sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Lixo acumulado

(Foto Arte Roa)
Subiu no coreto da praça numa seca manhã, abriu os braços e anunciou:
- O fim está próximo! Para você, para você e para você aí também que bebe inocentemente sua água de coco. Os dias estão contados para estas árvores centenárias e seus pombos cagadores. E não pense que esse cachorro de cara achatada e olhos esbugalhados terá salvação. Todos, todos morrerão quando o céu se abrir em fogo e soltar o hálito da besta nas nossas ventas!
Foi juntando gente. Seu Milito da banca comentou com seus jornais: O Zé das Tintas pirou de vez. Muita cachaça ou chifre; só pode.
- E quem duvidar há de boiar nas caixas de gordura do belzebu com a cabeça raspada com gilete enferrujada!
- Sai daí maluco! Gritaram da arquibancada.
- Quem ousa retrucar a palavra sagrada há de ser o primeiro a conhecer o breu eterno.
Lá pela quarta fileira da plateia um passante estica o pescoço:
- O que foi? É briga ou maluco?
- Maluco. É o Zé das Tintas. Tem três meses que não consegue um rodapé para pintar. Passou o Natal, assim juntinho do Ano Novo, sem um puto no bolso, aí veio esse calorão todo e deu nisso aí que você está vendo, fritou o pouco juízo que o homem tinha.
- Gente... Coitado... Vamos chamar o Corpo de Bombeiros...
- Pra quê? Ele só está anunciando o fim do mundo, não mordendo o povo na praça. Bombeiro não liga sirene para apagar viagem de maluco.
- É mesmo, né? Olha só, até que o Zé fala bem, viu? Se a gente pensar direitinho está tudo pela hora da morte. Vai que ele teve uma daquelas visões escabrosas, tipo Nosferatu.
- Nosferatu ou Nostradamus?
- Pode ser esse também. Veja bem: O mundo está maluco, se acabando em água, gelo, calor e frio. O povo anda zumbizado e ninguém fala mais no Raul Seixas.
- O que Raul Seixas tem a ver com isso?
- Lembra daquela música dele que fala em preferir ser uma ameba ambulante...
-  Metamorfose ambulante do que ter aquela opinião formada sobre tudo.
- Isso! Pois é. Agora cabeleireiro condena cálculo estrutural de obra pública, dona de casa escreve resenha teatral destruindo trabalho de anos. Cartomante passa remédio, advogado virou psicólogo. Estão até dizendo que este ano o Campeonato Brasileiro vai ser disputado direto no STJD.
- O mundo está perdido mesmo.
- Fodido. É gente deprimida pichando estátua de poeta, cracudo esfaqueando ciclista, marombeiro modernizando o pelourinho com trava de moto...
- E aquele povo do mal adotando gato preto para sacrificar na encruzilhada?
- Credo.
- E as armas químicas na Síria? E o esgoto na praia de Botafogo? E o Obama ouvindo meus papos com a Tereza da farmácia?
- Coisa de louco. E as redes sociais? Até agora só arranjei encrenca e amigo virtual esquisito.
- É isso aí, Zé!
- Apoiado Zé! Bora acelerar esse fim de mundo para depois do Carnaval. Aproveitar o lixo acumulado.

- Zé! Zé! Zé!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Pequenas animalidades do cotidiano

(Foto Sammy Angeli)

         Calor do cão. Clássico no Maracanã lotado, recém-reformado, telão, cadeiras fofas, papel higiênico nos banheiros, luzes escalafobéticas, padrão FIFA mesmo.  O campo ali esfregando no nariz do torcedor a grama suada. Sensação de primeiro mundo.  Vira-lata orgulhoso.
         O juiz apita o começo da apoteose. Uhú! Todo mundo levanta, faz marola, punheta bandeiras, canta hino e quica. Coisa de louco. Eis que chegam os personagens onipresentes nos clássicos: a valente polícia carioca. Formam um paredão bem na frente da arquibancada tomando toda a paisagem sagrada. A galera estica pescoço se balançando tal boneco do posto para ver o gramado. E a PM lá mantendo a formação de reticências emparedando o espetáculo.  Ninguém ousa reclamar.
         Ocorre que Samuel, nascido no Rio Grande, criado pescando no rio Taquari, adolescente forjado nas peripécias de Minas Gerais, viajado por todos esses cafundós do Brasil, com mais de vinte anos de carioquice, achou por bem dialogar com a autoridade.
         - Aí, Comandante, por favor, dá pra dá uma licencinha aí pra gente ver o campo?
Não prestou não.
O “Comandante” veio caminhando em câmera lenta na direção de Samuel que continuava feliz da vida curtindo o momento acompanhado do filho. Quando percebeu o “Comandante” já estava respirando na sua cara. Antes que Samuel esboçasse qualquer simpatia peculiar à sua natureza recebeu logo os cumprimentos tão marcantes nessa classe de trabalhadores:
- Olha pra mim Seu filho-da-puta! Tá querendo tirar onda com a minha cara, Seu Merda? Vou te encher de porrada, viadinho escroto. Quer me tirar daqui? Vem me tirar daqui! Tenta, vai, tenta que eu quero ver. Vai apanhar tanto que vai chorar pelo rabo. Que foi? Que foi? Perdeu a coragem? Desistiu de morrer hoje? Bostinhas como você eu esmago como aquecimento depois do café da manhã. Entendeu ou vou ter que desenhar nos teus cornos?
O sangue subiu até as sobrancelhas de Samuel. O filho, carioca acostumado a levar dura da polícia nas noites da Lapa, colocou lentamente a mão espalmada sobre o peito do pai. Samuel sentiu os cinco dedos do filho segurando o seu coração. Olhou melhor a figura suada fincada na paisagem. Mão na arma, uniforme gasto apertando uma barriga fenomenal, botas opacas, olhar vazio, boca mole, alma dura. Sabe-se lá que filme ruim esse cara passou na vida. Sorriu por dentro com o pensamento. Sentiu a mão do filho o arrastando e falou com a sensação de ouvir um ventríloquo:
- Sim, Senhor.
Partiram para o outro lado do estádio.  Com o fel ainda diluindo nas veias Samuel comentou com o filho em tom casual:
- Cara estressado, né?
- Ôô...