sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Caldo Verde



Chegou ao restaurante de estimação seco por um caldo verde. Pediu no capricho. Veio batata processada com três fiapos de couve. Virou bicho. Chamou o gerente, bateu nos peitos, exigiu explicações, desculpas e uma porção extra de couve. Não foi atendido em nada; isto é, quase nada, pois a conta chegou certinha. Sorveu o caldo de batata reclamando entre os dentes. Não houve nem um plus a mais de couve. Não pagou os dez por cento e saiu decidido a difamar o recinto gastronômico. Jurou vingança e jamais recolocar os pés naquela espelunca. Sentia-se humilhado, traído, um merda.
Escreveu uma carta mal criada para os principais jornais da cidade convocando o povo a um levante em massa contra o desrespeitoso restaurante. Sua vingança não teria limites até que as portas do estabelecimento fechassem por estar às moscas.
Quando a carta foi publicada, veio junto o pedido de desculpas do restaurante, que vai reforçar o treinamento da equipe e blá, blá, blá...e volte por nossa conta!
Todo o ódio diluiu-se numa cambuca de caldo verde gratuito.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Do lado da caixa-preta



- Eu não gosto de viajar de avião.
- Quase ninguém gosta. Eu adoro.
- Sei lá, me dá uma gastura, um frio no esqueleto que vai da nuca até o pino da caçoleta.
- É só relaxar e curtir a paisagem.
- Se eu relaxar eu vazo.
- Tenta ler a revistinha de bordo.
- Dá uma tonteira danada.
- O tempo todo?
- Não, só quando eu pisco. Preciso conversar. Que tal acidente aéreo?
- Credo. Não acho apropriado.
- Interessante né? É a única coisa que me acalma; falar sobre turbina explodindo, identificação de corpos, busca da caixa-preta, essas coisas. Mas o que me deixa tranquilinho mesmo é papo de turbulência e tempestade. Lembra daquele avião pulverizado no Atlântico?
- Sei. Tragédia. Sofrimento.
- Pois é, toda vez que entro num avião fico pensando ser meu último voo. Na verdade sonho ser o único sobrevivente, salvo milagrosamente pelo assento flutuante. Depois as entrevistas, escrever um Best-seller e - quem sabe? - até um filme em Hollywood.
- Não acredito que seu sonho se realize neste voo. O céu está limpo. Tudo está bem.
- Nunca se sabe quando o comandante erra o plano de voo, ou um parafuso dos flats fica gasto, ou o trem de pouso emperra.
- A manutenção é rígida e o treinamento constante.
- Errar é humano e esses aeronautas trabalham sob pressão.
- O senhor parece meio pessimista.
- Realista. Estudo o assunto, mas entendo a inocência dos leigos.
- Sou otimista. Estudo as pessoas e o senhor é muito chato.
- Aeromoça, socorro! Quero trocar de lugar. Este senhor está me incomodando.
- Eu? Não sou eu que tenho medo de voar e também não tenho uma nuvem negra sobre a cabeça.
- Por favor, moça, seja rápida. Eu não estou me sentindo bem. Quero ficar no rabo do avião, do lado da caixa-preta.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sem culpa



Não adianta insistir. Não carrego a culpa dos judeus nem os pecados dos católicos. Nunca fui perseguida como os palestinos nem escravizada como os africanos. Não fui vítima de preconceito, maus tratos e desconheço humilhação. Conjugo verbos intransitivos com gays e homofóbicos. Cultivo machistas e feministas no meu jardim que crescem a olhos vistos. Bebo um mixproteico de militantes esquerdistas com militares torturadores no café-da-manhã. Com padres e ateus tempero minha sopa de legumes. À minha mesa farta são bem-vindos analfabetos e intelectuais, desde que não me encham o saco com abduções, catequeses e verdades absolutas. Bebo a abstinência e fumo a culpa alheia. Para quem se importa, estou rindo por baixo.