terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O sofá do Barreto



Barreto ganhou um sofá usado do hotel onde trabalha: cinco lugares, estofamento de couro preto curtido e manchado. Uma belezura. Chamou o cunhado e o vizinho do caminhão, acertou umas cervejas para depois do carreto e partiram os três para pegar o presente do patrão. Aos “ais” carregaram o sofá da recepção do hotel até o caminhão. Mas sabiam da odisséia que estava por vir.
Chegando ao conjunto habitacional, daqueles com jeitão de pombal, Barreto não precisou estudar engenharia para perceber que o trambolho não caberia no elevador. Passou no bar e convocou Zé das Couves e Pirulito para a empreitada via escada. E quem disse que o sofá dava curva? Só se fosse dobrável, o que não era o caso. Agora era uma questão de honra. A sala limpa, os amigos zoando, a criançada e a patroa na janela esperando o gigante. Foi juntando gente. Apareceu uma corda e amarraram o monstro para ser içado até a janela do 3º andar. Em baixo, Zé das Couves e Pirulito administravam a corda-guia dentro da capacidade etílica da dupla, enquanto Barreto, as crianças e os vizinhos puxavam o mamute pela janela. A mulher abraçada ao terço, rezava.
Seguiram içando até que o traste despontou no alpendre. A emoção foi tanta que quase soltaram o safado que ficou balançando entre a sala e o abismo. Diante do perigo, a senhora do sofá não teve dúvidas: benzeu-se e mergulhou seus 100 kg sobre o móvel que, vencido, entregou-se completamente ao chão da sala.
A festa de inauguração do sofá do Barreto durou até o dia amanhecer.

A deusa do amendoim



Não tinha dó. Vinha de shortinho e top prá lá e prá cá. Os marmanjos coçavam as carecas numa pausa instantânea para que ela passasse toda sua opulência juvenil por entre as vítimas. Oferecia amendoim e, naquela mesa, sempre vendia no mínimo três. Ouvia todo tipo de piadinha e convites. Mas dar, que é bom, só um sorriso tímido e o troco.
A maioria dos boêmios se conformava com o agradecimento da pequena, menos Luisinho, o contador. Não só de números como também de histórias improváveis. Passou a flertar com a menina que, apertando os olhos, poderia ser a sua neta.
O contador não pensava em outra coisa além dos botões em flor por baixo do top. Deu para persegui-la de carro, oferecer carona e o número do telefone; sempre recusado. Meses de labuta se passaram sem que a garota cedesse nem um olhar mais tenro. Desesperado, ofereceu dinheiro, casa, comida e o que mais a deusa desejasse. Até que, enfim, acendeu uma luz perguntando se ele cuidaria de seus irmãos e da mamãe também. Luisinho respondeu “ Claro, meu anjo, tudo que você quiser.” Já enrolando no dedo indicador um cacho dos cabelos da morena. A menina pediu que ele se encontrasse com ela na praça Tiradentes às dez da noite, sem falta.
O homem endoidou. Jurou amor eterno, beijou mão e saiu para se preparar para a grande noite. Reservou uma suíte num motel discreto e limpinho. Comprou uma garrafa de vinho tinto para amaciar a moça. O plano era simples: Deixar a piveta doidona, comê-la, dar uma nota de 50 reais a título de cala a boca, e devolvê-la para a praça Tiradentes.
O contador chegou na praça às 9h45min. Esperou com a cabeça cheia de idéias e posições poderosas. Ela apareceu com seu paço de garça e sorriu. Ele sentiu um arrepio e beijou-lhe o cangote. Foi a última cena que viu. Levou a primeira bordoada do irmão caçula bem no meio das costas. Caiu no chão e pediu clemência para o irmão mais velho, concedida essa em forma de um chute nos ovos. Bufou, fechou os olhos e esperou terminar o festival de sopapos vindos de todos os lados.
Luisinho? Nunca mais comeu amendoim.

Hora do arrocho


- Ai!
- Desculpa aí.
- Não está vendo que não dá para passar...
- Não quero passar. Só quero colocar o meu outro pé no chão.
- Deu?
- Brigada.
- Ô comandante, liga o ar aí!
- Está quebrado.
- Abram as janelas se não eu tiro a roupa. Calor do cão!
- Mas está chovendo.
- Então abre o guarda-chuva.
- Abre! Abre! Abre!
- Vai descer!
- O senhor trouxe um bote?
- Não, mas não vou ficar nesse imprensado. Prefiro ser engolido pelo rio carioca.
- Espera a água baixar um pouco, velho.
- O trânsito está todo parado. Vou nadando e chego antes de vocês.
- Mãe, quero fazer xixi.
- Segura, moleque, que já está chegando.
- Mãe, chegando onde se a gente está parado aqui há um tempão?
- Cala a boca e não enche.
- Abre a porta agora! Vou sair!
- O senhor é quem sabe...
- Nossa... está puxando muito...
- Volta! Volta! Volta!
- É, vou esperar mais um pouquinho.
- Tudo bem aí, filho?
- Agora já estou aliviado.
- Fazer o que, né?
- Vamos levar um sambinha?
- Samba! Samba! Samba!
- “Assassinaram o camarão!”
- “Assim começou a tragédia no fundo do mar...”
- Dr. Trocador, leva na caixa!

Homenagem aos Originais do Samba.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Interagindo na área de risco


- Mãe, estou morrendo de fome...
- Deixa que eu faço um macarrão prá você, filho.
- Então acende o fósforo.
- Eu não. Vai explodir tudo.
- Claro que não. Não está vendo que o gás está fechado.
- Vazando. Sinto o cheiro.
- Já botei sabão na borboleta do fogão e não borbulhou.
- Continuo sentindo cheiro de gás.
- Fui eu, e daí?
- Olha lá, heim...
- Pronto, abri o gás.
- Lá vai...
- Viu? Acendeu tranqüilo. Agora bota a panela prá ferver.
- Já botei.
- Com água, não é mãe?
- Claro, claro, peraí...
- Cortou a cebola e o alho?
- Eu não. Faca é perigoso. Tem um mix de temperos ótimo aqui.
- Ih, mãe... Deixa que eu faço.
- Tá bom. Eu fico com a louça. É mais seguro assim.
- Olha a água.
- Tô olhando.
- Ferveu?
- Há um tempão...
- Por que não avisou?
- Você não falou nada...
- Tá legal, mãe. Bota o macarrão na água enquanto eu faço o molho de salsicha.
- Cuidado, meu filho, a água pode respingar em você.
- Deixa que eu ponho. Agora é só mexer de vez em quando.
- Sinto cheiro de queimado.
- É a cebola fritando.
- Não passou do ponto?
- Não mãe, tá tudo dominado.
- Sei.
- O macarrão tá pronto?
- Não sei.
- Experimenta, mãe.
- Tá quente.
- Tá pronto.
- Beleza, filho.
- Vamos ao que viemos!
Algumas horas depois...
- Bem, hoje fiz um macarrão para o nosso filho e ele adorou!
- Você fez?
- É. Ele ajudou um pouco... Deu trabalho, mas ficou ótimo!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Obra do tempo



Procurou a noite inteira por todos os bares e por toda a praia. Buscou atrás da orelha e no bolso da calça. Ao meio-dia, vasculhou a geladeira a procura do amado, talvez num pote lacrado. Como isso poderia ter acontecido? Estava com ele ali nas mãos e, em um segundo...Bulucutufe!!!Sumiu! Será que deixou de prestar atenção a algum detalhe? Refez todos os caminhos, todas as falas e gestos, vasculhando jardins, banheiros e elevadores. Tentara de menos ou de mais? Quem sabe dentro de outra bolsa ou outro casaco? Nada importante desaparece assim, deve estar por aqui, pertinho...
Chorou muito, descabelou-se em noites insones e dias infindáveis. Depois de algum tempo, cansou de procurar e tocou a vida.
Muitos anos depois, arrumando papéis velhos numa gostosa manhã bem acompanhada, encontrou o antigo namorado esquecido na segunda gaveta da estante da sala. Olhou longamente o objeto e se perguntou por que guardara aquilo por tanto tempo. Jogou fora e continuou a limpeza.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Sinto muito



Eu sinto tantas coisas e as coisas
Se apoderam de mim sem que
Minha alma se aperceba do canto mudo das horas
Padeço tal febre de catapora do vento entregue ao devaneio
Besta- fera sigo obstinada
O caminho tropego dos poetas perdidos
Pois vivo o dia que nasce para matar a noite
A aniquilar a fonte que cria a água e respira
A arfa da solidão em goles múltiplos
Solto golfadas de ar e o vômito fica
Na dor de tua ausência

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Porque o inferno se perdeu


Bolas de sabão explodem alopradas pelo vento
Pegá-las! Pegá-las em correria desatinada
Canta de roda a ciranda que foi minha e foi tua
No meio da rua que mandava ladrilhar
Com cerol de vidro amassado com cola polar
Batatinha-frita-um-dois-três vezes pula a perna num pé só
Amarelinha de um ao céu, porque o inferno se perdeu
No pique da bandeira hasteada no pátio da escola
Hino nacional cantado de conga e meia três quartos
Sempre desarrumados tal estratégia de queimado
Corre! Corre que lá vem bola! Topada e ronxa
Não dói nada. Nem sarampo, catapora ou febrão
Impede correr atrás de doce em dia ou noite
De São Cosme e Damião.

Abelhas e moscas


Olhou para o ponto no teto insone e pensou:
As abelhas e as moscas
Devem ser da mesma raça
Mas freqüentam igrejas diferentes.

A flor de Adriana


Sentei na mureta da praça e, pela primeira vez depois que saí do prédio, levantei o queixo para a estátua úmida e dura como o meu coração. A sensação era igual a de abrir os olhos pela manhã: nada. Havia uma névoa torpe nos meus passos. Coisa estranha. O nada vem acontecendo todos os dias em todos os momentos. Por que continuar se só o limbo aguarda do outro lado da praça? Sempre achei incômodas essas pessoas que passam sorrindo para os próprios chinelos. É um sorriso cheio de prazer íntimo. O interessante é que não têm em comum a idade, a cor, o sexo, só o sorriso abestalhado.
Lá vem o maior dos enigmas, a pequena Adriana e sua velha mãe sacrificada. Ela vem saltitando seus pezinhos gordos. Ao contrário dos outros, sorri para as árvores, abraça o pipoqueiro, acena para o mendigo e também para o guarda. Perito algum encontraria vestígios de lágrimas naqueles apaixonantes olhos mongóis. Seus cabelos feitos de nanquim balançavam inquietos.
Ela me olhou.
Desviei o olhar, sua felicidade me ofendeu profundamente. No início deu certo pois, em seguida, ela subiu no coreto e, se esticando toda na pontinha dos tênis, colheu uma grande flor púrpura oferecida pela trepadeira cabeluda. Veio com aquele maldito sorriso doce ondulando ameaçadora na minha direção. Haveria tempo para fugir? Se me levantar agora e caminhar bem devagar, distraidamente mirando absorta a estátua, talvez a mãe se toque e segure Adriana.
Tarde demais. Ela me alcançou antes que eu pudesse mover um dedo, apavorada na minha dor, vi-me diante de seus grandes cílios. Muita calma nesta hora. Não se mexa.
- Tá triste tá?
Como assim? Pensei sentindo o calor da nuca invadir as bochechas amarelas. Não respondi e fechei os olhos. O ataque se concretizava e nada havia a fazer. Senti a mãozinha redonda puxar em câmera lenta o elástico que prendia o meu cabelo. Pronto, agora estava nua, ali, na praça. Os fios foram soltos e uma mecha enrolada delicadamente em volta do caule da flor. Abri os olhos lentamente para que ela não me escutasse; só assim percebi o quanto Adriana estava concentrada na tarefa. A língua presa na lateral da boca carnuda denunciava a importância daquela missão.
Pregou com o elástico a mecha enrolada sobre a orelha.
- Linda! Agora tá feliz!
Achando pouco, Adriana me beijou a pele seca e me abraçou pela metade com seus braços curtinhos. Antes que eu pudesse protestar, antes que eu pudesse reagir, ela voou saltitando atrás da mãe.
Mirei a estátua e com assombro percebi os respingos da fonte formando uma áurea de brilho em toda sua volta. Isto nunca aconteceu. Meu pescoço dobrou-se para trás e lá estava a aberração: o céu azul, a copa das árvores e eu planando baixo por cima do prédio do Corpo de Bombeiros. Não mais irritantes barulhentos, mas sim encharcados de uma beleza crua, intensa, segura. Cheiro delicioso de flor, de churrasquinho de rua, de asfalto, de pão quentinho saído agorinha. Senti, senti, meu cheiro ocre e mofado, torpe e abandonado. Nojo. Corri pra casa e não havia mais névoa, só vento nos pés. Entrei no chuveiro e renasci.

O balde cheio


Chovia, mas chovia muito na cidade maravilhosa. Mas era tanta torneira despencando dos beirais que não mais se via a via expressa, somente bueiros ferventes. O rio Carioca enlaçava-se às pernas hesitantes das almas encharcadas. Os inevitáveis carros dos bombeiros gritavam vermelhos ao fazerem marolas sobre as calçadas escondidas. As árvores dançavam bêbadas a música do caos, lançando folhas ao vento como filhos à própria sorte.
Lá em cima, baldes sôfregos corriam de mão em mão, urgentes em salvar o barraco afogado. O céu rugia nas encostas lançando fleches assustadores no paredão de pedra, tal qual correspondente de guerra tirando fotos a cada rajada de raios torturantes. A geladeira pulou para cima da mesa, o fogão, já sem ar, soltava uma fumacinha ardida de gás. Balde de mão em mão, suor, balde, lama. O coração pulava apertado no peito enrugado. Balde, balde, barro, lama, suor e mais lama do céu crescendo de baixo para cima. Balde de mão em mão, barro, lama, mão e mais barro já em sopa de coisa boiando. O suor foi cedendo espaço para a enxurrada que lava, suja, lava e leva a merda das valas irmanada com o açúcar, o feijão, as roupas, e as panelas despencadas do armarinho.
E, por fim, dentro de uma verga de lama, o balde despenca, derrotado, em direção ao breu do barranco mole. A terra treme, não de frio, mas de medo e vergonha diante do enorme tobogã de miséria deslizante em direção à zona sul da cidade. A boca rachada da floresta cospe a sopa de nada de quem perdeu tudo. O caldo vai descansar fétido sobre as brilhantes telhas da orla julgando, inocente, atingir os comedores da raiz da montanha por covardes séculos mudos.

sábado, 4 de outubro de 2008

A garota do telhado


Chegava da escola arrancando o uniforme e vestia somente um shortinho de algodão. Passava na cozinha, enchia um prato fundo de feijão com arroz e farinha. Comia sentada no chão fazendo bolinhos com as mãos, ladeada por gatos que destrinchavam sardinhas sobre um jornal.
Terminada a refeição, divertia-se deixando que os gatos lambessem suas mãos. Corria para o quintal, alçava o muro e ganhava os telhados. Ali, era a rainha dos gatos, sempre com um séquito de rabudos no encalço.
Conhecia os gatunos pelos nomes por ela mesma batizados. Brincava, cochilava e embolava com os felinos pelas telhas do quarteirão entre a Rua Uberaba e o Largo do Verdun.
Os vizinhos já a conheciam, os cachorros também; nem por isso aceitavam aquela gata magrela em seus muros: latiam, jogavam água, praguejavam. Ela? Fugia como um gato, mas ria; coisa que os companheiros não sabiam fazer.
O tempo foi crescendo, o short apertando, os telhados subindo, a noite chegando, as regras nascendo e os gatos morrendo dentro dela, um por um.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Assombro tecnológico



Ahrg! Celular vibrando no bolso sempre me assusta. Tem o efeito similar a enfiar o dedo mindinho na tomada. Se estiver no toque de voz, pior ainda. Assemelha-se a alguém bater na porta do banheiro quando estamos ocupadíssimos.
Nunca espero uma ligação no celular. Não sei nem por que tenho esse troço. Quando estou escrevendo posso até ter uma síncope se receber uma ligação ou alguém tocar a campainha. E não tem como ignorar, é pior. E se for urgente? Alguém que amo precisando de minha atenção? Uma oportunidade impar? Pronto. Já estragou tudo; Não sei mais o que estava fazendo antes de ser ferozmente interrompida.
Ciente de minha sensibilidade, procurei colocar um toque sutil e tranqüilo: o miado amoroso de um gatinho. Mesmo assim sou pega de surpresa. Minha gata está me chamando? Com fome? Com sede? Engasgada com uma bola-de-pêlo? Não tem jeito. Esse monstro não me larga.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Ontem encontrei o Tempo na esquina.



Ontem encontrei o Tempo na esquina. Ele estava apressado, mas como sempre, disposto e bem apessoado. Falou rápido de seus novos projetos e da felicidade de me ver. Arrancou-me gargalhadas ao relatar suas últimas peripécias na noite anterior. Havia torturado algumas almas na madrugada e infestado de criação os insones. Agora não podia me dar muita atenção, pois o trabalho o chamava. Labutava em um projeto complexíssimo no centro financeiro. Coisa grande que exigia dedicação exclusiva. Não reclamou, embora tenha transparecido preferir as missões na beira da praia ou na floresta. Perto da despedida me encarou e não mediu escrúpulos no arremate: Onde você esteve? Nunca mais te vi...Andou dormindo, foi? Ando preocupado com o seu prumo...Descompassada, sorri e o abracei com tanto amor e carinho que tinha a certeza de não mais deixá-lo escapar. Gentil, aceitou o afago, no entanto, me afastou de seu corpo lentamente, beijou meus dedos, prometeu visita e telefonema, afagou meus cabelos e pediu que não os cortasse ou pintasse para facilitar minha localização. Virou-se em direção ao oposto de tudo e sumiu.

sábado, 13 de setembro de 2008

Vivo




Artérias desentupidas
Válvulas lubrificadas
Sigo o rítmo do sangue
Em glóbulos incansáveis
Pulso absoluta
O sentido mitral;
Vivo,
A conquista do meu, do teu
batimento ecodopler abismal.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Branco


Durante o apagão mundial, quatro canetas foram encontradas estateladas na calçada; sem tampas. A vermelha foi levada para o fabricante em estado gravíssimo, vazando muito pelo fundo. A azul, desacordada e já apresentando coloração azul-bebê, recebeu massagem na carga e respiração ponta-a-ponta ali mesmo no meio-fio. Melhor sorte não teve a esferográfica preta que estrebuchava com metade de seu acrílico afundado. Naquele vexame todo, deixaram a verdinha por último. Afinal, era a única aparentemente sem ferimentos e consciente. Embora imóvel, acompanhava os trabalhos dos para-médicos com atenção vegetal. Quando as demais vítimas já haviam sido socorridas, a verde gritou: “Papel! Papel!”. Respirou fundo e, entupida, desmaiou.
Naquela fatídica noite, quem não conhecia lápis não escreveu. E o dia amanheceu em branco.

domingo, 31 de agosto de 2008

Os doze pecados


Doze meninos estavam jogando bola no campinho
Veio uma bala encontrada e ficaram onze;

Onze barrigas estavam crescendo
Veio o desespero e ficaram dez;

Dez crianças estavam estudando
Veio a miséria e ficaram nove;

Nove atletas estavam treinando
Veio o tráfico e ficaram oito;

Oito artistas estavam criando
Veio a censura e ficaram sete;

Sete agricultores estavam plantando
Veio a fome e ficaram seis;

Seis pais de família estavam trabalhando
Veio o desemprego e ficaram cinco;

Cinco jovens estavam vivendo
Veio o álcool e ficaram quatro;

Quatro belos estavam se amando
Veio a doença e ficaram três;

Três poderes estavam conversando
Veio a corrupção e ficaram dois;

Dois poderes estavam disputando
Um foi morto e outro ficou mudo;

O um poder estava cansado
Veio o sono e foi dormir cedo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Analfabeto


Quando o dia nasceu, já tinha terminado de ler o livro: foram trezentas páginas sorvidas sofregamente. Fechou os olhos para digerir tudo aquilo. Depois de quinze minutos ruminantes, teve uma revelação: não sabia mais ler, muito menos entender qualquer coisa escrita. Tinha sido abduzido pelos extraterrestres da ignorância. Desespero puro. Procurou no arquivo morto o abecedário, sem sucesso. Não havia mensurado o perigo subjetivo daquele romance. Nunca mais seria o mesmo. Correu até a sala e pegou o jornal do dia anterior tentando ler as manchetes. Nada, estava completamente analfabeto. Esperançoso, pegou papel e caneta para escrever seu próprio nome...Não sabia! O nome sabia, não sabia quais sinais usar para formar seu nome!
A partir daquela manhã, seria escravo da TV para saber dos acontecimentos do mundo e, para formular uma opinião, ficaria vagando entre os amigos, mendigando impressões sobre o planeta, o aquecimento global e tal.
Com os nervos germinando dos poros, agarrou-se ao primeiro caderno do jornal e chorou copiosamente. A tinta tingiu seu rosto como rímel borrado, revelando todos seus pecados impressos. Sentiu um aperto na boca do estômago e mordeu a beirada do periódico, mastigando compulsivamente as notícias.
Tinha que aprender a viver com aquele troço. Montou uma estratégia de guerra para que ninguém desconfiasse de... Seu novo perfil, digamos assim. O que faria com todas as histórias e a multidão de personagens pipocando na cabeça? Compraria um MP4, adotaria o estilo Juruna moderno; a partir de hoje seria um escritor presente, multimídia, interativo. Não escreveria mais seus textos, estaria livre das arapucas gramaticais. Faria programas de rádio e de TV.
No decorrer do dia, percebeu que não mais se importava com o assustador conteúdo das bulas. Não teria mais de preencher cheques, os cartões foram inventados para isso mesmo. Com coragem descomunal, cancelou emails, orkut, assinatura de jornais e de revistas. Nunca mais teria de fazer anotações na agenda. Agenda? Queimou numa pira improvisada na pia do banheiro. Incinerou todos os compromissos e as torturantes metas. Gargalhou loucamente diante das chamas. As letras flutuavam aniquiladas no ar.
Agora? Agora estava indo correr na praia, ofertar-se ao Sol, fazer castelos de areia com as crianças, jogar cocos nas ondas para os cachorros pescarem e nadar com os peixes. Inscreveu-se em cursos práticos de jardinagem, pintura e origami. Agora conhecia realmente as pessoas, escrevia na mente a voz e o sorriso de cada um. Cultivava jasmim e alimentava o canteiro de ervas. Batia papo com gatos, passarinhos e cachorros. Aprendia rapidamente a interagir com as gentes e os dias cresciam juntos com ele. À noite, dormia o sono exausto dos justos. Era um homem livre, com todo o futuro pela frente. Nunca imaginara ser possível ser tão feliz.
Acordou sobressaltado. Sentiu os olhos vazios e custou a acreditar. Levantou, foi até a porta, pegou o jornal e leu-o com o mesmo tédio de ontem.

O botão do elevador



Cada vez que apertava o botão do elevador acendia uma luz vermelha. Isso era todo santo dia: Inês acordava, fazia xixi, tomava banho cantarolando, escovava os dentes, alimentava e alisava a gatinha, lia o jornal, aguava as plantinhas, tomava café-com-leite e pão-com-manteiga com a família, arrumava a bolsa, vestia a roupa, calçava os sapatos, separava o dinheiro trocado para a passagem, beijava os seus, abria a porta, saía, fechava a porta, descia as escadas, atravessava a praça, pegava o ônibus, sentava na janela, descia no Centro, atravessava a rua, empurrava a porta blindex, dizia bom dia sorrindo para todos no salão e...apertava o botão do elevador.
Era o momento em que o tempo parava, ali, em frente ao botão do elevador. Todo dia sentia um frio na nuca, olhava para a rua e dava uma vontade de sair correndo... mas sempre olhava de volta para o botão do elevador até acender a luz vermelha. Feita a luz, a partir daquele instante, não era mais a Inês que estava ali, a nossa Inês, lembra? A Inês que tem uma gatinha, beija os seus, molha plantinhas e lê jornal? Não! Agora somente Lanna existia, mulher completamente possuída pelo Banco, seu líder supremo, seu amo magnânimo. Ainda no elevador colocava o broche com o logo do Grande Pai. As entranhas impregnadas de balancetes e de normativos eram imperceptíveis sob sua barriga, reta e seca. A bílis, no canto da boca reta e seca, não escorria porque estava presa pela língua bifurcada. O nariz, reto e seco, apontava, amolava e imolava o teto e a todos. Dentro de seu peito reto autenticava um coração seco onde não existe a menor chance para os gerentinhos, tudo seria feito para que não batessem as metas. Tolerância zero para com os funcionários, que engolissem calados a marmita fria e a raiva subalterna. Nas veias de Lanna rastejava um oleoso escárnio para com o vigilante e, para a tia da copa, reservava diariamente doses cavalares de humilhação, muita humilhação. Motoqueiros e maloteiros constituíam a escória do mundo e não lhes dirigia palavras, só insultos.
Especial desprezo era destilado para os clientes, que aguardassem retorno inutilmente, que repetissem suas dúvidas num labirinto infindável de ligações. Mas, para o chefe tinha um sorriso especial de dentes brancos estatuais. O chefe, bobo de covardia, covarde de bobo, jamais conseguiria vislumbrar com seu olhar ruminante a cauda do belzebu dentro daquele terninho vermelho. O dia passava totalmente sob controle, sob circulares, sob reuniões, sob suas patas escondidas sob sandálias de bico fino. Batia o ponto às dezoito horas em ponto e, como um ogro amaldiçoado, voltava para a mesa de trabalho com o vil intuito de preparar as maldades a serem aplicadas no dia seguinte. Última a sair, apagava os dijuntores seguindo passos marciais até a porta.
Assim se passaram singelos vinte aninhos, acorda Inês, luz acende, acorda Lanna, luz apaga...luz acende, apaga, acende, apaga, apaga, apaga! A luz não acendeu na manhã de 24 de junho, dia de São João. Inês olhou para a rua novamente. Lá fora um carrinho de água-de-côco passou lentamente, os ônibus passaram lentamente, gente e cores lá fora. Olhou para a porta do elevador que não abria e a luz que não acendia. O coração começou a pular dentro daquele arquivo lacrado. Uma música veio da igreja ou de dentro dela? Alcançou a porta da rua mas olhou novamente o elevador na esperança de ver a luz e fechou os olhos sabendo quem estava lá. Ouviu Lanna se abrir e o elevador chamar seu nome. Uma ventania louca balançou as copas das árvores; lá fora, o cheiro do mar voava.
Não respondeu, não foi, não abriu os olhos até chegar na calçada. Não olhou para trás. Não, não mais, nunca mais.

Quase carnaval



Veio apressado do supermercado, passou pela mureta da praça vazia e...parou. Meia-dúzia de jovens começavam a ensaiar no coreto algo que não se conseguia identificar: banda de pífano? roda de samba? marchinha? Sei lá, era legal. Moçoilos e moçoilas de pele limpa brilhavam com seus trompetes, flautas, violinos, tamborins, repiques, cuícas, surdos e mudos. O fim da tarde dormia nas calçadas depois de um domingo puxado de praia. Quase carnaval, quase fevereiro pulsando carioca entre o sol e a chuva quente. A Aquarela do Brasil vertia da fonte enfeitiçando os anjos da praça e fazendo revoada de pombos.
Bagunçando o coreto, o bloco foi se formando, criando vida, ficando abusado. E foi chegando gente da praia, gente levantando dos bares, gente saindo da padaria, dos apartamentos escuros, gente de todos os lados, de cima e de baixo. Gente de peruca azul, gente de diadema com antenas, gente de óculos de abelha, gente rindo, gente cantando, gente...gente! Um enxame foi povoando o largo. Chegou o pipoqueiro e o ciclista, o bebê se sacudindo dentro de um carrinho fantasiado de sapo; o cachorro com capa do batman fuçando as pernas suadas e o churrasquinho fazendo fumaça.
Ninguém foi convidado porque todos eram os donos da casa. Confete. Alguém trouxe o cavaquinho e já se dançava sem vergonha e os pés nasciam a cada bum-bum com a poeira subindo. Serpentina. Chinelas havaianas e calções de praia subiam e desciam cantando as marchinhas de ontem, o samba de hoje, conquistando e transformando os rostos e fazendo ondas nos corações. Espuma. As janelas batiam palmas coloridas de velhinhas. O russo e a morena trocavam suor alimentando o ritmo, não tem começo e não tem fim. Ninguém tem pressa, ninguém tem mágoa. A vida segue iluminada de som na réstia de sol, santificado seja o calor infernal. Beijo de sal, bem e mal, unidos, numa tarde de carnaval. Pulsa essa gente bêbada de vida, pastoreiam a chegada da noite acolhendo a festa no burburinho, arrasta-se a esperança nos ombros coloridos deste povo apaixonado.
Ficou por ali mesmo, no bloco, com a manteiga derretendo e amassando no saco de compras.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A estrela baga



Eram amigos do colégio e tinham em comum o gosto pela poesia, rock’n’roll, praia e um fuminho de leve depois da aula.
Naquele fim de tarde de verão, último dia do ano letivo, pegaram a moto e rumaram para Fernão Velho, bucólica cidadezinha do interior de Alagoas. Estava mais para uma vila nascida de uma antiga fábrica de tecidos do que necessariamente uma cidade. As casinhas de desenho animado eram todas brancas com janelas e portas verdes. Cercada de uma rara floresta tropical, mantinha a áurea misteriosa com o cruzeiro no alto de um morro refletido no grande lago. A fábrica fechara há muito tempo, aumentando a sensação de que tudo ali parara.
Chegaram ao Cruzeiro em tempo de assistir o finzinho do pôr-do-sol. O céu rosado tingia a lagoa inspirando os dois a acenderem um. Enquanto André enrolava, Simone observava uma grande estrela perto do horizonte oferecendo luz branca azulada. Parecia oscilar para cima e para baixo. Deu o primeiro tapa e perguntou o nome daquela estrelona. André não sabia, mas achou uma viagem. Tentou lembrar os nomes das estrelas: Ursa-maior? Dalva? Uma desgarrada do Cruzeiro do Sul? Nunca a perceberam antes.
A coisa rolando e Simone e André viram a estrela crescer até pratear todo o lago. Anoitecia lua nova. Contrariando o esperado, tudo em volta estava iluminado pela luz. Um arco-íris formou-se do espelho d’água até o astro. O troço começou a subir lentamente e um som micro-ondas – ûûûû...- vinha de todos os lados. A moto, ele, ela, as folhas, as formigas, o planeta, nada se mexia, só a estrela vagava no vácuo. Quando chegou ao alto do céu brilhava tanto que era preciso proteger os olhos vermelhos com as mãos.
De súbito o som parou e um raio de estrela correu para o outro lado do céu, deixando um rastro de fogo numa lufada de vento. Ao sumir por detrás dos montes deixou só a escuridão e uma baga amassada na estrada.

Meu partido alto




Ai que este homem não me deixa trabalhar!
Olha que o feijão já vai queimar!

Inventa corrida na praia para relaxar
Passeio na feira e camarão para ele cozinhar
Deixa muita louça para lavar
E abre um vinho para namorar

Ai que este homem não me deixa trabalhar!
Olha que o feijão já vai queimar!

Pára em todas as bancas de revistas para degustar
Cata besteira no chão para a casa enfeitar
Canta desafinado só para me encantar
Preenche os meus minutos até me acabar

Ai que este homem não me deixa trabalhar!
Olha que o feijão já vai queimar!

Traz flores roubadas para me amansar
Enche meus olhos de cinema para conversar
Cobre de livros minha mente quase a expirar
E vive, eternamente, a me inspirar

Ai que este homem não me deixa trabalhar!
Olha que o feijão já vai queimar!

Crime seriado



- O senhor confirma a compra no valor de U$ 3.500,00 na loja Sexy Shop Baby em Nova Iorque?
- Não! Não confirmo! Eu já falei que não fui eu! Nem passaporte eu tenho e minhas milhas não dão direito a tele-transporte.
- Estaremos estornando o valor na próxima fatura.
- E os juros também porque eu não vou pagar essa conta.
- Sim, senhor. Por favor, anote o número do protocolo.
Nossa, que dia! Quem será agora?
- Aaaalô!
- Por que você me mandou este e.mail?
- Como?
- Eu não gosto desse negócio de pornografia infantil. Você está doido ou se fazendo? Ainda por cima para o email do meu trabalho. Tarado! Idiota!
- O que é isso Pedro? Está me estranhando? Eu não te mandei nada e muito menos...
- Olha, eu não quero nem saber. Tire meu nome de sua lista e não me ligue mais ou eu te denuncio.
- Espera um pouco. Não fui eu. Eu jamais...
Pipipipi...
Essa agora. Clonaram meu email também. Vou cancelar essa porcaria agora mesmo. Senha não confere? Caramba! Vou à polícia logo.
- Quero registrar uma queixa: Clonaram meus cartões de crédito e estão usando o meu email para divulgar pornografia infantil.
- O senhor é casado? Tem namorada?
- Não, não.
- O senhor teria emprestado os cartões para algum amigo íntimo?
- Não. E eu não sou gay.
- O senhor sofreu abuso sexual na infância?
- Não! Claro que não! Eu fui roubado! Provavelmente na internet. Sei lá.
- O senhor não se lembra. Então bebe ou usa drogas?
- Drogas? Não. Às vezes bebo.
- Entendi. O senhor deu os cartões e senhas quando estava bêbado.
- Não! Caro inspetor, eu só quero fazer o B.O. Aqui está minha carteira de motorista.
- Senhor, aqui consta que o senhor se envolveu em um acidente hoje pela manhã.
- Impossível. Passei a manhã no telefone bloqueando cartões. O carro ficou na garagem e está lá até agora. Que acidente?
- O seu veículo bateu em um poste na Avenida das Américas e foi abandonado no local.
- Menos mal. Eu tenho seguro.
- Mas tinha dois meninos estrangulados na mala do carro.
- O quê? Roubaram o meu carro para uma desova?
- Aha... O senhor trabalha numa loja de brinquedos...
- Sim. Sou o gerente.
- O senhor parece nervoso...
- Nervoso? Eu estou tremendo! Não é todo dia que jogam crianças mortas no meu carro!
- O senhor quer um copo de água?
- Por favor. Obrigada. Ei? Por que você está guardando o copo que usei nesse saco plástico?
- Digitais. O senhor está preso para averiguações. Tudo que disser poderá...
Acordou coberto de suor na fria madrugada de maio. Catou o controle remoto entre as cobertas e, antes de desligar a TV, teve uma sensação de estranha: o seriado que dormira assistindo às 22 horas reprisava na madrugada exatamente no ponto em que dormiu.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Viva a natureza!


Armou a barraca em dez minutos e correu pelado em direção ao mar. Ninguém à esquerda ou à direita. Abaixo só areia branca e oceano azul. Acima o céu idem. Perfeito.
Organizara estas férias por três meses. Aproveitava a hora do almoço para pesquisar na internet os paraísos mais inabitados. Desenhou mapas, fez planilhas de orçamento, revisão do carro. Comprou barraca, saco de dormir e todos os mantimentos listados nos melhores sites de amantes de acampamentos. Leu livros de sobrevivência, de Robson Crusoé a Almir Klink. Reservou cadernos para escrever e clássicos para ler durante o exílio de vinte dias. Fez curso de pescaria e adquiriu kit completo. Levou o básico para cozinhar, mini-farmácia e tudo mais que um homem civilizado precisa para sentir-se seguro.
Na primeira semana explorou o lugar, correu, nadou. Tirou fotos do pôr-do-sol, da espuma das ondas, da barraca, das formigas, dos coqueiros e de si mesmo orgulhoso ao lado da pesca. Escreveu laudas e mais laudas sobre o assombro do silêncio sob a luz da fogueira e a inspiração das estrelas. Dormia exausto até o sol nascer.
A segunda semana chegou tranqüila. Cheia de reticências sábias e autoconhecimento através do aprofundamento da alma e do valor do espírito no tempo e no espaço efêmero. Conversava com siris e gaivotas, brincava com o som dos ventos nos coqueiros e escrevia compulsivamente. Registrava em seu caderno cada impressão obtida na contemplação dos seres vivos, como um Darwin contemporâneo. Decidiu vender o quarto-e-sala onde morava e comprar um terreno por ali. Fazer uma cabana ecologicamente correta e viver do que a terra e o mar lhe oferecesse. Com determinação e ordem tudo é possível de ser realizado.
A terceira semana pegou nosso herói tremendo de febre e com uma dor de barriga fenomenal. Era uma coisa oleosa e líquida de um fedor infernal e impossível de ser contida a tempo de procurar uma moita. Tomou toda a farmácia e conseguiu parar só a diarréia e acalmar a febre por algumas horas. No dia seguinte acordou um pouco melhor e resolveu lavar as roupas e a barraca no mar. A operação durou mais tempo do que imaginava e, no cair da tarde, estava vermelho do sol, pisara num ouriço que não conseguia tirar nem com os dentes e a febre voltara com toda a disposição. Passou uma noite terrível lutando contra pterodátilos assassinos dentro da barraca. Acordou coberto de mordidas de mosquitos e suando frio. Foi até o espelho do carro e viu o homem-elefante, só que mais inchado, vermelho, descabelado e com olheiras enormes. Tomou um antialérgico e desmaiou o resto do dia.
Doze horas depois, com o pé latejando de dor, levantou acampamento dois dias antes do previsto. Estava exausto. Foi direto para a casa dos pais.
Tomou sopinha, recebeu beijos, cafuné, lençóis limpos, soro caseiro, pomadinha e dormiu vinte e quatro horas no ar-condicionado. Acordou comendo pão francês com ovos na manteiga e café-com-leite. É domingo, o pai faz churrasco de picanha e costela enquanto a mãe tira os espinhos do pé. Curte sua última noite de férias assistindo futebol na TV com uma bacia de pipoca com guaraná.
Chegou ao trabalho contando a grande aventura, as descobertas, os perrengues; mostrando fotos e curativos. Era puro orgulho e felicidade. Quanto a vender o apartamento e comprar o terreno, nem se lembrou de comentar.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Placas da sorte

Crônica vencedora do 1º Concurso Crônicas Cariocas 2008.


Bonifácio, homem cumpridor de suas obrigações matrimoniais e de ofício, pagador de impostos e fiel súdito das leis e da ordem pública, vinha de sua pequena fazenda dirigindo seu fusquinha 74 pela BR.101 assoviando um samba de Noel. Viu a blitz e diminuiu. Encostou ao primeiro sinal da autoridade.
- Bom dia, sargento! – Observando o uniforme do policial.
- Documentos.
- Está tudo aqui, senhor.
- Ligue a lanterna, pisca-pisca, limpador de pára-brisa.
- Sim, senhor.
-Pneus novos?
- Sim, senhor. Cuido deste fusquinha como um filho.
- Extintor de incêndio? Última revisão?
- Tudo aqui. Na validade.
- O senhor faria um teste com o bafômetro?
- Claro. Onde é que eu assopro?
- Parece que está tudo bem. No entanto reparei que suas placas estão totalmente encobertas. O senhor sabe quanto custa a multa pela ocultação das placas do veículo? Uma fortuna! Falta grave. – Já balançando a cabeça e pegando o talão.
Bonifácio, assustado, constatou que realmente estavam cobertas de lama. Diante dos fatos, não teve outra opção:
- Sargento, com todo o respeito, será que uma cervejinha limpa essas placas?
- É. Vou abrir uma exceção porque estou vendo que o senhor é pessoa de boa índole. Duas cervejas e está tudo certo.
Agradecido, Bonifácio foi até a mala do carro, pegou duas cervejas que dormiam no engradado reservado para o churrasco de domingo. Calmamente abriu a primeira cerveja e lavou com o líquido a placa da frente. Com a outra cerveja, repetiu a delicada operação com a placa traseira. Finda a faxina, olhou a autoridade e, muito sério, perguntou:
- Agora estão limpas, senhor?
- O senhor é bem engraçadinho... Vou deixar passar essa pela criatividade, mas vê se na próxima vez não abusa da sorte.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Dia de centopéia


O passa-tempo urbano predileto dos desocupados da praça São Salvador é assistir o estresse instalado no engarrafamento que se forma quando o ônibus 401 não consegue fazer a curva estreita em frente a farmácia porque tem um carro estacionado na esquina.
Todo mundo já conhece o desenrolar dos acontecimentos: o ônibus pára, as buzinas começam e, mais ou menos cinco minutos de orquestra depois, o motorista do carro chega apressado, é vaiado e sai cantando pneu. Todos riem e o trânsito volta a fluir.
Hoje não foi assim. O babaca da vez não apareceu. Depois de vinte minutos o engarrafamento já tomava não só a Rua São Salvador, como também a Marquês de Abrantes e a Senador Vergueiro. Perdeu a graça. Soltaram as buzinas e saíram dos carros para analisar o golzinho 1.0 cor de vinho, sujo...No vidro traseiro, um decalque sugestivo escrito “amor”. Em minutos tinha uma multidão em volta do criminoso. Impropérios cabeludos foram emitidos e começaram a chutar os pneus e a bater no capô. O pior é esperado como óbvio.
Bem, não sei se por ser um gol tão simpático ou pela índole anárquica do carioca, duas grandes centopéias abraçaram o pequeno e num um-dois-três-e-já o ergueram lentamente até a calçada.
Urras! Vivas! Palmas! Uh-ru!
O trânsito voltou a fluir e o evento entrou para os anais folclóricos do bairro.
Assunto para um ano.

Presente Globalizado


Tem que ser um presente inesquecível. Ela gosta de bichinhos, mas não pode ser um passarinho, ou um gatinho ou um cachorrinho qualquer. Precisa ser um bicho diferente que ela nunca mais vai me esquecer. Loja de animal exótico, isso! Ela vai ficar doidinha. Nossa, quanta coisa esquisita. Cruz-credo! Esta lagartinha tem a cara bem estranha. Toda - toda. Vou levar, embrulha para presente. É filhote? Tudo bem crescer um pouquinho.
- Ô amor... Um presente? Não precisava...
- É um lagarto fortinho. O homem da loja chamou de Dragão de Komodo.
- Lindo! A gente dá um nome mais legal, ele é tão simpático...
- Vamos ver na internet o que o bichano come. Deixe ver, deixe ver... Ih, amor, aqui diz que ele pode medir até 3,00 m, pesar 120 kg e viver até 50 anos. Vai ficar difícil aqui na quitinete.
- A gente deixa o tapete só prá ele.
- Ele come carne.
- A casa da minha tia está cheia de ratazana.
- Diz aqui também que ele come qualquer coisa, baba bactéria, fede e tem um humor péssimo. Imagine se for fêmea? Querida, mamãe conhece uma receita de jacaré que é uma delícia...
- Que é isso? Quer comer o meu presente? Nem pensar! Saiba você que os dragões de Komodo só tem em Komodo e aqui no meu apartamento. Estão em extinção.
- Foi mal. A gente pode doar para o zoológico, lá ele vai ter uns amiguinhos...
- Mas ele é tão bonitinho... Queria tanto ficar com ele... Olha a bochecha dele como é gordinha.
- Deve ser botox ou veneno.
- Claro que não! O rabinho, olha, olha! Não pára, que gracinha...Parece uma lady. Gutigutiguti...
- Sei não... Parece perigoso. Olha a baba viscosa pingando.
- Eu compro um babador prá ela bem fashion. Que tal chamá-la de Pichuca?
- Lindo nome! Está bem, a gente fica com esta coisa. Mas se ela comer o cachorro do vizinho, ou mesmo o vizinho, a gente liga para minha mãe e pega aquela receita.
- Você é tão fofo...
- Você merece, querida, você merece...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Milagre



O Cristo Redentor sumiu. E logo na noite da conquista de seu glorioso título de sétima maravilha do mundo. Carregado nos braços do povo que o elegeu, evaporou. Ficou só o pedestal no morro do Corcovado. Polícia federal acionada, as investigações engatinhavam em controvérsias desconcertantes.
Consta no inquérito policial que, durante a festa do Berro da Viúva, no concorridíssimo sambão mensal no bar A Paulistinha, Ele teria sido visto tomando caldo de galo e água-de-coco. Não teria negado samba no pé e nem esquecido de louvar a velha-guarda. Teria saído com estilo: de mansinho, tomando destino ignorado.
As buscas prosseguiram por toda a cidade. Relatos foram registrados de sua Santíssima presença em diversos lugares: em Vila Isabel, na quadra da Mangueira e do Salgueiro simultaneamente, na Lapa, no Estácio, no baixo Leblon, no Beco do Rato, na roda de choro da praça São Salvador e na praia de Copacabana. Nessa última, já na madrugada, teria lavado seus trajes santos no sal purificador, sempre de braços abertos.
O delegado, exausto, ouviu o milésimo relato sem nem dar muita trela. Mas o denunciante ainda estava na linha insistindo: Ele ainda está lá, comendo pão de queijo no Jardim Botânico, se derem uma corridinha ainda encontram o Cara pagando a conta...
Helicópteros e duzentas viaturas foram acionadas e ruas interditadas. O delegado chegou bufando e nada de Cristo. O pobre homem olhou para o céu entre as palmeiras imperiais e, de joelhos na relva, implorou a prece: Senhor que estais no céu, livrai-me desse flagelo! Juro, por tudo quanto é mais sagrado, que se o Senhor devolver o seu Filho para essa gente sofredora, nunca mais vou jogar no bicho ou porrinha, ficarei brocha para as morenas dos outros, fugirei como o diabo da cruz do pagode de sábado e da pelada de domingo no Aterro. Se atenderes as preces deste humilde servo, nunca mais porei uma gota de álcool na boca, nem prá limpar ferida! Fechou os olhos e se concentrou no pedido. Quando abriu, viu logo o sovaco do Cristo. Lá estava o Fugitivo de volta à casa, de plantão com os braços abertos para a cidade, como se nada tivesse acontecido. Equilibrado na corcova do morro torto, parecia meio encurvado, mas estava lá, firme.
Já erguido para partir, o dedicado servo da lei e do Senhor virou-se de repente para o céu e tentou: Senhor, pensando bem, o pagode dos sábados e outras coisinhas mais a gente pode negociar, não pode?

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Noite livre na prisão



Parou no sinal fechando, amarelo ainda. Poderia ter avançado, mas estava distraída. Com o que mesmo? O celular que não pára de tocar. O que esse pessoal do escritório faz da vida? Sexta-feira, dez horas da noite? Ninguém merece...Mas se não atender é aquele estresse, fica mó climão na hora do cafezinho, olhar torto e tal...
- Olha só, eu tô dirigindo, não posso falar agora. É rapidinho? Tá, então fala logo que eu tô no sinal e...
- Perdeu! Perdeu!
- Ai-meu-deus-do-céu! Calma moço, leva tudo, é tudo seu, é seu! Ganhou! Depois te ligo...
- Cala a boca, vaca! Celular! Relógio! Bolsa! Se o carro andar vai ter miolo de madame prá todo lado...
- Pronto, prontinho, tá tudo aí moço...
- Não me enrola não! Não me encara não, que eu tô doido prá dar um teco num hoje. Passa o espelho do rádio! Vai morrê! Vai morrê! Vai, vai acelera vaca! Não olha prá trás! Vai, vai, vai...
Foi.
Estranhamente a Bartolomeu Mitre pareceu-lhe tão vazia, grande e silenciosa. Quanto mais acelerava, maior era a sensação de flutuar - o carro ou ela ou ambos? - no vácuo de nenhum outro veículo; porque nada havia além dos sinais amarelos piscando sobre a mão esquerda trêmula agarrada ao volante suado. Ir para onde? Onde mais seria algo a mais? Têm um carro da PM ali. Vou parar. É o certo a ser feito. Mas o certo é o tempo, o meu tempo. Será que eu tenho esse tempo? B.O., delegado, viatura, elemento, meliante portando arma de fogo, autoridade, banco duro, foi-se a noite. Já não chega perder o celular, o relógio, o tocador de CD e ainda perder a noite? Não, isso não. A bolsa tudo bem, era falsa e cheia de cartão de crédito estourado; o moleque se deu mal. Tempo, tempo...Será que o negócio do escritório era sério? Não vão conseguir falar comigo até segunda-feira...Tenho o resto da noite livre e amanhã...amanhã vai dar um praião...

Porque o inferno se perdeu



Bolas de sabão explodem alopradas pelo vento
Pegá-las! Pegá-las em correria desatinada
Canta de roda a ciranda que foi minha e foi tua
No meio da rua que mandava ladrilhar
Com cerol de vidro amassado com cola polar
Batatinha-frita-um-dois-três vezes pula a perna num pé só
Amarelinha de um ao céu, porque o inferno se perdeu
No pique da bandeira hasteada no pátio da escola
Hino nacional cantado de conga e meia três quartos
Sempre desarrumados tal estratégia de queimado
Corre! Corre que lá vem bola! Topada e ronxa
Não dói nada. Nem sarampo, catapora ou febrão
Impede correr atrás de doce em dia ou noite
De São Cosme e Damião.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Notícias do limbo


Querido amor,
Trago notícias do limbo. Aqui não faz sol e nem chuva, frio ou calor. Os dias são iguais às noites assim como estas letras simétricas. Peço, desde já, desculpas pela forma sonolenta do relato, mas outra forma não haveria como chegar aos teus olhos, quiçá ao coração. Gostaria imensamente que recebesse esta cheia de descobertas e felizes encontros, flores na estrada e temperaturas inusitadas. Quero que saiba que jamais te escreveria à toa se, realmente, não estivesse esta pobre alma perdida entre um parágrafo e outro.
Ciente e arrependida de meus crimes cumpro abnegada minha pena. Conto os dias com riscos na parede e, ao mirar o mural de retalhos, desespero-me com o tempo esquartejado e jamais recuperável. Daqui do limbo contemplo o infinito do que não fiz, do que não comi e, principalmente, do que não fui. Faz parte da pena a turbulência dos próprios pensamentos e o silêncio do futuro.
Quanto tempo mais ficarei por aqui? Com certeza o meu nobre anjo está a perguntar. É necessário que entenda a natureza do meu crime imprescritível, inafiançável e incomensurável por seu torpor. Trata-se de uma abominação continuada, logo a pena também o é. Sei que há volta, há fim dentro deste enorme círculo vicioso, no entanto a data não foi registrada nos livros oficiais do limbo. Preciso ter paciência ao vislumbrar cada manhã sem cor, posto que seja chama escondida dentro de mim.
Certa de encontrá-lo bem, coloco neste envelope meus cacos. Guarde-os numa caixa grande e arejada. Voltarei para juntá-los.
Com amor, sempre tua.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A casa do Seu Pedreira



Seu Pedreira tinha como domicílio oficial a Praça São Salvador – oficial sim por que há relatos de que recebia cartas das mãos do próprio carteiro. Catava coisas na rua e papelão, principal matéria prima para confeccionar sua residência móvel, instalável em qualquer dos trezentos metros quadrados de seus domínios. Durante o inverno, no coreto; no verão, ao lado do chafariz. Mas era na primavera e no outono que sua criatividade aflorava: armava o barraco em qualquer recanto da praça, do parquinho das crianças ao canteiro dos cachorros. No entanto, nem tudo era flores para Seu Pedreira. Vez por outra agentes da limpeza urbana recolhiam seus pertences. O homem virava bicho. Xingava Deus e o Diabo e quem fosse portador. Era pedreira para acalmar o velho. Daí o nome.
Diante dos inúmeros percalços, Seu Pedreira acordou um dia inspirado. Olhando fixo para as árvores viu a solução de seus problemas. Na calada da noite, aproveitando-se das folhagens densas, iniciou o grande projeto da casa na árvore. Fez a planta baixa para instalar no alto. Decidiu que seria de madeira. Passou o outono recolhendo material de demolição e pregando aqui e ali. Construiu uma escada discreta com ripas da cor da árvore. Achou no lixo um saco de lápis-de-cera. Durante o inverno desenhou no lado externo da casa todas as folhas e flores arquivadas na memória. Orgulhoso da camuflagem partiu para o interior. Desenhou aviões, foguetes, carros, crianças e bichos. Gostava mais do macaco rindo na cabeceira da cama. Decorou o lar com objetos valiosíssimos doados pelos sacos pretos: embalagens de batata-frita coloridas, brinquedos quebrados, garrafas pet, latinhas, vidros e flores de plástico. Construiu mesa, cadeira e armário. Para completar a obra, realizou seu sonho de menino. Fez um gigantesco móbile de arame, cacos de vidro e latinhas de alumínio. Enquanto o móbile rodasse brilhando sobre a sua cama, nada poderia atingi-lo.
Comprou cem gramas de mortadela e uma garrafa de cachaça para a grande inauguração. Ficou lá em cima cantando e dançando o novo lar. A festa durou três meses, tempo programado para a poda das árvores.
Seu Pedreira acordou com sol na cara e a moto-serra quente no lombo. Pulou num susto, pegou a munição – montanha de pedras portuguesas mantidas ao lado do colchão – e, aos urros, metralhou os operários com a determinação de um pastor alemão. Seus berros chamaram a atenção dos freqüentadores da praça. Janelas curiosas foram abertas e dedos-duros apontados para a árvore. O povo foi saindo dos bares, da farmácia, do mercado e convergindo para a árvore de Seu Pedreira. O velho gritava a plenos pulmões: - Socorro! Querem destruir o meu lar! Polícia! Bombeiros! Prefeito, Governador, Presidente, estão me roubando! Larga minha árvore se não eu mato! Ah!
O circo armado, personagens prontos, só faltavam as autoridades. Não demorou, chegaram junto com as emissoras de TV. Quem ligasse a televisão naquela hora veria a transmissão ao vivo de Seu Pedreira brandindo suas pedras e cuspindo fogo.
O público passou por várias fases emocionais. Primeiro o susto, depois a dó e por último a simpatia pela causa. Só quem conhece o povo carioca sabe o perigo que representa a simpatia coletiva por uma causa nessas terras quentes.
Enquanto lá no alto os bombeiros resgatavam Seu Pedreira, o povo indignado saia no tapa com a polícia lá em baixo. Coisa de dar inveja ao Green Peace. Ruas interditadas, cordão de isolamento, spray de pimenta, bandeiras quebradas e, muito barulho depois, o velho foi recolhido para o abrigo municipal.
A horda não deixou que destruíssem a casa na árvore. Fez vigília, deitou no chão, chamou ONGs, acionou o MP, a ONU e o escambau a quatro. Sucesso no Fantástico. Depois de um longo processo na justiça, a mansão de Seu Pedreira foi tombada como patrimônio cultural do Município. Instalaram uma placa ao lado da árvore contando toda a saga, com direito a foto do artista com pedra na mão. A prefeitura fez um cercadinho em volta da obra e cobra R$ 1,00 para quem quiser visitar o museu.
E onde está Seu Pedreira? Quem sabe? Que diferença faz?

terça-feira, 24 de junho de 2008

A trocadora de sonhos

Crônica publicada em 2007 na Revista de Domingo do Jornal do Brasil


Dalva trabalhava naquela linha há vinte sacolejados anos. Viu o trajeto ser alterado em ruas que viraram mão outras que viraram pé. Atuou com muitos motoristas, alguns mal humorados, muitos cavalheiros, incontestáveis kamikazis do trânsito. Presenciou atropelamentos, quedas de passageiros em freadas, assaltos, trocas de tinta com táxi, moto, caminhão e, principalmente, outros ônibus. Mas, verdade seja dita, foi testemunha de aniversários, pedidos de casamento, raspadinhas premiadas, trocas de presentes, beijos, amassos e sarros.
Por gosto, tinha o hábito de, depois de adquirir a intimidade do terceiro bom dia, perguntar ao passageiro como a ilustre pessoa estava, como tinha sido o seu dia, se tinha dormido bem...Ali na roleta, começou a atender uma clientela assídua, ansiosa por contar seus causos, conquistas e mazelas. Ouvia a todos, só interrompendo rapidamente para concordar, confortar, dar uma palavra de força. Quando perguntada, Dalva dava opiniões revolucionárias:
- Deixa esse cara, vai estudar dança de salão!
- Já pensou que se seu filho puder cuidar da vida dele sobra tempo pra você cuidar da sua?
- Prá que você precisa de dois olhos se com um a gente já vê mais coisa do que gostaria?
O consultório funcionava melhor em dia de engarrafamento, concorridíssimo! Os casos, totalmente públicos, eram polemizados e discutidos efusivamente pelos demais passageiros. Mas a conclusão brilhante, incontestável, definitiva, era da trocadora Dalva. Tinha em seu currículo casamentos salvos, divórcios libertadores, empregos trocados e incontáveis receitas de bolo bem sucedidas.
Ocorre que, numa segunda feira qualquer, começou a circular na linha ônibus sem trocador.
- Como assim?
O novo motorista, verdadeiro polvo, usava seus tentáculos para abrir a porta, segurar o volante, dar seta, passar marcha, trocar dinheiro, arremessar moedas e fazer incontroláveis gestos tetosterônicos para os demais motoristas barbeiros.
- Onde estaria Dalva???
Foi um assombro a onda de depressão instalada no semblante dos passageiros. Olhavam para o lugar dantes do trono de Dalva, agora preenchido por dois lugares vazios. Questão de respeito.
Chilique, faixa na janela, abaixo assinado e até greve foi organizada pela volta de Dalva. Mistério. Pararam o trânsito gerando um engarrafamento em escala industrial, na pressão, com gás.
Conseguiram, através de negociações coletivas emocionadas, que, do mesmo jeito que sumiu, Dalva reapareceu, depois de um intensivo na auto-escola, comandando um reluzente coletivo urbano.
Ela estava de volta, com mais tentáculos do que qualquer vendedor de pulseiras poderia sonhar, mais polva do que nunca!
Quem pagou passagem pode ver como Dalva conseguia guiar aquele trambolho e as almas com a mesma velocidade!
Poucos, mas pouquinhos mesmo, conseguiram perceber que, dos trocadores de sonhos, apenas Dalva retornou.

domingo, 22 de junho de 2008

Emergência



- Boa tarde, doutor. Estou morrendo...
- O que a senhora sente?
- Dor no corpo, febre, piriri, enjôo, ardência na gengiva quando bebo chope mal tirado e coceira no dedão do pé esquerdo...É grave?
Cutuca daqui, escuta dali, luz na garganta, nos olhos, nos ouvidos, bolina barriga, sovaco, pélvis, pescoço e nuca. Sentença imediata:
- É virose. Vitamina C, antiinflamatório por sete dias, antitérmico quando tiver febre e repou...
- Virose? Mas que vírus? Ebola? Gripe espanhola? Herpes?
- Virose simples, passageira.
- E a coceira no dedão?
- Frieira. Vou passar um talco e...
- E a gengiva?
- Não tem nada aparente, mas a senhora deve procurar um dentista regularm...
- Mas assim? Virose e pronto? Sem tomografia computadorizada? Nem um modesto kit exame de sangue e urina? Fezes! Há muitos anos não faço um exame de fezes. Nunca gostei de sair por aí com aquele potinho cheio. Mas, pela saúde, faço qualquer negócio. O doutor não acha que pode ser uma solitária devorando as minhas entranhas?
Doutor perfumado, barbeado, jaleco branco, olha muito fixamente a vítima:
- Não creio. Vou passar um vermífugo para tomar apenas um comprimido por prevenção.
- Sei...Olha, eu sou fumante ativa; e se for um efizema terminal ou tuberculose crônica ou pneumonia galopante? Veja bem a sua responsabilidade...
- Virose.
- Uma abeugrafiazinha não custa nada, não é doutor?
- Tome os remédios e volte daqui a dez dias.
- E se eu morrer até lá? O senhor garante meu pronto restabelecimento? Presta atenção: tenho histórico na família de câncer, diabetes, cardiopatia, esquizofrenia e neuroses múltiplas. Não seria melhor investigar?
- A senhora pode procurar uma outra opinião, talvez a de um terapeuta...Deixar de fazer pesquisa sobre doenças na internet já ajuda bastante...
- Essa manchinha no braço, também é da virose?
- Sol. Protetor solar evita as próximas.
- O doutor sabia que dengue e febre amarela são de comunicação obrigatória aos órgãos de saúde?
- Não é o seu caso. Virose, comum no verão. Boa noite e...
- Não! Espera! Eu tenho um agravante. Sou da geração 80, aquela que não media escrúpulos para se divertir. Sabe como é, não é doutor?
- Sei. Tome os remédios e vá dormir. Amanhã vai acordar bem melhor. Boa noite e, por favor, na saída chame o próximo paciente.
- Tem certeza, doutor?
- Tenho.
Magoada resmunga batendo a porta:
- É por isso que eu não gosto de médico, além deles não fazerem nada do que a gente quer, não possuem um pingo de imaginação!

sábado, 21 de junho de 2008

Mulheres, borboletas e moscas



Acorda, corre para o calendário e pensa: Caramba, o dia dos namorados caiu no auge da TPM da Margarida. Estou ferrado. Não vai ser fácil escolher o presente.
Toma banho caprichado, faz a barba e veste a camisa que Margarida deu no natal. Sem perfume para não irritar. Já no shopping, percorre as vitrines recheadas de roupas e bijuterias. Não cometeria o mesmo erro do ano passado. Não reparara que ela não usa brincos, anéis ou pulseiras e dera um conjunto completo; até hoje pendurados no gancho da rede do quarto a título de decoração. Com roupas ela não se empolga e livros é tão difícil saber o que ela não leu ou o que jamais lerá.
Embora não se enfeite, Margarida decora a casa como um ninho de passarinho: vários pequenos objetos compondo um quadro caótico. Coisas coloridas achadas na rua, pequenos presentes e muita bugiganga.
Sai do shopping frustrado e vai bater na feirinha de artesanato de Ipanema. Acha um troço lindo, a cara dela. Compra e passa numa floricultura. Rosas brancas, as preferidas e ideais para um dia crítico.
Encontra-a vestida de azul com o olhar perdido na parede, a mão esquerda em vírgula segurando a caneta no ar diante das folhas do caderno batendo asas. Tira uma foto com o coração e guarda. Chega de mansinho para não assustar e beija-a. Meio sorriso, olhos receptores. Tudo bem. Entrega as flores e ganha outro beijo. O presente só depois. Sabe que a TPM prende as palavras dentro da boca da amada, o que é deveras preocupante. Nos dias normais ela administra uma verborragia contagiante, falada e escrita. No entanto, nestes dias inglórios, cultua reticências e meias palavras. Uma profunda tristeza inexistente a invade, sendo o silêncio ou a irritação o principal sintoma.
Ele conhece o próprio potencial de tirá-la daquela letargia. Fala da praia, do sol e do vento. Ah! O vento! Ele sabe o quanto ela ama o vento e o seu som. Vendo-a mais aminadinha, fala dos animais, das plantas e dos personagens ímpares que circulam incógnitos pela cidade. Pronto, tem agora toda a atenção de Margarida. Ela solta o cabelo e ri abertamente. É a hora. Entrega o embrulho e se arrepia quando ela solta um gritinho de prazer ao retirar da caixa o móbile de borboletas e moscas coloridas.
Saindo dali, foram para casa onde ele preparou uma massa com molho de tomate, vinho branco, beijos e canções.
Não há TPM que resista a um homem desses.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A urna e o gelo



Acordou cedo, tomou banho e fez a barba. Procurou o título, mas lembrou ser a identidade desbeiçada o suficiente. Vestiu a camisa vermelha, achando-a por si só explicativa, e saiu fingindo indiferença de quem vai cumprir velha obrigação.
Não tinha fila e os mesários estavam ali só para ele. Diante da urna, um frio covarde na espinha fez com que demorasse seculares segundos para tirar a cola do bolso. Digitou o número e teclou confirma. Tiririririm!! Acabou. Soltou um pumzinho aliviado e respirou orgulhoso. Tá feito.
Sentia o corpo leve, mas sabia que teria de dar satisfações. Foi pensando no caminho pro trabalho: poderia mentir ou alegar que revelar voto é sacrilégio, ou melhor, dizer que esqueceu. Não vai colar. Começou a ficar nervoso só de pensar.
Chegando na birosca da Dona Otília, viu a patroa com a cara azeda de costume. Dizem que sofre dos bofes. Ninguém para atender. Colocou o jaleco amarelo e antes de conseguir chegar no balcão, a peçonhenta atacou:
- Votou em quem?
Fingiu que não era com ele e começou a socar o gelo com o porrete na chopeira.
- Menino, você está surdo?
- Não senhora. Já votei sim senhora.
- Em quem?
- No homem, de novo.
- Mas é um idiota mesmo. Não falei pra você votar no outro?
- Falou sim senhora.
- Então o que foi? Deu bobeira na urna?
- Não senhora. Eu até levei o número que a senhora me deu, mas na hora, na frente daquela máquina, me deu um troço nas vistas...
- É um banana mesmo. O que que eu faço com você?
- Sei não senhora.
- Você sabe como estão os juros? Sabe quanto eu pago de imposto? Tem noção do mensalão, sanguessuga, dólar na cueca e um milhão e setecentos mil tudo misturado?
- Não sei de nadinha não senhora.
- É por isso que essa merda de país não sai da merda, por culpa de milhões de merdas como você!
- Sim senhora.
- Vai! Vai! Cala a boca e soca esse gelo logo!
Voltou a socar o gelo olhando pro outro lado da rua. Viu as crianças brincando na praça e os velhotes pegando sol. Olhou para Dona Otília e para o porrete. Do porrete para Dona Otília e vice-versa de novo. Apertou os olhos mirando a nuca sebenta da Dona Otília. Levantou o porrete e deu tanta surra, mas tanta surra no gelo que só parou quando os braços suados amoleceram. E o gelo virou neve de geladeira.
Encarou Dona Otília que estava com os olhinhos répteis esbugalhados, a boca mole, uma mão crispada na máquina registradora e outra no coração. Soltou o porrete, tirou o jaleco e foi embora sem olhar pra trás.
Na manhã seguinte acordou cedinho como sempre, tomou banho, fez a barba e ligou a televisão para ver o homem de novo presidente. Meu presidente. Vestiu a camisa social, cinto e sapato engraxado.
Dia bom pra procurar emprego. Birosca é o que não falta neste país de Deus.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Calor, né?


- Moço, aperte o número 23, por favor! Muito grato.
- 12
- 5
- %#@!!
- Senhor, qual o andar mesmo?
- É surdo? 28.
- Calor, né?
- Vai chover.
- Ôô...
- Ainda bem que a viagem é rápida.
TREC
- Vocês ouviram um TREC?
- Devem ser os cabos...
- Ou os freios...
- Freios?
- É assim mesmo.
TREC-TREC. Luz apaga. Pára tudo.
- Ai meu-deus-do-céu!!
- Calma, não foi nada...
- Como “nada”? Não enxergo nada!
- Vão ligar os geradores...
- Daqui a pouco...
- É só ter paciência...
- É...
- Aperta o botão vermelho!
- Botão vermelho?
- Onde?
- Ôi?
- Virgem Maria! Valei-me meu Jesus Cristinho! Não deixe que eu morra nesta lata de sardinha!!
- Ninguém vai morrer aqui. Vamos sentar e esperar.
(...).
- Tô com o ar faltando...Uma angústia no peito...
- Mas só se passou um minuto...
- Não interessa, tô preso, sem ar.
- Ih...O cara vai dar defeito...
- Ninguém merece...
- Relaxa, cara...
- Deixa de merda...
- Ai, minhas mãos estão dormentes, suando frio, a vista escurecendo...Ui...
- Bate palmas...
- Abre e fecha as mãos...
- Faz pressão na nuca e sopra...
- Vou te encher de porrada se não parar com essa frescura, caralho!
- Passou!! Dia quente, né?
- Ôôôô...

Segredo


- Mas que merda! Tira esse troço preto fedido daqui!
- Assim estraga a amizade. Qual é o seu problema com a minha mochila? Tu é racista, nêgo?
- Racista é o cacete! Não gosto é de fedentina. O que tem aí dentro? A cabeça da tua sogra?
- Antes fosse, colega, antes fosse...Vou te mostrar.
- Nem pagando! Vira essa trolha para lá!
- Não tem risco. É de comer.
- Você acha mesmo que eu como merda?
- Não. É queijo.
- Queijo? Podre, é certo.
- É francês.
- Francês não toma banho e passa o queijo no sovaco enquanto prepara. Estou até vendo a cena...Credo...
- O gosto é bom.
- Deixa eu ver esse negócio.
- Vou cortar um pedacinho para você experimentar...
- Feio, ein?...Está mofado, seu idiota, joga essa porra fora!
- Só um pedacinho...
- Parece maluco. Tá querendo me envenenar?
- Pára com isso, cara, você precisa quebrar esse paradigma, experimentar coisas novas...
- Vou dizer já o que eu vou quebrar...
- Ummm...Está uma delícia. Nossa, pena que você não consegue...
- Se eu comer esse bolor você pára de me encher o saco?
- Agora.
- Pedaço pequeno que é para não intoxicar muito...
- Gostou?
- Onde foi que você comprou essa porcaria?
- Na Chic Import em Ipanema.
- Caralho, deixou os ovos lá empenhados?
- Mais ou menos. Mas vale cada centavo!
- É, não é tão ruim assim...Mas é coisa de veado. E a patroa, está sabendo dessas novas preferências?
- Nada a ver, cara, desencana.
- Vamos comer esse breguete que está muito bom. Mas se você sair por aí falando...Eu nego! Eu nego e acerto as contas contigo depois. Vai, vai, porra, dá um palito aí e vê se não come tudo!

domingo, 1 de junho de 2008

Sábado de gato gordo



Entrou no pequeno armazém como fazia nos últimos quarenta anos, mas baixou a grade em seguida. Determinado, correu até a pia e começou a preparar a coisa. Dois litros de óleo de soja, banha passada à vontade, um litro de creolina, uma concha de sabão em pó, Cinco ovos podres cultivados ao sol na véspera, duas pitadas de ódio e cem gramas de vingança. Misturou tudo até ferver. Cozinhou lentamente em mágoa branda. Para finalizar, preparou a calda grossa de impotência derretida em doses generosas de tristeza.
Esperou a tarde cair. Deste sábado não passaria. Era certo.
Sábados...Sábados...Lembrou das crianças fazendo fila para comprar pirulito de açúcar queimado, bala de tamarindo e maria-mole, branca ou morena. As senhoras, vindas da rua da frente e da rua de trás, compravam manteiga a granel, arroz do tonel, pomada Minâncora, Leite de Rosas e Polvilho Anticéptico Granado. Dava gosto ver aquele mulherio borbulhando, se misturando com o tilintar das garrafas de leite. À tarde, chegavam os maridos para compartilhar o balcão com uma cervejinha, uma branquinha, um sambinha, salaminho e tremoço. O gato, com o bucho gordo de rato, dormia sob o balcão com o rabo entre os copos e o tira-gosto. E assim o sábado se orgulhava de sua opulência. Seu Manoel orgulhava-se também de seu estoque diminuto, mas do tamanho da necessidade do bairro. Fazia pesquisa entre os clientes, visitava o porto e o mercado municipal procurando sempre a melhor oferta e a novidade. Trazia enlatados lindos e oferecia a casa mais limpa e lustrosa das redondezas. Daria para comer no balcão, sem prato. Alguns clientes, no apagar das luzes, ao derramar um copo de precioso líqüido, ameaçavam lamber o honrado balcão, mas Seu Manoel nunca permitiu, era uma casa de família. Na testa da loja, exibia a placa pintada pelo cunhado: Casa do Coração do Alentejo, em homenagem aos seus compatriotas da terrinha distante.
Em frente à Casa do Coração do Alentejo, funcionava a maravilhosa Fábrica de Tecidos Esperança, onde todos trabalhavam. Mas a Esperança morreu primeiro, no primeiro de abril. Quase mentira se não fosse verdade. Fechou as portas e calou as máquinas de supetão, na cara de todo mundo. Seu Manoel ficou ali, vendo a grande reforma da Esperança virar um grande, hiper, mega, monstruoso armazém.
Sábados...Sábados...Mas os sábados foram ficando menores e silenciosos. Já não havia novidades que trouxessem de volta as senhoras ou as crianças. Um bêbado ou outro tropeçava no balcão e levava para casa um pacote de feijão que esqueceram de comprar no último supermercado. Supermercado...
O caldo estava pronto. Engraxou os sapatos, vestiu o terno de domingo, embora fosse sábado. Passou brilhantina na cabeleira rala, encheu dois galões da coisa e instalou num carrinho de mão. Era a coluna que cobrava o preço dos anos carregando caixas. Tomou de um gole só um vidro de Leite de Magnésia e outro de Lactopurga. Pegou a velha bombinha Flit, encheu com a gosma asquerosa e atravessou a rua.
Entrou olhando fixamente para o campo de batalha. Puxando seu carrinho de mão, dirigiu-se resoluto para a bancada de frios. Derramou metade de um galão sob os filés-minhon, picanhas e maminhas. Estrategicamente, espalhou o restante do primeiro galão pelo corredor principal. Abriu os lacres de fuagrás, alcaparras e alcachofras e mandou lufadas de bombinha neles. Passava resoluto com os braços nas prateleiras de grãos, garrafas e sacos. Os clientes, traidores, escorregavam junto com os seguranças. Armado de sua bombinha devastadora, dirigiu-se aos caixas e deferiu uma rajada nojenta nas registradoras. Gritos lascinantes não o intimidavam, davam-lhe forças sobre-humanas. Abriu o último galão, apoiou sobre os ombros e despejou a arma química por cima dos doces.
Acabada a munição, não seria capturado facilmente. Fez pipi nas hortaliças e rolou no balcão dos pães soltando a metralhadora giratória de leite de magnésia e lacto-purga. Farejando o fim próximo, tirou o pino da granada: botou o dedo na goela e adicionou molho extra sobre os importados.
Seu Manoel foi agarrado por cinco escorregadios guardas enojados. Dobraram o velho em quatro partes, feito envelope, e depositaram na urna da viatura. Voto válido.
O velhote sorria por entre as grades dos dentes, vendo a Casa do Coração do Alentejo se afastar de seus sábados para sempre.

Manga com leite



Entrou no boteco, bateu no balcão e gritou:
- Bota aí um copo de leite batido com manga e chumbinho que hoje eu quero morrer!
- Leite com manga? Não tem não senhor.
- Ah! Então traz cachaça de cabeça e um chope. Na pressão. Demoro a morrer, mas morro!
Virou o pedido e devorou uma empada de frango para empapuçar logo. Quem sabe conseguiria acabar com o sofrimento entalado? Fumou três cigarros emendados um no outro para não apagar. Tossiu tal qual cachorro sarnento, cuspiu no chão e latiu:
- Hoje eu morro! Sai mais uma manga com leite na pressão!
- ?
- O mesmo! O mesmo! Tem que explicar tudo aqui...
Mais três cigarros e pensou na Lurdinha rebolando com a safadeza dos dentes arreganhados no pagode. Aquelas toras de pernas suadas esbarrando em tudo quanto é tipo de malandro. Malvada.
- Hoje eu morro e ela vai chorar rosas vermelhas de sangue no meu caixão! Mais um queijo com molho de manga!
Abraçou os olhos com as mãos para não ver a lembrança de Lurdinha entrando no banheiro com o playboy. Saindo toda serelepe, se ajeitando. Passando diante de seu desespero e soprando uma dúvida de hálito doce em seu ouvido. Saindo gargalhando em ondas pela calçada morena. Levou com ela o perfume da dama-da-noite, flor do verão. O mundo ficou sem cheiro, sem som, sem dentes.
- Vou morrer banguela! Cadê minha manga com leite? Traz mais! Traz mais!
Enfiou a mão entre os botões da camisa encontrando o próprio coração destroçado. Bufou com a imagem de Lurdinha chegando sorrateira num comprimento único: apertando levemente seu mamilo esquerdo. Gritou:
- Sai um chantilly de manga!
Esvaziou os copos enquanto tentava equacionar Lurdinha no lado dormente do cérebro. Gemeu:
- Lurdinha...
- Ôi, amor!
Mão quente no mamilo esquerdo.
- Traíra! O que você está fazendo aqui? Veio assistir o meu fim?
- Já chapou o coco, nego?
- Eu vi tudo...Você no banheiro com o playboy...
- O Marcelinho?
- Não brinca comigo, minha flor, que eu sou capaz de fazer uma loucura...
- Você está com ciúmes do Marcelinho? Ah! Bobinho, da fruta que eu gosto ele come até o caroço.
- Jura?
- E precisa?
- Hoje eu morro!
- Vem cá meu nego...
- Eu morro...Eu morro...

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A fantástica viagem de Darwin pelo banheiro da Myriam



Entrou no banheiro e logo percebeu o relógio analógico na parede. 20h20min. Olhando para o sanitário percebeu a indefectível balança ao lado. 52 kg. Sentou no vaso e liberou todas aquelas palavras líqüidas acumuladas na reunião. Muita coisa. Fechou os olhos até o fim dos trabalhos. Quando reabriu, viu-se sentada no vaso com os olhos arregalados. Sentiu um pulsar constante na cabeça e, por fim, processou o ocorrido: estava na parede, dentro do relógio: 20h25min... 20h30min. Viu-se levantar, vestir-se novamente e subir na balança. 20h32min. Sentiu a pressão no peito: 51,900kg. Perdera 100g e a identidade. O tempo passava latejando na nuca com o peso das costas. Pesaria sua existência apenas 100g? 20h33min. Como voltar para a reunião sendo uma balança-relógio? Calma, é a cerveja. 20h34min. Feche os olhos e abra a porta do banheiro para tudo voltar ao normal. Ao abrir, o que viu? Ledo engano. 20h35min. Melhor fechar. Impossível fechar. As engrenagens batiam no peito. 20h36min. Números surgiam a cada segundo e apenas números, 20h37min, nenhuma letra, só horas, 20h38min, minutos, segundos, quilos e gramas, 20h...39...40...41...min.
Onde estava com a cabeça quando entrou naquele banheiro? Na bexiga, com certeza, na bexiga. Fora sugado pelo pesado túnel do tempo. Sem palavras, sem letras, preso no interminável cálculo das horas da evolução. É preciso se adaptar ao ritmo e sobreviver.

A lógica no altar



Maria não acredita em azar ou sorte. Jamais se benzeu diante de igreja ou despacho, nem tão pouco carrega nos ossos fé em Deus ou no Diabo. Os anos forjaram sua personalidade pautada na lógica e na determinação.
Hoje Maria viu a probabilidade de um por cento dar errado acontecer. Falhara nos cálculos, no projeto ou na execução. Talvez estivesse equivocada quanto ao objeto ou ao método inapropriado. Mas a verdade era uma só: fora derrotada e seus últimos cartuchos foram disparados naquele investimento. Sem que ninguém a atrapalhasse, meteu os pés pelas mãos, julgara mal as pessoas, fizera escolhas erradas e só existe um culpado: ela mesma. Não poderia culpar o azar do Diabo e nem pedir sorte a Deus.
Saiu caminhando sem rumo pela rua e viu-se entrando na Igreja da Glória. O silêncio e a escuridão pesavam seus passos. Sentou diante do altar e chorou copiosamente. Chamou baixinho pela mãe e uniu as mãos em suplica. Tremia. Pensou em se ajoelhar, entretanto olhou para os vitrais e nada viu além de lindos vidros coloridos. Recobrou a lucidez a tempo de enxugar as lágrimas na barra do vestido.
Sorriu ao se imaginar começando tudo de novo. Virou as costas para o altar e caminhou para a saída sem olhar para trás.

domingo, 25 de maio de 2008

Milhos e lírios




Como era enfermeira, foi fácil escolher a roupa para o Ano Novo. Selecionou a calcinha amarela porque, neste Ano Novo, todos os sonhos seriam palpáveis. Vestiu as pulseiras, anéis, colares e o par de brincos brilhantes. Maquiagem leve, cabelos soltos e saiu, consciente de sua beleza madura, andando em direção à Copacabana. Na rua, comprou um ramo de lírios para a oferenda, um milho cozido a título de última ceia do ano e uma cidra para estourar na virada.
Chegou no grande lençol branco, decorado com milhões de almas, quinze para meia-noite. Tinha tempo. Estendeu a canga de fitas do Nosso Senhor do Bonfim da Bahia, sentou olhando o mar e pensou: Os filhos, já criados, não mais abriam direito a voto em suas vidas. Os amores iam e vinham como as ondas, só molhando. Mas tinha a sua profissão, amor indissolúvel e confiável; plantões arrebatadores e, no final, o cansaço apaziguador.
Levantou a saia bordada com pequenas contas até os joelhos, molhou os pés e pulou três ondinhas. Lançou os lírios com tanta delicadeza que eles voltaram e abraçaram seus tornozelos. Para seu alívio, o repuxo da onda aceitou o presente engolindo tudo num engasgo espumante. Rezou para Nossa Senhora e pediu proteção à Iemanjá, Rainha do Mar. Pediu sorte, saúde e juízo para os filhos e, se sobrasse um pouquinho, para ela também.
Os fogos estouravam e a água salgou-se de luz. Os gringos e os nativos se abraçavam, se beijavam e se melavam todos de champanhe e cidra com a mesma volúpia. Ela ficou ali, rindo sozinha, mas sozinha. Tinha até esquecido de abrir a cidra...
- A rapariga permite que eu abra a garrafa?
Não é ofensa, é português mesmo, legítimo, prestativo, simpático, turista...
- Claro! Por favor moço...
Ele estourou a cidra, deu um gole que escorreu pelo peito. A cidra sorria e os fogos brilhavam nos dentes brancos e enormes dele. Bebi também no gargalo e ganhei um abraço carinhoso, desengonçado, quase infantil.
Os fogos acabaram mas nós ficamos sentados na areia, lado a lado, conversando até o sol se espreguiçar, indolente, no colchão de espumas.
Ano que vem, trarei mais lírios.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Carvão e Costela


Dois vira-latas puro sangue, pêlo curto, focinhos e rabos compridos e orelhas de abano. Iguais, só que uma marrom e o outro negro. Freqüentam a praia do Leme diariamente, a partir das sete horas da manhã. Chegam escoltando o Cara da prancha de surf. Entram os três no mar e, enquanto o Cara pega onda, Carvão e Costela fazem a festa. Pegam caixote, criam buracos, correm atrás de marola e pombo, embolam na areia, zapeiam prá lá e prá cá fazendo o que cachorro sabe fazer melhor: ser feliz.

Nesta manhã de verão, Costela parece indisposta para eventos atléticos e prefere ficar deitada na areia acompanhando os movimentos das ondas, do Cara e do Carvão. Após alguns minutos de contemplação, a cadela levanta, acocora-se e solta o que lhe incomoda. Não costuma fazer isso na praia, sabe que não pode, mas foi, visivelmente, uma emergência quase liquida. O Cara nas ondas e Carvão nos buracos nem percebem a aflição de Costela cheirando aquilo sem saber o que fazer.

O Senhorzinho, figura local que corre diariamente na praia, assiste tudo e vai lá conferir. Zeloso da praia, enterra a prova e encara a criminosa que, agora aliviada, aguarda instruções com os olhos fixos e a língua pendurada. Senhorzinho quebra o dia aplicando o castigo com um único chute no meio do focinho de Costela. A cachorra geme alto ao ser arremessada dois metros adiante. Golfa vermelho e deita lentamente.

Carvão sente tudo e parte em disparada em direção a Senhorzinho que tenta outro golpe. Erra. Carvão crava os dentes no pé assassino e balança a cabeça até que em sua boca deite um pedaço de carne. O Cara, em cima da onda, vê a cena e mergulha, nadando desesperado, em direção à beira. É tarde. O Senhorzinho esguicha do pé um chuveiro tingindo a areia branca. Deitada ao seu lado, tão camuflada de areia e sangue quanto ele, está Costela, imóvel, tossindo. Carvão adota posição de sentido entre uma e outra vítima. Seus olhos negros acompanham os gemidos do velho que não ousa mexer um dedo.
O Cara vem em minha direção, pergunta se tem celular. Tem. Liga para o Corpo de Bombeiros e pede uma ambulância para o velho. Agradece. Corre até as vítimas, joga com os pés areia na cara de Senhorzinho que berra. Pega Costela nos braços, beija suas orelhas e leva-a ao mar para um banho rápido. Carvão acompanha os trabalhos apreensivo. Ciente da pena de morte transitada em julgado imputada a Carvão, o Cara sai do mar correndo com sua amiga no colo em direção à rua com Carvão em seu encalço.

O velho foi recolhido alguns minutos depois pela ambulância dos bombeiros.

A prancha ficou comigo. Nos dias seguintes voltei à praia na esperança de rever o trio e devolver a prancha. Perguntei aos barraqueiros pelo Senhorzinho. Também sumira, depois que perdera o pé. Nunca mais o Leme os viu.

Às vezes, a felicidade se esvai numa única cagada.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Deu vaca


Minha missão é relatar os fatos. Embora não tenha o lastro jornalístico, carrego a obrigação testemunhal; mais fácil, porém infinitamente mais espinhosa. Não é minha intenção fazer do nobre leitor meu álibe... Até porque, não é do meu feitio. Mas, acredite ou não, eu estava lá, vi tudo com estes olhos com que o fogo há de se deliciar.
Foi numa final de manhã mágica de inverno tupiniquim. O céu tinha aplicado colírio e se oferecia límpido e brilhante. As árvores brisavam gostosas e soltavam confetes de folhas secas. As gentes prosavam sorrindo lentamente e efetuando a fotossíntese nos bancos da praça São Salvador.
Nesse cenário idílico, da esquina do Corpo de Bombeiros, despontou Mimosa rebolando com a delicadeza de um lírio e o passo de uma escada magirus. Como o povo carioca não se assusta atoa, todos notaram, mas ninguém reparou na vaca gorda malhada entrando no fosso do chafariz. Mergulhou espirrando luz molhada para todo lado. A água jorrava da boca de peixes montados por anjos, que vinha derramada do alforje despejado pela grande mãe da fonte. É uma terra de novidades e, todos sabem, até uma vaca tem o direito de passear na praça sem ser incomodada. A praça é do povo.
Mimosa, com movimentos de ninfa, imergiu suas manchas pretas sem levantar borbulha. Ergueu o focinho molhado, fechou os olhos e recebeu o sol morno no rosto. A cada pinguinho, mexia as orelhas exultantes. O prazer foi tamanho, que Mimosa mugiu alto em êxtase profundamente externado. Em dez minutos o chafariz da praça foi cercado por dispostos bombeiros uniformizados e uma dezena de moradores eufóricos. Uma figura raquítica de um metro e meio ameaçou: Ninguém toca na ruminante! Deixa comigo que eu sou veterinário! Algumas testemunhas juram que viram uma grande capa branca esvoaçante nas costas do doutor, provavelmente confeccionada para um viking visto que arrastava pelo chão.
O profissional serelepe tratou logo de examinar as orelhas, as tetas e o linguão da bichana que, interativa, acompanhava impávida os movimentos do doutor com os olhos; sem, entretanto, mover seu corpo relaxado de dentro de sua nova banheira. Concluído o exame, constatado que Mimosa não estava ferida e nem de longe doente, os bombeiros passaram uma corda em volta de seu pescoço e se prepararam para executar um comprido cabo de guerra. Revolta geral, os praçantes reagiram em coro: “Solta! Solta! Solta!”. Na pressão, largaram simultaneamente a corda com a chegada da primeira equipe de TV.
A tarde já se enroscava dentro dos estômagos. Foi quando uma das velhinhas praticantes do matinal Tai Chi Chuam, ainda unifornizada, pois não arredara pé do lado do chafariz até então, resolveu providenciar o almoço de Mimosa. Foi até o mercado do outro lado da rua e conseguiu, a título de doação à nova mascote do bairro, três lindos buquês de hortaliças. Mimosa aceitou de bom grado e teve sua leve refeição acompanhada, ao vivo, por milhões de cariocas.
A praça estava uma zona. Fora os curiosos e os bombeiros, tinha pipoqueiro, ambulância, van de cachorro-quente, barzinho improvisado com latinhas geladas, churrasquinho e queijo na brasa e dezenas de especialistas coçando o queixo e analisando a nova habitante do chafariz. Não demorou a se formar uma roda de samba e, no boca-a-boca, se espalhou a notícia da festa da vaca. Imperdível. Quando a noite chegou na praça lotada, encontrou Mimosa cochilando, indiferente ao fusuê, com a cabeça recostada na borda da banheira.
Talvez por sua herança histórica de vida política intensa, ou quem sabe por porra-louquice mesmo, o povo carioca tem a vocação ímpar para causas tão imbatíveis quanto indefensáveis. Paralelo ao samba, mesas diretoras foram instaladas, emolduradas por faixas com palavras de ordem: “A Vaca é nossa!”, “Banho livre para todos!”, “Vaca livre jamais será vencida!”. A lista de apoio à causa já ostentava mais de trezentas assinaturas e a fila continuava crescendo. Autoridades davam entrevistas cautelosas, afinal, não tinha como retirar a celebridade do chafariz sem perder uma penca considerável de eleitores.
Quando o evento já tomava proporções internacionais, Mimosa acordou, alongou o pescoço, balançou preguiçosamente o rabo e levantou. O vento estancou, cuícas, cavaquinhos e bandolins calaram, palavras foram engolidas e o silêncio prendeu a respiração. Lentamente, Mimosa saiu com uma pata da banheira. Reação da galera: “Fica! Fica! Fica!”. Pela primeira vez naquele inebriante dia, a vaca levantou a cabeça e observou a multidão. Posso jurar que encontrei em seu rosto o susto de quem tem a porta do banheiro arrombada durante um momento íntimo.
O que ocorreu em seguida foi um assombro jamais relatado nos anais da prosopopéia carioca. Mimosa desembestou pela praça, espalhando e misturando todo tipo de gente com papel, pipoca e cerveja. Corredores móveis se abriam formando uma grande serpente dançante para Mimosa passar. Os holofotes cegaram a vaca e foi preciso distribuir coice para todo lado. Os valentes bombeiros jogaram uma rede e logo Mimosa estava completamente pescada... “Solta! Solta! Solta!”. Mas agora não deu certo. Era agora uma meliante alucinada, tinha de ser contida. Ouviu-se um comentário desdenhoso: “As pessoas deveriam ser mais sensíveis, onde já se viu? Mexer com uma fêmea durante o toalete... até eu ficaria furiosa!”.
Devidamente sedada e com a língua pendurada nos lábios, Mimosa foi içada para dentro do camburão de vacas. Não se sabe ao certo o paradeiro da destemida, mas comentários maldosos foram tecidos quando, na semana seguinte, um grande churrasco dos bombeiros fez a festa da corporação. No entanto, testemunhos controvérsos afirmam vê-la, nas manhãs frescas de julho, banhando-se no chafariz; mas para ver tem de saber olhar fixo para a água em movimento por, pelo menos, meia hora.
Lenda urbana ou fato. A verdade é que em todo sétimo dia de julho, a praça se enche de samba com a saída do Bloco da Vaca Banhada, desfilando diversas matizes da ruminante e arrecadando milhares de latas de leite em pó, doadas para um abrigo infantil.