sexta-feira, 15 de julho de 2016

BAMBURRADO

Com vocês, o conto "Bamburrado", que me classificou em 3º lugar na etapa final do 1º Game Literário do Portal da Escrita - Oficina de Criação:


Tovico nasceu nos canaviais de Flexeiras e por lá ficou cortando cana até os trinta anos. A desesperança da seca, a mulher e os filhos minguando, a escravidão do senhor de engenho, empurraram o homem para a cidade. Na estrada ouviu o burburinho dos trabalhadores com trouxa de viagem penduradas nas costas. Estava brotando ouro na floresta para quem chegasse. Era dinheiro para nunca mais trabalhar para os outros. Viu o pau-de-arara cheio. Subiu com o caminhão já em movimento sabendo ser sua grande chance. Três dias depois, cruzando caatinga, sertão e mata fechada, chegou à morada do Perdido, que tudo dá para tudo tirar.
Na primeira semana se atracou com um barranco para chamar de seu. Foi tirando dali alguma poeira de ouro e mandando o dinheiro para Salete e os meninos. Não esperava carta, ambos não conheciam as letras por parte de pai e mãe, mas o nome da mulher e endereço tinha decorado. Ficava só com uns trocados para pagar a comida e o alojamento.
Os dias, meses e anos foram provando a fé de Tovico. Amargava lama e umas pitadas de ouro que o Perdido dava para o sonho não sumir de todo. Na véspera de Natal sonhara com uma onça pulando da floresta e destruindo o seu barranco com as unhas. Acordou atacando o barro com a fúria de uma draga. Sentiu a frieza da pedra e arrancou com as mãos a pepita da lama. Nascia dali, do ventre da terra, o seu futuro. Gritou para os céus em agradecimento. Seu corpo tremia de exaustão e alegria.
Correu aos Correios mandar tudo para Salete. Já até via um rio cheio de peixe atravessando a terra cultivada. A grama fresca alimentando o gado gordo, a cadela Baleia correndo atrás das galinhas poedeiras, a casa caiada com reboco e varanda cheia de flor de maracujá. O casamento com Salete vai ser de papel passado e na igreja como manda o figurino. Ele de terno e chapéu, ela linda vestida de branco, véu e grinalda rendada. A festa vai ter buchada de bode inteiro para todo o povoado aproveitar a fartura. Iria revezar a plantação de macaxeira e feijão de corda. De cana não. Tinha o corpo todo lanhado de corte para enriquecer usineiro. Seus filhos não herdarão suas cicatrizes. Vão fazer o que moleque nasceu para fazer: estudar e brincar. Depois da lida, no fim da tarde, descansaria os ossos balançando na rede assistindo o fuzuê das crianças subindo nas mangabeiras e cajueiros.
Antes de mandar o dinheiro foi informado de carta disponível para ele. “Oxente, qual vivente se avexaria em me palavrear com letra?”. Meio incomodado pediu para o moço da loja ler os escritos, que vinham em envelope com as bordas verdes e amarelas, preenchido com letra caprichada:
“Tovico,
Pedi para a professora Ivanilda escrever esta carta porque gosto das coisas bem certas. Esses anos de penúria e solidão quase matam a gente de fome e desgosto. Não posso mais esperar por você e resolvi aceitar o pedido de casamento do Seu Miguel do armazém. Não amo o velho, mas ele me trata com respeito e vai garantir o futuro das crianças. Agora sou uma mulher casada e direita, então não mande mais dinheiro e nem notícias.
Viva o sonho do teu ouro e seja feliz,
Senhora Salete de Albuquerque.
- A desalmada tem até sobrenome agora. - Pensou Tovico com os bolsos cheios de dinheiro.- Pois eu vou é pro puteiro afogar o ganso e a cara na cachaça!
Abriu a porta da boate e gritou:
- Hoje a conta é minha porque eu bamburrei!
***
Clotilde empurra o corpo sobre o balcão.
- Acorda traste. Pega aqui dez cruzeiros pra voltar pro garimpo.
- Oxe, cadê meu dinheiro?
- Você bebeu com teus amigos e torrou tudo com as meninas.
- Não me alembro de nada, Dona Clô.
- Eu sei, meu filho. Lembra o caminho da serra? Então vai tirar lama do buraco e só volte aqui rico.
Tovico levou muito a sério as ordens de Dona Clotilde. Levantou assustado e saiu com os bolsos leves, mas a cabeça inchada de cachaça fazia um perigoso pêndulo. Balançou um olho comprido pros quartos da mulher que recolhia os copos inteiros no salão da Boate Dragão de Ouro. Pensou com seus calos: “Ainda volto bamburrado e compro essas quengas todas. Ah, se compro!”
O homem da carroça recolhia os defuntos da noite anterior. Alguns de morte morrida e outros de morte matada. A maioria na faca, porque fogo só os homens da lei do Major Curió podiam usar. Corpo com buraco de bala sumia logo. Os desgraçados na peixeira ficavam jogados onde expiravam. Tovico pegou carona na carroça. Sabia que ela passaria nos alojamentos para continuar a coleta, antes de desovar a carga no galpão em frente ao cemitério. Remexeu nos bolsos de um corpo de bruços. Retirou o maço de cigarros amassados e os fósforos. Acendeu agradecendo ao falecido com um tapinha nas costas.
Mais um dia nasce cobrindo de poeira, lama e sangue os sonhos de Tovico.
Catarina Cunha
(Ficção livremente inspirada na reportagem “O sonho da Serra Pelada”, de Ricardo Kotscho):