sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Pequenas animalidades do cotidiano

(Foto Sammy Angeli)

         Calor do cão. Clássico no Maracanã lotado, recém-reformado, telão, cadeiras fofas, papel higiênico nos banheiros, luzes escalafobéticas, padrão FIFA mesmo.  O campo ali esfregando no nariz do torcedor a grama suada. Sensação de primeiro mundo.  Vira-lata orgulhoso.
         O juiz apita o começo da apoteose. Uhú! Todo mundo levanta, faz marola, punheta bandeiras, canta hino e quica. Coisa de louco. Eis que chegam os personagens onipresentes nos clássicos: a valente polícia carioca. Formam um paredão bem na frente da arquibancada tomando toda a paisagem sagrada. A galera estica pescoço se balançando tal boneco do posto para ver o gramado. E a PM lá mantendo a formação de reticências emparedando o espetáculo.  Ninguém ousa reclamar.
         Ocorre que Samuel, nascido no Rio Grande, criado pescando no rio Taquari, adolescente forjado nas peripécias de Minas Gerais, viajado por todos esses cafundós do Brasil, com mais de vinte anos de carioquice, achou por bem dialogar com a autoridade.
         - Aí, Comandante, por favor, dá pra dá uma licencinha aí pra gente ver o campo?
Não prestou não.
O “Comandante” veio caminhando em câmera lenta na direção de Samuel que continuava feliz da vida curtindo o momento acompanhado do filho. Quando percebeu o “Comandante” já estava respirando na sua cara. Antes que Samuel esboçasse qualquer simpatia peculiar à sua natureza recebeu logo os cumprimentos tão marcantes nessa classe de trabalhadores:
- Olha pra mim Seu filho-da-puta! Tá querendo tirar onda com a minha cara, Seu Merda? Vou te encher de porrada, viadinho escroto. Quer me tirar daqui? Vem me tirar daqui! Tenta, vai, tenta que eu quero ver. Vai apanhar tanto que vai chorar pelo rabo. Que foi? Que foi? Perdeu a coragem? Desistiu de morrer hoje? Bostinhas como você eu esmago como aquecimento depois do café da manhã. Entendeu ou vou ter que desenhar nos teus cornos?
O sangue subiu até as sobrancelhas de Samuel. O filho, carioca acostumado a levar dura da polícia nas noites da Lapa, colocou lentamente a mão espalmada sobre o peito do pai. Samuel sentiu os cinco dedos do filho segurando o seu coração. Olhou melhor a figura suada fincada na paisagem. Mão na arma, uniforme gasto apertando uma barriga fenomenal, botas opacas, olhar vazio, boca mole, alma dura. Sabe-se lá que filme ruim esse cara passou na vida. Sorriu por dentro com o pensamento. Sentiu a mão do filho o arrastando e falou com a sensação de ouvir um ventríloquo:
- Sim, Senhor.
Partiram para o outro lado do estádio.  Com o fel ainda diluindo nas veias Samuel comentou com o filho em tom casual:
- Cara estressado, né?
- Ôô...


Um comentário:

Sylvia Regina Marin disse...

É, querida Catarina, o cotidiano está arrasador. A solução é essa mesma - respirar fundo, ter compaixão pela infeliz mãe que pariu essa criatura, e seguir adiante com fé na humanidade, apesar de tudo.
Conto lúcido e visceral, como a própria autora.