quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Coragem, dezembro


         Caixinhas, comprinhas, lembrancinhas, íntimos esquecimentos; vinhas e rinhas de Natal, não há perdão. Impossível traduzir todo o seu amor em objetos horrorosos.
         Forcas bipolares travestidas de guirlandas seduzem inocentes décimos terceiros salários. Papai Noel se multiplica em varandas envidraçadas. Bizarros arranjos penduram o velho barbudo vermelho entre luzes e pedidos de revanche, a memória escorre nos umbrais.  Ambulâncias urgem enquanto shopping centers lotados de calos e dívidas futuras piscam sedutores. Pisca-piscas incendiários, presépios decorados com alienígenas fluorescentes em miniatura: nada a declarar por suas santidades. O povo quer mais. Dingobel, dingobel, acabou o papel.  Hoje vai bater 40 graus. Vai cair o maior toró. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal. Sensação térmica de 46 graus, e olha que não chegou nem o verão.  Esqueceram o vestilador ligado, incêndio num sobrado no centro do Rio. “Rio, cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz.” Libera a gravata, o terno e o martelo.
Amigo oculto, inimigo íntimo, festa de fim de ano, dinheiro curto. Foda-se, crediário em 12 x sem juros. Não paga. Depois de 2 anos negocia para pagar ¼ só para limpar o nome e arranjar outra dívida. Todo ano é a mesma merda. Peru, chester, galinha, frango, codorna, ovo cozido não pode faltar na farofa. Passas pretas, passas amarelas e aquelas outras frutas secas murchas, dignas de nojentos adjetivos beijando bolores. Agora ninguém me convida pra ceia.
Muita imaginação para fazer  o panettone comestível. A amiga no metrô ensina: uma camada de sorvete, outra de panettone, outra de creme de leite. Freezer. Depois da bebedeira todos amam.
Durante o ano todo ninguém come à meia-noite, mas ceiam no Natal e Ano Novo, peru, pernil de porco, baicon, panettone, chocottone, diarreittone . No dia seguinte dá três tapas na cara para se convencer que valeu apena, mete o pé na porta da farmácia e ataca  antigases; antiácido, socorro, meu fígado sumiu!. E pros embutes naturebas: chá de folha de goiaba, boldo, cidreira, erva doce... ai, ai, ai que peninha. Ok? Tudo bem? Hora do enterro dos ossos. Você não pode faltar.
Dieta oito couves e nove grãos, vida nova, muita água. Só pode começar no primeiro dia do ano, viu? Até lá tá tudo liberado. Fez a lista? Comprou agenda? Limpou o “face” de gente do mal? Visitou a tia? Doou suas extravagâncias? Então pode entrar. Um novo ser brota de dentro de cada humanoide. Seremos 14 bilhões à meia-noite. O ser velho sucumbirá no ácido do perdão no primeiro minuto do novo ano e voltaremos a ser 7 bilhões purificados.
A obrigação de ser feliz em dezembro é o empurrão que falta aos suicidas. Graças alcançadas. Para os incompetentes, meias embrulhadas em papel natalino com laço de fita vermelha. Merecem. Melhor sorte no próximo ano.
Engarrafamento, lei seca, chuva, mijo, fedentina, barulho, gente feia. Vamos ver os fogos?  De novo? Claro! Por que não? Preguiça. Te beijo. É pouco. Continuo tentado. Fofo. Gostosa.

Pula sete ondinhas molhando a beirada do vestido. Sorri e seu homem ama a cena. Champanhe e taças de vidro aquecidas por guardanapos roubados, saudades do filho. Flores para Iemanjá; já-já a Lua se oferecerá às estrelas e nenhum gelo se manterá integro. Areia nos pés recitam poemas malditos e só ele escuta e toca e vê os fogos pipocando dela; só. Sabe que estaria morta sem ele e oferece o único tesouro que tem: os olhos. Tira a nossa foto, assim você arrancou a minha cabeça, minha flor, tira outra, agora assim, vem cá. Viu a Lua? É para você, sempre.

Operários sujos de tinta e massa corrida comem  PF requentado no boteco. Comentam animadamente as dramáticas esperanças de seus times no campeonato brasileiro.

        


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

BELADONA



         
          Beladona nasceu com um problema que carregou como uma cruz por toda a vida. Veio ao mundo proprietária inquestionável de uma beleza intoxicante; daí o nome.

         Foi a bebê mais fofa da maternidade: sem ruga, amarelão, hematoma ou inchaço. Verdadeira top model do berçário. No parquinho sua companhia era disputada pelas mamães, papais, babás, bebês e até pelos cachorros. Voltava para casa toda lambida e as bochechas amassadas. Passou a infância sendo assediada, bolinada e elogiada como uma boneca de vitrine. Lutou até a adolescência por uma identidade própria. Quis ser professora, veterinária, bombeira, policial, atleta e cientista. Todo mundo achava graça como ela era linda e brincalhona. Foi capa de revista infantil, modelo e, para ser atriz, bastou estar de corpo presente no estúdio ganhando muito dinheiro. A família, orgulhosa, cobria a garota de mimos.  Eram tantos compromissos que Beladona desistiu de seus sonhos.

         Com o tempo se acostumou com o cardume de gente feia circulando em volta de sua beleza. Beladona já não se incomodava, muito pelo contrário, vazia parte de sua vida, vivia disso.  

         Como tudo que acostuma adormece, ocorreu algo estranho com Beladona. Ela não conseguia mais ouvir e nem sentir as pessoas a sua volta. Era apenas um redemoinho de cores desconexas. A loucura chegou a sua casa e encontrou a porta aberta e dona de peito escancarado. Os cardumes sumiram, a família apiedou-se e os fãs choraram.

         No espelho apenas o consolo do rosto distorcido.
        

         

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Dívida histórica


Quem olhava para o meu roçado esturricado, as galinhas carecas e Vaidosa, a vaca leiteira, com as costelas assanhadas e as tetas secas, pensava logo que eu não cuidava da posse. Mas Deus é testemunha que não havia galo que, ao acordar, não me encontrasse lutando no roçado. Por mais que cavasse não brotava água nem para amolecer a terra.

Os meninos sem condução ou disposição na barriga para ir até a escola por um mingau ralo, iam ficando por ali mesmo catando mandacaru e xique-xique. A mulher toda manhã vagava duas léguas com o mais velho para catar água na poça sobrada do açude. A vida cobrava mais do que dava e nem o Sol, que nunca faltou, se compadecia do nosso miserê.
Um dia uns homens de sapatos pretos em carro de roda larga chegaram medindo telhado, colocando calha e cano até uma caixona enfiada no chão. Tampada que nem uma chaleira guardava a escuridão. Aí veio os meses da chuva e a caixa encheu. Os homens trouxeram médicos de fala esquisita, mas de boa mão. Um ônibus passou a recolher as crianças para a escola e devolver no fim do dia de barriga e cabeça cheia.  Desde que passamos a receber um dinheirinho  precioso que pinga todo mês, não falta mais comida nem pras galinhas. Vaidosa engordou e voltou  a leitar. Dá gosto ver a macaxeira brotando no roçado para vender na feira da cidade. O mais velho já sabe ler e conhece os números  ajudando nas contas. A patroa não precisa mais carregar água e deu para fazer uns cestos de palha para vender com a macaxeira. Fincaram uns postes compridos na estrada e a luz veio correndo pelo fio até nossa casa. Com a venda das cestas deu para tirar uma geladeira no crediário. Agora a gente pode guardar comida.
Perguntei pros homens de sapatos pretos o motivo de tanta gastança com minha família. Avisei logo que não havia como pagar tudo aquilo. O homem de gravata disse que já estava pago porque eles tinham uma dívida histórica comigo e que foi o meu voto que possibilitou eles honrarem a dívida. Falaram também que muito tinha para fazer ainda e que com o meu voto só podia melhorar. Assuntei não lembrar de meu pai ter historiado de alguém nos devendo um naco de coisa que fosse. Insistiram. Vou discutir as voltas que o mundo dá?
Agora que estamos mais fortes, podemos lutar de igual com o povo da cidade. O mais velho fala até que vai ser doutor.
Meu pai dizia que milagre é um troço que a gente só colhe se plantar. Hoje eu completo a prosa do velho. Todo milagre precisa de um empurrãozinho para dar munição pra brotar. Domingo eu e a patroa vamos à cidade votar, de novo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sou nordestina, de pai e mãe.

        
         
Sou nordestina, de pai e mãe. Não me interessa minha origem portuguesa, espanhola, holandesa, indígena ou africana. Sou brasileira e nordestina e isto me basta. Nasci em Maceió, Alagoas e, pasmem, não sou idiota. Amo e conheço minha terra como quem toma um caldo-de-cana ruim pela manhã sabendo que à noite todo o potencial de meu povo pode surpreender.  
         Cresci em uma família de trabalhadores e pensadores que se preocupam mais com a dignidade, alimentação e educação dos seus do que com a rotação da Terra e a opinião alheia.
         Divertidas, se não fossem trágicas, as reações xenófobas nas redes sócias pregando o extermínio do povo nordestino, são de uma virulência tão inócua que remetem à “Revolta da Vacina” no início do século passado ou à penca racista imputada a Monteiro Lobato. Aos ataques infantis seria covardia qualquer revide. De muitos legítimos defeitos de meu povo, um que ele não tem vocação é para a covardia.
         Não precisamos de julgamentos ou aceitação, muito menos de bandeiras defensoras do “orgulho nordestino”. Cada nordestino se orgulha de seus próprios feitos e não de fazer parte de uma região geográfica. Nunca ouvi falar de “orgulho de ser sudestino” para os nascidos na região sudeste.
         Forjamos nossa cultura à custa de muita labuta e humildade; talvez mais humildade do que o necessário. Ajudamos a construir o Brasil de hoje  difundindo e multiplicando nossa arte pelos vilarejos do país e nas grandes metrópoles. Pagamos um preço alto pelo direito ao nosso sotaque, arte, som, opinião, valores e trejeitos: o discurso de ódio travestido de liberdade de expressão.

         Mesmo o coco dormindo no pé e o caranguejo esperneando na lata, na minha casa só entra confiança. 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ninguém aprende a ser atleta em meia hora de esteira, muito menos a respeitá-lo.


Não vou falar da Copa. Ninguém aguenta mais; nem eu. O assunto de hoje é muito mais profundo. Quero falar do atleta, esse ser que de tão simples chega a ser complexo. Ao contrário da Copa, FIFA, CBF, Governo, que podem ser julgados politicamente, o atleta não pode ser confundido com elementos exteriores à sua essência. Ser atleta requer práticas e conhecimentos físicos e mentais desconhecidos da maioria ensandecida opinante nas redes sociais e até de alguns respeitáveis jornalistas que vêm divertindo a população com suas crônicas “esclarecedoras” quanto à incompetência dos jogadores.
                Li recentemente um texto apócrifo, logo covarde, que execrava os jogadores de futebol pela imerecida rápida ascensão econômica e social sem estudar, sem esforço. O texto alegava que a derrota da seleção brasileira para a alemã era merecida por serem os jogadores brasileiros uma cambada de vagabundos, ignorantes e malandros. Acho uma hipocrisia acreditar que toda sabedoria vem do estudo acadêmico. Eu valorizo todas as formas de aprendizado. O fato de alguns atletas semianalfabetos ganharem por mês mais do que doutores conseguem guardar a vida inteira me incomoda? Nem um pouco. Incomoda não termos nenhum doutor, cientista, escritor respeitável ou professor milionário com fama de herói. Mas a culpa não é dos atletas. O desenvolvimento intelectual não depende do estudo formal e sua aceitação social é um fenômeno que extrapola a questão do merecimento.  Minha experiência de vida e acadêmica me provou que dedicação e talento produz mais resultado do que estudo  e investimento financeiro.
A mente do atleta não gira em função da própria imagem ou de seus fãs, muito menos da alegria ou tristeza do país.  O atleta abre mão de várias coisas, assim como todos nós que lutamos para realizar sonhos. O atleta sofre com isso? Claro que sim, mas não é um sacrifício. Sacrifício ocorre quando se abre mão de algo que se ama para beneficiar outra pessoa. O atleta visa o benefício dele mesmo, de sua carreira e de sua família.  Como você. Mas ao contrário da maioria, começa a trabalhar muito cedo, em média aos dez anos de idade. O verdadeiro atleta visa resultado, marcas, bater recordes, ultrapassar seus próprios limites e para isso treina exaustivamente. Foca, se concentra e estuda, sim, estuda muito seus movimentos, técnicas, adversários e obstáculos. É uma escolha, mas escolha não representa resultados. Esta é a parte cruel da vida. Nem sempre os mais esforçados serão os  vencedores.  Mas todos são, indistintamente, atletas e possuem o mesmo valor. Quem, em algum momento da vida foi atleta vai entender esta afirmação.
No entanto quem nunca teve a oportunidade de viver o espírito esportivo e arrisca-se no terreno íngreme da critica esportiva em camadas de gordura intelectual e prefere transformar um resultado esportivo negativo em hecatombe político-social psicoantropológica com reflexo socioeconômico no clima do planeta; que vá catar coquinho, dar meia horinha para relaxar, fazer vinte minutos de esteira que é para começar devagar para não arrebentar as veias no primeiro dia. Não entende absolutamente nada do mundo esportivo, mas se acha no direito de julgar atletas que treinam há dez anos.
Ninguém aprende a ser atleta em meia hora de esteira, muito menos a respeitá-lo. Se você frequenta a academia três vezes por semana porque o trio do capeta fez a festa (colesterol, triglicerídeos, glicose)  ou para perder aquele pneu indesejável você não é um atleta. Você anda estressado e antes que mate o chefe, resolve dedicar o fim de semana para o ciclismo urbano, correr na praia, praticar surf, yoga e aquele negócio de caminhar numa corda bamba a meio metro do chão; funciona, relaxa, faz um bem danado, mas você não é um atleta. Atleta é outra coisa completamente diferente. Pode procurar no dicionário. O atleta aprende o autocontrole do corpo e da mente. Aprende muito cedo a ouvir, obedecer, mandar, dividir e principalmente seus limites e suas potências físicas e mentais. Isso o diferencia dos medíocres, não só em campo, como também na vida. O atleta de ponta aprende tanto sobre si mesmo que sabe que, a qualquer momento, o seu melhor ou o seu pior pode explodir.
                O escritor tem seu palco ao receber um prêmio literário ou autografar seu livro na noite de lançamento, o artista plástico na vernissage, o doutor na premiação pela tese, o atleta também pelo resultado. E assim como esses intelectuais agradecem em seus discursos à família, a Deus, aos Mestres, etc. O atleta que aponta para o céu oferecendo ou agradecendo a Deus a conquista, outros se curvam para Alá. Uns  fazem coraçõezinhos com as mãos, colocam a bola embaixo da camisa imitando a gravidez da esposa. E tem os que nem comemoram.  Os carecas, cabeludos, moicanos, fofos, canibais, todos, sem exceção, são atletas de ponta e lutaram muito para receber o seu olhar, o seu julgamento e o direito a existir para sempre em sua memória. Na vitória e na derrota. Se você se esforçou e pegou o espírito da coisa, ótimo; mas você ainda não é um atleta.

                

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A PRAÇA É DE NINGUÉM



As praças foram criadas para que os humanos pudessem interagir de forma centralizada. Fosse para se divertir, competir, se exibir ou compartilhar a comida. As praças participam da evolução da humanidade. Nascem, têm seu apogeu, tragédia e abandono junto com suas civilizações. Algumas adormecem como Pompéia e Machu Picchu. Ao contrário das civilizações as praças, enquanto espaço aberto,  nunca morrem, apenas adormecem. Aguardam o momento propício ao renascimento.  As praças eternizam-se na memória de cada frequentador e momentos, como clichês, não morrem. O leitor neste momento deve lembrar da praça da infância onde brincou de escorrega, jogou bola de gude, deu o primeiro beijo, conheceu a pessoa amada. Todo mundo tem uma lembrança de uma praça a preservar. Eu também tenho uma praça.
Moro na bucólica Praça São Salvador, fincada na zona sul do Rio de Janeiro, Brasil. Sem trânsito intenso, arborizada, ruas de paralelepípedo, parquinho, chafariz e coreto. A dez minutos do Centro, do lado do metrô, a um pulo do Aterro do Flamengo e a um túnel da zona norte, a um beijo de Copacabana. Quando achei este recanto pensei que ele estava preso numa bolha do tempo, preservado da loucura do século XXI. Até a poucos anos tratava-se de um esconderijo secretíssimo. Coisa só para entendido cascudo de carioquice, protegido pela conversa de boca miúda, sem anúncio no jornal, regalo para poucos iniciados. De manhã bem cedo idosos praticavam tai-chi-chuam, crianças brincavam, jovens namoravam e trabalhadores descansavam na hora do almoço. No começo da noite botecos familiares faziam a festa dos moradores para um chope depois do trabalho. Tinha de tudo na praça: farmácia, frete de mudança,  padaria, lavanderia, barbearia, videolocadora, papelaria, minimercado, salão de beleza, lanchonete, açougue, loteria, banca de revista, correio, dentista, clínico geral, ponto de táxi, chaveiro, ônibus, pedreiro, corpo de bombeiros, bombeiro gasista, eletricista, banca do jogo do bicho  e o Zé do Queijo, que faz de tudo um pouco, menos queijo;  e o Aroldo, o mendigo de estimação da área completava a “obra prima”. Todos se conheciam pelo nome e a vida funcionava sem maiores assombros. Fiz questão de ser enfadonhamente descritiva para que o leitor percebesse o quanto o morador sãosalvadourense tinha motivo suficiente para se sentir numa ilha autossuficiente. E como todo ilhéus, isolado por excelência, com muito trabalho, imune à miséria e à riqueza.   Seria necessário mais do que isso para existir com dignidade?
Até 2007 o Rio viveu tempos de grande violência com o tráfico de drogas e as milícias disputando a cidade à bala sem que o governo do Estado tomasse ciência. Era uma cidade sitiada, principalmente nos bairros carentes. Embora  a nossa pracinha não sofresse tanta pressão, também não ficava impune. Depois da meia-noite ficava deserta e escura, entregue aos bandidos. Cruzar a praça na madrugada era uma aventura para os fortes. Podendo perder a carteira ou algo mais precioso. Depois o governo mudou, melhorando a qualidade de vida para inúmeras comunidades, através de segurança e serviços públicos. Isso refletiu também no asfalto e as ruas ficaram mais seguras. O carioca é rueiro por natureza. Se depender dele passa dia e noite na rua. Nossa praça começou a ser mais frequentada pelos moradores.
Por iniciativa de alguns moradores ligados ao meio cultural criaram a roda de samba “ Bagunça meu Coreto” e a roda de chorinho “Conserta meu Coreto” e depois a Feirinha de Artesanato no Domingo. Emocionada e orgulhosa vi surgir diversas trupes de jovens criativos, circenses, batuqueiros, poetas, escritores, livreiros, militantes políticos ocupando o espaço vivo, porque a praça é uma simbiose entre o concreto e o criativo. Romântico isso. Belíssimo. Estava funcionando maravilhosamente bem. Tínhamos pequenos shows de blues, jazz, MPB, um monte de coisas. Alguns ambulantes independentes. Tudo intimista. Quem quisesse ouvir que descesse para a praça. Só acontecia nas sextas e nos sábados à noite até às 22 horas e nos domingo pela manhã. Funcionava e pronto.
Em pouco tempo a pracinha virou moda entre descolados. Começou a aparecer gente para fazer shows cada vez com mais equipamento e de todos os costados. Um dia ocuparam a quarta, depois a segunda, a terça e quando olhamos para o lado não tinha mais dia e nem  horário. Falam agora que a praça “São Salva” é o lugar onde tudo acontece. Um “formador de opinião” decidiu e pronto. Saiu no jornal. A qualquer momento para um caminhão e começa um show. Os amplificadores ganharam poder de trio elétrico. Vinte e duas horas termina o show que oficialmente teria autorização para estar ali e começa a manifestação espontânea do povo vindo de todas as partes do Rio de Janeiro e do mundo. Sim, do mundo. Hotéis já têm convênio para trazer gringo para a praça em van fretada. Depois das dez da noite, em nenhum outro espaço residencial da cidade, é permitido perturbar o silêncio. Não na Praça São Salvador, porque “São Salva” a noite. Depois deste horário é possível ver uma verdadeira procissão de ambulantes, turistas e boêmios, já devidamente calibrados, migrando de outros bairros apagados para a praça que nunca dorme, que salva a noite dos que não podem pagar os preços exorbitantes de ingressos de boates.  Traga sua zabumba, seu trompete, pandeiro ou mesmo seu coro de bêbados para cantar até o dia amanhecer. Não que o sol seja impeditivo da sua bebedeira e cantoria continuar incessantemente; de maneira alguma. É que, infelizmente, a Comlurb precisa retirar a  tonelada de lixo e de garrafas quebradas e lavar a urina e vômito da noite anterior, preparando assim o terreno para a próxima noite.
Quem perde com isso? Os verdadeiros artistas que procuram respeitar o espaço público, trazendo propostas novas e não têm condições de competir no mercado monopolizado por figurinhas marcadas do show bizz e os moradores  a beira de um infarto ou um ataque de nervos que perderam seu espaço, seu referencial de vida e paz. Ocorre que apenas os artistas, simpatizantes e os moradores estão discutindo a relação na rede e, claro, se desgastando. Isto só enfraquece o mesmo exército.  E sabe quem ganha com isso? Quem está cagando para se a praça vive ou morre:  O turismo predatório, ambulantes empresas que desovam à meia-noite  cem engradados de cerveja e políticos em ano eleitoral propondo gradear a praça. Estes são parasitas que sugarão até a última seiva da praça. E quando não houver mais o que tirar encontrarão outro recanto para destruir.  Enquanto isso, a Prefeitura espera confortavelmente uma posição mais contundente da sociedade para tomar uma decisão.
Gradear uma praça porque não sabem usá-la seria como trancar uma biblioteca porque crianças não sabem ler. Devemos deixar a chave da biblioteca com a diretora esperando a sabedoria chegar às crianças ou deixar os livros com as crianças para que sejam rasgados, coloridos e recortados livremente?

Ou organizamos e ensinamos a ler?

quarta-feira, 25 de junho de 2014

UM POUCO SOBRE A FÉ


Sou uma mulher de família, sensível e agnóstica por definição. Falo assim, aos poucos, para não assustar o leitor na primeira linha. Na verdade sou uma mulher sem religião, coisa que minha mãe nunca acreditou e sempre me viu como uma verdadeira cristã. Mas o olhar das mães sobre os filhos é tão insuspeito quanto inconfiável.
Ser agnóstica para mim não foi uma escolha, foi uma consequência natural de um raciocínio lógico. Nunca levantei a bandeira do ateísmo, porque não nego a existência de Deus, eu ignoro sua existência, não faz diferença na minha vida. Simples assim. Esta posição tem uma consequência: um profundo respeito pelo ser humano, os animais e este planeta. Acredito que só tenho esta vida de mamífera para viver, meus atos e palavras terão efeitos imediatos, sem milhagens celestes ou infernais.   Exatamente por isso admiro profundamente quem tem fé em Deus, invejo até, quem cultiva tão singela virtude. Quem a tem vence obstáculo mais rápido, resolve quebra-cabeças sem consultar o fundo da caixa, não precisa gastar rios de dinheiro com terapia e, se perder as chaves basta três pulinhos e uma prece rápida para São Longuinho e está tudo resolvido. Quem tem fé tem o dom de se perdoar, logo se dá ao direito de errar mais.
Não é tão simples assim. A fé é mais complexa do que sua ausência. A fé exige mais comprometimento consigo mesmo e com seus valores. Ao menos deveria ser assim.  Partindo deste princípio e conhecendo muita gente de fé que honra sua crença com sabedoria e bondade, fico aqui cutucando meus neurônios sem encontrar resposta para a seguinte questão: Por que a humanidade insiste em fazer da religião seu maior instrumento de maldade, traindo a própria fé despudoradamente? Por que não podemos viver em paz sem impor nossos dogmas aos demais? Por que eu não posso ser sua amiga?

Lembrem-se, mamíferos. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Não aguento mais gente que não aguenta mais



Antes das redes sociais, quando não queríamos mais ouvir comentários sobre uma determinada notícia, bastava desligar o rádio ou fechar o jornal ou se afastar disfarçadamente do chato do momento.  Hoje acordamos com o sinal de alarme de mensagem nova no nosso celular de uma operadora invasora informando que a seleção da Croácia pousou neste exato momento no aeroporto brasileiro. Melhor quando o celular toca na chuva, paramos numa marquise escura e suspeita para ouvir uma gravação que não podemos perder a incrível promoção de tablet dez vezes melhor e mais barato que o nosso. Como não se sentir pelado numa vitrine? Entramos no metrô e a tevê informa que a festa de casamento da socialite em São Paulo foi deslumbrante. No noticiário do elevador fico sabendo que pesquisa afirma que 1/3 das mulheres e ¼ dos homens preferem desabafar com os cães. Um cachorro orelhudo vestido com um agasalho bizarro ficou à deriva para adoção no Largo do Machado. Milhões de crianças e animais estão abandonados neste momento, mas aquele cachorro moveu o mundo e conseguiu seu Shangri-la, foi adotado por uma família com um harém de mais quatro cachorrinhas. Só eu recebi a mensagem oito vezes.  Queremos saber das coisas, mas as coisas se repetem exaustivamente porque conhecemos muita gente e as pessoas querem interagir, dar opinião, saber a nossa e assim criam uma bola de neve sufocante. Amamos fazer parte de grupos. Assim sobrevivemos e evoluímos. Assim também entramos em guerra e tivemos que defender nosso espaço e zona de conforto. E na internet qual a zona de conforto necessária para o humano, esse mamífero territorial, predador, se sentir seguro o suficiente para não atacar o próximo gratuitamente? Como fazer com que esse animal acuado não reaja com violência em dobro? Como evitar ver uma dona de casa ser morta como uma bruxa da idade média e um publicitário com humor de sardinhas 88 esquartejar um zelador porque a correspondência era mal distribuída? Eu vi um cadeirante ser  arrastado como pano de chão no hospital porque estava sem a carteira de identidade? Pare esse trem doido, seu maquinista, que eu quero descer! Chamem Herodes para esclarecer direitinho o que está acontecendo. A humanidade sempre foi ruim ou está piorando a cada dia? Ou será que apenas estamos retratando mais nossa brutalidade e covardia? Hoje todo bolso tem uma câmera pronta para documentar as piores barbáries, antes só faladas e palavras são facilmente esquecidas. Mas as imagens ficam no inconsciente coletivo e se repetem, magoam e geram mais dor e mais violência. Desenvolvi uma teoria capenga a partir de algo que li sobre gatos precisarem de vinte metros quadrados de território para se sentirem seguros. Na minha teoria cachorros precisam apenas da promessa de quilômetros quadrados que eles já abanam o rabinho feliz da vida. Já grande parcela dos humanos concentra sua segurança num teclado de, no máximo, trinta centímetros. Através das maquininhas déspotas se agigantam, idiotas viram pensadores, a história é bulinada com requintes de crueldade e os covardes procriam impunimente. E quantos metros quadrados tem a internet? Onde reside o limite para não nos sentirmos invadidos em nosso terreno, ofendidos em nossas crenças, valores e ideologias sem perdermos aquela imperdível amiga de infância e seu filho amiguinho virtual com pensamentos tão divergentes de nosso próprio filho? É simples. Não podemos aderir ao bloco dos que não aguentam mais e sair por aí distribuindo veneno. Neste faroeste os fracos não têm vez. Temos que aguentar se quisermos continuar neste mundo como o desenhamos e você, já que leu isto até aqui, faz parte do grupo dos fortes.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

UNHAS MARCANDO O COURO



Não conseguia entender a teoria aplicada no PowerPoint durante a reunião no escritório. O café que ela servia rivalizava com o escurinho da sala e as piscadas das imagens. Na saída o Sr. Douglas tentou escambar um beijo bêbado de Viagra no elevador em troca de um Ray-Ban de hastes douradas de lentes espelhadas que recebera por ser o vendedor do ano de 1989. Na rua ele ofereceu carona com as calças duras e o hálito seco. Ela olhou para os ônibus lotados pensando na estrada Grajaú-Jacarepaguá e o quanto vem adiando aquela cirurgia de varizes. Sentou no Corsa Sedan do Sr. Douglas segurando a bolsa no colo com as unhas marcando o couro. Ele falando do tempo o tempo todo, ela ouvindo a música do lado de fora, a música que a cidade canta todos os dias na hora em que todo mundo quer ir para casa ao mesmo tempo. As janelas e os postes sendo levados pelo vento possante do Corsa do Sr. Douglas. Foi apagando aos poucos e quando acordou o Sr. Douglas já estava se limpando. Ela ficou com o Ray-Ban.


sábado, 10 de maio de 2014

A espanhola que sobreviveu à gripe


Decidiram não ter filhos para viver exclusivamente um para o outro. Os primeiros dez meses de casamento de Lisa e Beto foram de lua de mel, os próximos de puro fel. A divisória entre o céu e o inferno não passou nem pela alfândega, não precisou de passaporte, muito menos de visto ou carimbo consular. Um ding-dong na campainha foi o suficiente.  Lisa abriu a porta e lá estava a sogra de mala, gaiola de papagaio, cachimbo e cuia de chimarrão. Não, não era gaúcha, adquirira o simpático hábito com o falecido marido. Embora não largasse a cuia e a garrafa térmica era imigrante espanhola. Chegara num navio fétido com o irmão, o pai e a mãe. A mãe morreu no parto com o terceiro filho nos campos de tomate no interior de São Paulo, o pai e o irmão sucumbiram à gripe espanhola, daí passou a sofrer dos nervos. Casou com um italiano surdo que não se incomodava com o fato dela falar sozinha, reclamar e gritar o dia todo e à noite também; o que não impediu que fizessem três filhos. Com a viuvez e a velhice pirou de vez. As filhas mais velhas sumiram no mundo o mais longe possível deixando ao caçula a missão de cuidar da espanhola doida, agora convertida em filha adotiva definitiva.
Beto tentou de tudo. Dinheiro não era problema. Ela não queria morar na melhor casa de repouso de São Paulo. Também recusava a própria casa com vários empregados. Queria porque queria morar no apartamento do filho e não se fala mais nisso se não ela ficava sem ar. Embora Dona Elvétira tivesse 87 anos, quase cega, osteoporose, lordose, escoliose, cifose e todas as “oses” possíveis e imagináveis era mais ágil do que uma mosca quando Lisa e Beto se recolhiam para dar uma namoradinha. Logo ela conseguia levantar da cama, cruzar o corredor, bater na porta deles passando mal, quase morrendo. Parecia que a desgraçada adivinhava, devia ir pelo faro. O pior era que bastava os dois tirarem o carro da garagem, antes de chegar ao hospital, para toda a dor terrível passar. Provavelmente pela milagrosa aragem da Avenida Paulista.
No café da manhã era um amor de pessoa, beijoqueira, alisadora, grudenta até. Agradecida a Deus pela sorte de ter um filho tão bom e uma nora tão generosa. No almoço confidenciava com a nora que não sabia como ela aquentava um homem molenga como o filho dela. Puxou ao pai. A nora, mesmo que feiosinha, era nova ainda, podia encontrar coisa melhor.
Depois do jantar alugava o filho para uma caminhada pelo quarteirão por ordem médica. Aproveitava para informar que Rodolfo, o papagaio, observou que Lisa só vive no telefone às gargalhadas com não se sabe quem. Também, não tem o que fazer, né? Você trabalha tanto, não é meu filho? Ela anda tão tensa, precisando se divertir. Você tem cumprido suas obrigações maritais? Quem sabe ela pare de me dar tantos beliscões?
Quando Lisa voltava do trabalho a empregada contava que a velha passava a tarde gritando na janela pedindo socorro, que estava sendo torturada, roubada, beliscada. O casal acabou tendo problemas com o síndico, os vizinhos e por fim com o Ministério Público.
O martírio de Lisa e Beto se arrasta por dez anos, fazendo com que sua saga envergonhe a obra de Dante. E quando a saúde de Dona Elvétira parece melhor do que nunca, uma bela tarde de rotina de escândalo na janela, a velha cai adoentada. No leito de morte, chiando baixinho com a mão esquerda esquálida entre as de Lisa, a velha com os olhos marejados observa a paciente e abnegada nora. Beto em pé na porta chora. Elvétira levanta suavemente a mão trêmula até o rosto de Lisa que se aproxima. A moribunda arfa no ouvido da nora:
_ Ele nunca vai ser teu, sua vagabunda.
Lisa acaricia os cabelos da sogra e responde no único ouvido que funciona:
_ Ele sempre te odiou, velha escrota. Vou te enterrar com aquele papagaio fofoqueiro entre os teus peitos e o cachimbo fedorento enfiado no teu rabo. A gente se vê no inferno.
Morre. Beto se aproxima e fecha seus olhos. Pergunta para Lisa quais foram as últimas palavras de sua mãe. Lisa pisca duplamente para si mesma. Ela pediu perdão e disse que te amava muito. Beto abraça o corpo e soluça. Pobre mamãe, no fundo era uma mãe calorosa. Lisa concorda. Sim, bem no fundo.





quinta-feira, 3 de abril de 2014

A nossa ditadura militar foi sólida, líquida ou gasosa?


Venho acompanhando, meio sorumbática, essas “revelações” escabrosas durante o cinquentenário do golpe militar. Nasci em junho de 1963, logo o governo militar me acompanhou desde as fraldas como uma entidade onipresente regendo minha pátria durante vinte e um anos, matando, estuprando, torturando e destruindo carreiras.  Além de sanguinário, o governo militar conseguiu ser corrupto e incompetente, afundou o país na maior crise econômica e abandonou os pobres na ignorância e na miséria absoluta. No fim, não sabia mais o que fazer com essa merda toda que criou, com a inflação estratosférica, o povo querendo eleições diretas, uma confusão dos diabos. Saiu pela porta dos fundos. Ainda bem na foto, fazendo a “transição democrática”. Todo mundo com seus soldos, aposentadorias, conta em banco na Suíça, sem responder por seus crimes, uma beleza! Todo mundo anistiado. Anistia AMPLA, GERAL e IRRESTRITA. Coisa linda. Pluft! Foi pura mágica. Pagamos um preço muito alto pela democracia: a impunidade. A ditadura militar sumiu e ninguém mais falou nela. Tudo resolvido. Encubou, virou peste contida, monstro solto com focinheira. A sociedade que apoiou o golpe fingiu-se de morta e não sabia de nada. Ninguém sabia de nada. Vida que segue.
     Aí a lembrança chegou ao poder. Num determinado momento alguém bateu a cabeça na parede e a memória começou a voltar. Começou a pipocar as Comissões da Verdade. A imprensa golpista teve um surto de amnésia ao contrário e liberou seu torpe arquivo digital. Um cemitério clandestino ali, um relato de ex-preso político acolá, culminando com um torturador que, durante 29 anos ficou calado, agora vem contar que fez, aconteceu, recebeu ordens, torturou, esquartejou, enterrou, desenterrou, que era muito bom nisso e que não se arrepende de nada. Nadinha. Faz sentido. Por que ele iria se arrepender? Ele não tem motivo algum para se arrepender. É um cidadão livre, eleitor, aposentado. Muito bem aposentado por sinal. Serviu ao seu país de acordo com o que o seu país esperava dele nos últimos 50 anos. Pagou impostos, deu bom-dia, boa-tarde e boa-noite para o porteiro e, provavelmente, levanta a tampa da privada para mijar. Se o seu país tem algo contra ele por que o tratou como herói durante toda sua vida?
         Voltando ao tema de hoje. A nossa ditadura militar foi sólida, líquida ou gasosa? Se considerarmos como premissa o diamante pescado no Manifesto Comunista, onde “Tudo o que era sólido se desmancha no ar”. Já temos um suspeito.  A nossa ditadura aparentemente desmanchou-se no ar, logo era sólida. Mas quem atentar para o conteúdo da obra de Karl Marx perceberá que essa destruição ocorreria pela ação do povo, então viraria pó. Mas como a nossa ditadura não caiu, saiu porque quis, não deixou pó para nossa histórica vitória, estamos descartando a teoria do sólido.
       Foi durante a natação que tentei desenvolver a teoria de que a nossa ditadura foi líquida. A ditadura preencheu todos os espaços disponíveis, sufocava quem não respirava direito e não se movimentava conforme a maioria. Infiltrava-se e mudava de cor quando queria. Tinha o silêncio como aliado e a tormenta como arma estratégica. Não. O que não podemos agarrar com as mãos é livre. Se o líquido é livre, a ditadura não é líquida.

         Resta-nos o gás. Mortal, invisível, pestilento, dissimulado, silencioso e covarde. Um peido inesquecível.  

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Lixo acumulado

(Foto Arte Roa)
Subiu no coreto da praça numa seca manhã, abriu os braços e anunciou:
- O fim está próximo! Para você, para você e para você aí também que bebe inocentemente sua água de coco. Os dias estão contados para estas árvores centenárias e seus pombos cagadores. E não pense que esse cachorro de cara achatada e olhos esbugalhados terá salvação. Todos, todos morrerão quando o céu se abrir em fogo e soltar o hálito da besta nas nossas ventas!
Foi juntando gente. Seu Milito da banca comentou com seus jornais: O Zé das Tintas pirou de vez. Muita cachaça ou chifre; só pode.
- E quem duvidar há de boiar nas caixas de gordura do belzebu com a cabeça raspada com gilete enferrujada!
- Sai daí maluco! Gritaram da arquibancada.
- Quem ousa retrucar a palavra sagrada há de ser o primeiro a conhecer o breu eterno.
Lá pela quarta fileira da plateia um passante estica o pescoço:
- O que foi? É briga ou maluco?
- Maluco. É o Zé das Tintas. Tem três meses que não consegue um rodapé para pintar. Passou o Natal, assim juntinho do Ano Novo, sem um puto no bolso, aí veio esse calorão todo e deu nisso aí que você está vendo, fritou o pouco juízo que o homem tinha.
- Gente... Coitado... Vamos chamar o Corpo de Bombeiros...
- Pra quê? Ele só está anunciando o fim do mundo, não mordendo o povo na praça. Bombeiro não liga sirene para apagar viagem de maluco.
- É mesmo, né? Olha só, até que o Zé fala bem, viu? Se a gente pensar direitinho está tudo pela hora da morte. Vai que ele teve uma daquelas visões escabrosas, tipo Nosferatu.
- Nosferatu ou Nostradamus?
- Pode ser esse também. Veja bem: O mundo está maluco, se acabando em água, gelo, calor e frio. O povo anda zumbizado e ninguém fala mais no Raul Seixas.
- O que Raul Seixas tem a ver com isso?
- Lembra daquela música dele que fala em preferir ser uma ameba ambulante...
-  Metamorfose ambulante do que ter aquela opinião formada sobre tudo.
- Isso! Pois é. Agora cabeleireiro condena cálculo estrutural de obra pública, dona de casa escreve resenha teatral destruindo trabalho de anos. Cartomante passa remédio, advogado virou psicólogo. Estão até dizendo que este ano o Campeonato Brasileiro vai ser disputado direto no STJD.
- O mundo está perdido mesmo.
- Fodido. É gente deprimida pichando estátua de poeta, cracudo esfaqueando ciclista, marombeiro modernizando o pelourinho com trava de moto...
- E aquele povo do mal adotando gato preto para sacrificar na encruzilhada?
- Credo.
- E as armas químicas na Síria? E o esgoto na praia de Botafogo? E o Obama ouvindo meus papos com a Tereza da farmácia?
- Coisa de louco. E as redes sociais? Até agora só arranjei encrenca e amigo virtual esquisito.
- É isso aí, Zé!
- Apoiado Zé! Bora acelerar esse fim de mundo para depois do Carnaval. Aproveitar o lixo acumulado.

- Zé! Zé! Zé!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Pequenas animalidades do cotidiano

(Foto Sammy Angeli)

         Calor do cão. Clássico no Maracanã lotado, recém-reformado, telão, cadeiras fofas, papel higiênico nos banheiros, luzes escalafobéticas, padrão FIFA mesmo.  O campo ali esfregando no nariz do torcedor a grama suada. Sensação de primeiro mundo.  Vira-lata orgulhoso.
         O juiz apita o começo da apoteose. Uhú! Todo mundo levanta, faz marola, punheta bandeiras, canta hino e quica. Coisa de louco. Eis que chegam os personagens onipresentes nos clássicos: a valente polícia carioca. Formam um paredão bem na frente da arquibancada tomando toda a paisagem sagrada. A galera estica pescoço se balançando tal boneco do posto para ver o gramado. E a PM lá mantendo a formação de reticências emparedando o espetáculo.  Ninguém ousa reclamar.
         Ocorre que Samuel, nascido no Rio Grande, criado pescando no rio Taquari, adolescente forjado nas peripécias de Minas Gerais, viajado por todos esses cafundós do Brasil, com mais de vinte anos de carioquice, achou por bem dialogar com a autoridade.
         - Aí, Comandante, por favor, dá pra dá uma licencinha aí pra gente ver o campo?
Não prestou não.
O “Comandante” veio caminhando em câmera lenta na direção de Samuel que continuava feliz da vida curtindo o momento acompanhado do filho. Quando percebeu o “Comandante” já estava respirando na sua cara. Antes que Samuel esboçasse qualquer simpatia peculiar à sua natureza recebeu logo os cumprimentos tão marcantes nessa classe de trabalhadores:
- Olha pra mim Seu filho-da-puta! Tá querendo tirar onda com a minha cara, Seu Merda? Vou te encher de porrada, viadinho escroto. Quer me tirar daqui? Vem me tirar daqui! Tenta, vai, tenta que eu quero ver. Vai apanhar tanto que vai chorar pelo rabo. Que foi? Que foi? Perdeu a coragem? Desistiu de morrer hoje? Bostinhas como você eu esmago como aquecimento depois do café da manhã. Entendeu ou vou ter que desenhar nos teus cornos?
O sangue subiu até as sobrancelhas de Samuel. O filho, carioca acostumado a levar dura da polícia nas noites da Lapa, colocou lentamente a mão espalmada sobre o peito do pai. Samuel sentiu os cinco dedos do filho segurando o seu coração. Olhou melhor a figura suada fincada na paisagem. Mão na arma, uniforme gasto apertando uma barriga fenomenal, botas opacas, olhar vazio, boca mole, alma dura. Sabe-se lá que filme ruim esse cara passou na vida. Sorriu por dentro com o pensamento. Sentiu a mão do filho o arrastando e falou com a sensação de ouvir um ventríloquo:
- Sim, Senhor.
Partiram para o outro lado do estádio.  Com o fel ainda diluindo nas veias Samuel comentou com o filho em tom casual:
- Cara estressado, né?
- Ôô...


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Chinelo azul

          

        Meio enterrou-me na areia Solar. Recebi a camiseta e a bermuda formando sobre mim um montinho abafado. Pelas tiras vi o homem entrando na água com um mergulho borboleta. Adorava vê-lo entrar no mar e sair nadando em caça deslizante ao jacaré. Depois me entediava e ficava olhando o povo passando de um lado para o outro e as crianças fazendo “castelos de areia” que mais pareciam crateras lunares rodeando dunas de estrume. No cume mais alto um canudo plástico enfiado num envelope de picolé faziam o papel de bandeira da fortaleza. Lá vem um turista ensandecido pelo calor ou pela caipirinha ou por ambos e cai no fosso do castelo. Invasão! Invasão! Gritam as crianças embolando na areia enchendo e as amídalas de areia. Depois corre todo mundo para a água para dar barrigada e sair gargalhando com zumbido nos ouvidos. Penso aqui com as minhas borrachas: essa deve ser a primeira alucinação humana de tantas que virão em suas pandêmicas vidas.

            Gosto também dos humanoides desprovidos de consciência da finitude, são descolados, inocentes e desencanados. Chegam à praia vestidos de dez reais amarrados na sunga. Dão cambalhotas mortais para mergulhar, jogam futebol, altinho, vôlei e frescobol por horas debaixo de sol bebendo cerveja e comendo torresmo ou biscoito Globo e fazendo fumaça. Contrário dos humanoides informados, colados e encanados. Trazem ou alugam barraca e cadeira, já chegam de chapéu, óculos escuros e besuntam o corpo todo de protetor solar. Carregam bolsas imensas de onde tiram canga, celular e vários objetos não identificáveis. Bebem água mineral ou de coco e comem salada de frutas. O tempo de permanência na praia é determinado pelo jornal. Acabou de ler vai embora. Muitos nem olham para o mar, o céu e seus habitantes. Dia desses um tinha acabado de montar acampamento e meu dono pediu para ele dar uma olhadinha em mim por enquanto que  mergulhava. Ele disse que não podia, pois já estava de saída. Pode um negócio desses?
             
        Nós não temos hora pra sair da praia. Invariavelmente esperamos o Sol se despedir para buscar nosso rumo e, enquanto minhas tiras aguentarem, eu voltarei. 



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