segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Assombro tecnológico



Ahrg! Celular vibrando no bolso sempre me assusta. Tem o efeito similar a enfiar o dedo mindinho na tomada. Se estiver no toque de voz, pior ainda. Assemelha-se a alguém bater na porta do banheiro quando estamos ocupadíssimos.
Nunca espero uma ligação no celular. Não sei nem por que tenho esse troço. Quando estou escrevendo posso até ter uma síncope se receber uma ligação ou alguém tocar a campainha. E não tem como ignorar, é pior. E se for urgente? Alguém que amo precisando de minha atenção? Uma oportunidade impar? Pronto. Já estragou tudo; Não sei mais o que estava fazendo antes de ser ferozmente interrompida.
Ciente de minha sensibilidade, procurei colocar um toque sutil e tranqüilo: o miado amoroso de um gatinho. Mesmo assim sou pega de surpresa. Minha gata está me chamando? Com fome? Com sede? Engasgada com uma bola-de-pêlo? Não tem jeito. Esse monstro não me larga.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Ontem encontrei o Tempo na esquina.



Ontem encontrei o Tempo na esquina. Ele estava apressado, mas como sempre, disposto e bem apessoado. Falou rápido de seus novos projetos e da felicidade de me ver. Arrancou-me gargalhadas ao relatar suas últimas peripécias na noite anterior. Havia torturado algumas almas na madrugada e infestado de criação os insones. Agora não podia me dar muita atenção, pois o trabalho o chamava. Labutava em um projeto complexíssimo no centro financeiro. Coisa grande que exigia dedicação exclusiva. Não reclamou, embora tenha transparecido preferir as missões na beira da praia ou na floresta. Perto da despedida me encarou e não mediu escrúpulos no arremate: Onde você esteve? Nunca mais te vi...Andou dormindo, foi? Ando preocupado com o seu prumo...Descompassada, sorri e o abracei com tanto amor e carinho que tinha a certeza de não mais deixá-lo escapar. Gentil, aceitou o afago, no entanto, me afastou de seu corpo lentamente, beijou meus dedos, prometeu visita e telefonema, afagou meus cabelos e pediu que não os cortasse ou pintasse para facilitar minha localização. Virou-se em direção ao oposto de tudo e sumiu.

sábado, 13 de setembro de 2008

Vivo




Artérias desentupidas
Válvulas lubrificadas
Sigo o rítmo do sangue
Em glóbulos incansáveis
Pulso absoluta
O sentido mitral;
Vivo,
A conquista do meu, do teu
batimento ecodopler abismal.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Branco


Durante o apagão mundial, quatro canetas foram encontradas estateladas na calçada; sem tampas. A vermelha foi levada para o fabricante em estado gravíssimo, vazando muito pelo fundo. A azul, desacordada e já apresentando coloração azul-bebê, recebeu massagem na carga e respiração ponta-a-ponta ali mesmo no meio-fio. Melhor sorte não teve a esferográfica preta que estrebuchava com metade de seu acrílico afundado. Naquele vexame todo, deixaram a verdinha por último. Afinal, era a única aparentemente sem ferimentos e consciente. Embora imóvel, acompanhava os trabalhos dos para-médicos com atenção vegetal. Quando as demais vítimas já haviam sido socorridas, a verde gritou: “Papel! Papel!”. Respirou fundo e, entupida, desmaiou.
Naquela fatídica noite, quem não conhecia lápis não escreveu. E o dia amanheceu em branco.