quarta-feira, 9 de julho de 2008

Milagre



O Cristo Redentor sumiu. E logo na noite da conquista de seu glorioso título de sétima maravilha do mundo. Carregado nos braços do povo que o elegeu, evaporou. Ficou só o pedestal no morro do Corcovado. Polícia federal acionada, as investigações engatinhavam em controvérsias desconcertantes.
Consta no inquérito policial que, durante a festa do Berro da Viúva, no concorridíssimo sambão mensal no bar A Paulistinha, Ele teria sido visto tomando caldo de galo e água-de-coco. Não teria negado samba no pé e nem esquecido de louvar a velha-guarda. Teria saído com estilo: de mansinho, tomando destino ignorado.
As buscas prosseguiram por toda a cidade. Relatos foram registrados de sua Santíssima presença em diversos lugares: em Vila Isabel, na quadra da Mangueira e do Salgueiro simultaneamente, na Lapa, no Estácio, no baixo Leblon, no Beco do Rato, na roda de choro da praça São Salvador e na praia de Copacabana. Nessa última, já na madrugada, teria lavado seus trajes santos no sal purificador, sempre de braços abertos.
O delegado, exausto, ouviu o milésimo relato sem nem dar muita trela. Mas o denunciante ainda estava na linha insistindo: Ele ainda está lá, comendo pão de queijo no Jardim Botânico, se derem uma corridinha ainda encontram o Cara pagando a conta...
Helicópteros e duzentas viaturas foram acionadas e ruas interditadas. O delegado chegou bufando e nada de Cristo. O pobre homem olhou para o céu entre as palmeiras imperiais e, de joelhos na relva, implorou a prece: Senhor que estais no céu, livrai-me desse flagelo! Juro, por tudo quanto é mais sagrado, que se o Senhor devolver o seu Filho para essa gente sofredora, nunca mais vou jogar no bicho ou porrinha, ficarei brocha para as morenas dos outros, fugirei como o diabo da cruz do pagode de sábado e da pelada de domingo no Aterro. Se atenderes as preces deste humilde servo, nunca mais porei uma gota de álcool na boca, nem prá limpar ferida! Fechou os olhos e se concentrou no pedido. Quando abriu, viu logo o sovaco do Cristo. Lá estava o Fugitivo de volta à casa, de plantão com os braços abertos para a cidade, como se nada tivesse acontecido. Equilibrado na corcova do morro torto, parecia meio encurvado, mas estava lá, firme.
Já erguido para partir, o dedicado servo da lei e do Senhor virou-se de repente para o céu e tentou: Senhor, pensando bem, o pagode dos sábados e outras coisinhas mais a gente pode negociar, não pode?

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