sexta-feira, 18 de junho de 2010

Bem cheirozinho



Meu nome é Bárbara e estou decidida a ter um jardim com ervas finas na janela do conjugado e não vou mais pagar rios de dinheiro por folhas impregnadas de agrotóxico. Antes de comprar sementes e vasos, farei um curso de jardinagem urbana num desses espaços zen, tipo vegan e coisa e tal. Dedicação exclusiva e cultura assimilada, agora mãos à obra. Terra, adubo, vasinho decorado, dez dias, quinze dias, vinte dias e nada das sementes germinarem. No vigésimo primeiro dia uma folhinha verde brotou. Vitória volátil: capim, lindo, mas capim aos montes devidamente devorados pelos gatos da casa. Insisti com a plantação por mais quatro tentativas. Só capim e gato feliz. Meditei profundamente observando a janela tomada por uma floresta de capim e a festa dos gatos embolando no vaso carinhosamente preparado para receber, manjericão italiano, hortelã, alecrim... Lembrei meu pai dizendo que a gente não pode desistir dos projetos no meio só por causa de algumas intempéries, se não vai ficando um monte de coisa incompleta pelo caminho e quando menos esperamos e mais precisamos, olhamos para trás e não vemos nada construído. Preocupante essa lembrança. Seria eu uma mulher insensata, volúvel, desconcentrada, impulsiva? Será que essa derrota denota o quanto eu preciso aprender na vida e que na verdade eu não mereço ter na minha janela ervinhas e sim capim? Dizem que a gente é o que planta, logo, sou um insignificante vaso de capim. Pensando melhor, vamos deixar de frescura porque esse capim até que é bem cheirozinho, a feira tem todas as ervas de que preciso e ponto final.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Palavras redentoras



Bento gostaria de acreditar, ao menos, em uma das três coisas que movem o mundo: religião, política ou time de futebol. Entretanto a vida o fez assim, desprovido de fé. O que não impediu seu sucesso, mas é certo que dificultou sua vida. Sabe que sua peculiar, digamos, característica, não é defeito genético, pois a mãe era carola de rezar o terço diariamente e ajoelhar-se todos os domingos em frente ao altar. O pai, flamenguista de carteirinha, filiado ao partidão, não dispensava um trabalho na encruzilhada para dar um empurrãozinho na eleição e no campeonato brasileiro.

O menino cresceu sob a ameaça de ir para o inferno e amargar uma vida besta, sem graça e sem amigos. Formou-se, casou-se e teve uma penca de filhos. Sempre fiel às suas crenças; isto é, sua ausência. Viu os filhos e netos sucumbirem à religião e à camisa do flamengo. Um dos netos, para seu desgosto, virou até vereador. Cansado de lutar por suas ideias tornou-se um velho ranzinza e solitário dentro daquela enorme família. Nem nos dias mais críticos Bento apelou aos céus. Encarou com muita dignidade suas convicções de misteriosa origem.

Mas o dia da razão é certo para todos, seja crente, ateu, flamenguista, botafoguense, homem, mulher, mosquito ou couve-flor. No leito de morte, após noventa anos na corcunda, a família reunida choramingava na despedida de olho no relógio porque o fim era próximo, mas estava demorando além da conta. Acenderam umas velas e hastearam a bandeira do partidão no pau da cortina. Um neto cobriu o avô com a camisa do flamengo e outro, padre, ofereceu-se para ouvir sua primeira e última confissão.

Bento abriu os olhos pesadamente e analisou a situação. Toda a família estava lá. A fumaça movia a luz das velas na parede. As cortinas fechadas e os semblantes pesados deu-lhe a consciência do fim e o alento redentor para suas últimas palavras:

- Tirem essa bandeira empoleirada na minha cortina e esse pano de cima de mim. Apaguem essas velas que eu não quero chegar no inferno trepado num poleiro e vestido de urubu defumado.