quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A flor de Adriana


Sentei na mureta da praça e, pela primeira vez depois que saí do prédio, levantei o queixo para a estátua úmida e dura como o meu coração. A sensação era igual a de abrir os olhos pela manhã: nada. Havia uma névoa torpe nos meus passos. Coisa estranha. O nada vem acontecendo todos os dias em todos os momentos. Por que continuar se só o limbo aguarda do outro lado da praça? Sempre achei incômodas essas pessoas que passam sorrindo para os próprios chinelos. É um sorriso cheio de prazer íntimo. O interessante é que não têm em comum a idade, a cor, o sexo, só o sorriso abestalhado.
Lá vem o maior dos enigmas, a pequena Adriana e sua velha mãe sacrificada. Ela vem saltitando seus pezinhos gordos. Ao contrário dos outros, sorri para as árvores, abraça o pipoqueiro, acena para o mendigo e também para o guarda. Perito algum encontraria vestígios de lágrimas naqueles apaixonantes olhos mongóis. Seus cabelos feitos de nanquim balançavam inquietos.
Ela me olhou.
Desviei o olhar, sua felicidade me ofendeu profundamente. No início deu certo pois, em seguida, ela subiu no coreto e, se esticando toda na pontinha dos tênis, colheu uma grande flor púrpura oferecida pela trepadeira cabeluda. Veio com aquele maldito sorriso doce ondulando ameaçadora na minha direção. Haveria tempo para fugir? Se me levantar agora e caminhar bem devagar, distraidamente mirando absorta a estátua, talvez a mãe se toque e segure Adriana.
Tarde demais. Ela me alcançou antes que eu pudesse mover um dedo, apavorada na minha dor, vi-me diante de seus grandes cílios. Muita calma nesta hora. Não se mexa.
- Tá triste tá?
Como assim? Pensei sentindo o calor da nuca invadir as bochechas amarelas. Não respondi e fechei os olhos. O ataque se concretizava e nada havia a fazer. Senti a mãozinha redonda puxar em câmera lenta o elástico que prendia o meu cabelo. Pronto, agora estava nua, ali, na praça. Os fios foram soltos e uma mecha enrolada delicadamente em volta do caule da flor. Abri os olhos lentamente para que ela não me escutasse; só assim percebi o quanto Adriana estava concentrada na tarefa. A língua presa na lateral da boca carnuda denunciava a importância daquela missão.
Pregou com o elástico a mecha enrolada sobre a orelha.
- Linda! Agora tá feliz!
Achando pouco, Adriana me beijou a pele seca e me abraçou pela metade com seus braços curtinhos. Antes que eu pudesse protestar, antes que eu pudesse reagir, ela voou saltitando atrás da mãe.
Mirei a estátua e com assombro percebi os respingos da fonte formando uma áurea de brilho em toda sua volta. Isto nunca aconteceu. Meu pescoço dobrou-se para trás e lá estava a aberração: o céu azul, a copa das árvores e eu planando baixo por cima do prédio do Corpo de Bombeiros. Não mais irritantes barulhentos, mas sim encharcados de uma beleza crua, intensa, segura. Cheiro delicioso de flor, de churrasquinho de rua, de asfalto, de pão quentinho saído agorinha. Senti, senti, meu cheiro ocre e mofado, torpe e abandonado. Nojo. Corri pra casa e não havia mais névoa, só vento nos pés. Entrei no chuveiro e renasci.

3 comentários:

Anônimo disse...

Forte, intenso. Emocionalmente envolvente. Dá o que pensar. Adorei. Manda mais, mais, mais. Quando é que sai o livro?

sammy | Email | 09-11-2006 12:11:32

Anônimo disse...

Eis o valor de um bom banho: melhora o astral, o sangue corre sereno nas veias e o olhar brilha que só ele mesmo sabe por que, e a ninguém mais interessa. Parabens, Cata.

YvanioKunha | Email | Homepage | 04-01-2007 20:59:15

Anônimo disse...

Não há nada no mundo como o sorriso de uma criança. E quanta sabedoria elas possuem na sua espontaneadade e pureza, antes de lapidadas pela vida... E por muito que se queira ou tente, não se consegue resistir a tal sorriso. Bendita Adriana.

valente | Email | 26-04-2007 09:26:08