresta.  Às vezes ficamos putos, muito putos. Principalmente quando um puto chega aqui e se acha.
Se perca.
         Na bagagem, minha amiga, leve o que há de melhor e de pior do Rio: fragmentos de um povo sem origem completa que se reinventa todos os dias às topadas em suas ruas nervosas e escorregadias de suor.  

                                                       

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Há 30 anos





         1985 foi um ano quente, muito quente. Os acontecimentos se empilharam formando uma torre colorida e desconexa como a geração da época. Fora as tragédias inevitáveis e evitáveis, foi um ano espetacular.
         Começamos o ano bem. O regime militar brasileiro foge pela porta dos fundos e dois ditadores falecem: Konstantin Chernenko e Emílio Garrastazu Médici.  Ocorrem eleições diretas para as prefeituras das capitais, das cidades litorâneas e de municípios "enquadrados" pela antiga Lei de Segurança Nacional no Brasil, em quase 20 anos. Surge no Brasil a primeira Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher em São Paulo. E o Prêmio Nobel da paz vai para médicos Internacionais pela prevenção da Guerra Nuclear.
         Michael Stuart Brown e Joseph Goldstein ganham o Nobel de medicina por elucidar  metabolismo do colesterol no organismo humano. O inquieto Claude Simon conquista o Nobel de Literatura enquanto o  oceanógrafo Robert Ballard encontra os destroços do navio britânico Titanic. E por lembrar cinema três filmes marcam para sempre a forma de ver a sociedade:  A Cor Púrpura de Steven Spielberg ,O Beijo da Mulher-Aranha, de Hector Babenco e Ran de Akira Kurosawa.
         No esporte começamos a ocupar as manhãs de domingo em companhia de Ayrton Senna, pole position com sua Lótus no GP de Mônaco de Fórmula 1 no dia 5 de maio.

         OEngenheiros do Hawaii fazem seu primeiro show no auditório da UFRGS e é formada a banda de hard rock, Guns and Roses. As duas bandas vieram a se apresentar no Rock in Rio em outras versões. A banda Legião Urbana lança seu primeiro disco, mas nunca se apresentou no festival  por ter como princípio não tocar em grandes festivais patrocinados por multinacionais. Na contramão cria uma legião de fãs.
         O novo Brasil assiste ao  primeiro Rock in Rio.  Bebe cerveja ruim, come pior ainda, mas respira música  ao vivo antes limitadas aos vinis empenados na vitrola. Chove quase todos os dias e a lama torna-se o protetor solar natural. Ninguém se importa.
         Na última semana de gestação uma bronzeada garota assiste aos prantos o Show de James Taylor. O bebê, até então chamado de Verão, ouve seu 1º Rock’ in Rio. No dia 20 ela deseja mais do que qualquer coisa na vida assistir Nina Hagen e YES. O pai da criança, outro garoto, está no festival trabalhando e curtindo muito. No começo da noite as contrações avisam ser necessário mudar os planos. A mãe se diverte com as intenções da filha em parir seu neto no festival. Já na maternidade ouve Nina Hagen latindo em alguma TV, a bolsa estoura e uma grande tempestade tropical sacode a cidade. Decide dar o nome de Nina se fêmea for. Se macho continuaria sendo Verão até ideia melhor.  
         Durante o YES, à 1:15 h do dia 21 de janeiro ocorreu o fato histórico mais importante dos últimos 30 anos, meu filho Ian Cunha Angeli nasceu. O planeta nunca mais foi o mesmo.