terça-feira, 18 de outubro de 2016

Hibisco para todos

No último desafio do Entre Contos, com o tema "Retrô cemitérios", fiquei em 7º lugar com a singela visão de um menino muito engajado em suas teorias sobre vida e morte. Assim como meu filho Ian C Angeli na mais tenra idade, Jonas é capaz de emendar um raciocínio no outro sem perder a ternura jamais. 
Todos os contos possuem comentários que foram feitos sem ninguém saber a autoria, usamos pseudônimos até o resultado; o que dá lastro ao desafio. 
Não deixem de conferir os contos dos outros autores, principalmente o campeão "Mea Culpa" de Daniel Reis e "Belinha" de Anderson Henrique.
Com vocês, 

"Hibisco para todos":

Hibisco para todos

Há anos adquiri o hábito de passear nas alamedas do cemitério depois do almoço, lendo as lápides, imaginando a vida daquelas pessoas e sempre terminando meu passeio no túmulo 1672, quadra 9, lar definitivo de minha esposa, que pediu que eu  plantasse um pé de hibisco amarelo, hoje uma frondosa árvore florida. Sento na sombra e conversamos um pouco, conto como foi meu dia, como estão os nossos, e volto para casa.

Dia desses observei um menino, de uns sete ou oito anos vestindo uniforme escolar colher uma flor de minha árvore, a única do cemitério. Achei um gesto bonito. Ontem a cena se repetiu e notei que a árvore estava quase pelada de flores em plena primavera. Na terceira vez que o vi, intrigado, segui a criança para conhecer a quem ele visitava e presenteava diariamente à custa de meu hibisco. Qual não foi minha surpresa ao percebê-lo conversando animadamente, a cada dia, com um túmulo diferente. Devagar me aproximei, mas antes de emitir qualquer palavra, o menino me fulminou com um sorriso:

-   Olá, senhor da árvore amarela. Tudo bem?
-   Você me conhece?
-   Caixa 1672, quadra 9, Estela é a sua mãe?
-   Não, era a minha esposa. Meu nome é Evandro. E o seu?
-   Jonas. Procuro meu pai. Acho que ele gosta de flores amarelas.
-   Percebi. Mas você visita vários túmulos...
-   É que eu não sei onde ele mora. Minha certidão de nascimento não tem o nome de meu pai. Fiquei sabendo um dia desses quando a professora mandou fazer uma redação sobre o dia dos pais. Minha mãe disse que eu não tinha pai. É claro que não acreditei, onde já se viu filho sem pai? Minha prima acha que sou filho de chocadeira, sei que é mentira dela porque minha mãe não é uma galinha e nem eu sou um ovo. Toda vez que o almoço tá pronto, a vizinha chega bem na hora. Minha vó sempre diz “quem é vivo sempre aparece”, e como meu pai nunca aparece, então ele está morto. Não é?
-   Não sei. Talvez não dessa forma.
-   De quantas formas pode se estar morto? Acho muito chato esse negócio de estar morto, então perguntei para a professora porque as pessoas morrem. Ela respondeu que é hereditário. Deve ser a doença que dá em todo mundo. No meu pai deve ter sido um hereditário muito forte porque não deu tempo de eu conhecer. Acho que ninguém conhece meu pai lá na minha rua, então ele deve ficar muito sozinho, lá no céu, sentado nas nuvens olhando para ver se eu estou me comportando direito. A primeira vez que vim aqui foi com a minha vó para eu conhecer o meu vô. Tinha uma foto na casinha e ele era branco com o cabelo preto. Minha vó é preta com o cabelo branco. Lá em casa todo mundo é preto. Não sei a quem meu avô puxou. Deve ser porque antigamente todo mundo era preto e branco ou branco e preto. Todo mundo era parado, não se mexia como a gente de hoje. Gostei muito daquela casinha. Quando o hereditário me pegar vou querer a minha casinha redonda como o casco do Leonardo, que é a tartaruga ninja que usa a máscara azul. Aí eu vou poder encontrar o meu pai, mas antes eu tenho que encontrar a casinha dele, né?

-   Faz sentido. Estou vendo que você gosta muito de flor, meu rapaz.
-   Eu não gosto de flor porque estou vivo. Depois que vi minha vó colocar flores para o meu vô sei que morto gosta de flor. No céu não deve nascer nada naquelas nuvens.
-   Mas você não precisa colocar flor todos os dias se não as flores se acabam aqui igual nas nuvens.
-   Não tinha pensado nisso, talvez seja melhor só conversar mesmo.
-   Também acho. E com esse aqui você já conversou?
-   Já, mas acho difícil ser o meu pai. Não percebeu que ele nasceu depois de mim?
-   Distração minha, me desculpe. Em que ano mesmo você nasceu, Jonas?
-   2007. E você, Seu Evandro?
-   1807, mas isso é outra história.
-   O senhor está muito bem para a idade.
-


   Bondade sua. Olha esta casinha aqui. A foto é de um homem muito distinto. Vamos perguntar se é o seu pai?




         

O gato, o pinguim e um brinde.

Este conto participou do Desafio de
Terror Recanto das Letras (DTRL28). Não entendo de literatura de terror, sendo a técnica extremamente difícil para mim; mas prestigiei o desafio com um conto-crônica do cotidiano. Isto é, ao meu ver, o verdadeiro terror:
O gato, o pinguim e um brinde.
         Por mais bêbado que Onofre se esforce, não tem como não ver e odiar a plaquinha ridícula pendurada na porta: “Lar doce lar”. Prometera aos próprios colhões um dia matar Zelda com essa placa. Bater tanto naquela cabeça oca até explodir como um ovo no micro-ondas. Já estava até vendo o sangue respingando nas cortinas floridas, no tapete sempre branco e no maldito pinguim, todo dia o encarando quando abre a geladeira. Pensou o quanto aquele bibelô encaixaria como uma luva na goela do gato de nome escroto: Feliz. Riu com a ideia da cena, arrancou a placa e socou a porta.  
 Quero mijar, porra! Porta filha da puta cheia de tranca, como se nesta merda tivesse algo de valor. Acorda bruxa preguiçosa! – gritou, com a urina escorrendo entre as pernas enquanto a porta se abre.
-   Até que enfim, amor. Eu estava tão preocupada. As crianças não aguentaram e foram dormir.
-   Puta que pariu, parece uma assombração no escuro.
-    Comeu alguma coisa, Onofre? Preparei o jantar. Tá no forno. Quer que esquente?
-   Pode dar essa merda pro gato. Tô sem fome, me deixa em paz. Vai ver a porra da tua novela.
-   São duas horas da madrugada, Onofre. Você bebeu muito, vem cá, vamos tomar um banho e dormir.
-   Foda-se se eu bebi, cheirei ou comi uma gostosa na rua. Você não tem nada a ver com isso.
-   Não, claro que não, é que a tua calça...
-   Então vai se foder, bruxa velha.
-   Quer uma cerveja?
         Zelda entrega o copo gelado servido com espuma e sorri:
-    Na pressão, do jeito que você gosta.
         Onofre vira de um gole. Faz uma careta e joga o copo no gato que dorme em cima da geladeira. Feliz escapa a tempo, o pinguim não, se esfarelando na parede.
-   Que merda de cerveja é essa? Esta bosta tá choca.
-   É uma cerveja especial belga.
-   E eu sou homem de tomar cerveja de bichona?
-   Achei que você...
-   Cala a boca ou te encho de porrada. Já esqueceu de ontem? Mulher feia tem memória curta, tem que apanhar todo dia.
-   Não aguento mais isso. Se você me bater mais uma vez eu chamo a polícia.
-   Agora a gorda virou feminazi? Não tem o que fazer? É o que dá ficar fofocando na internet o dia todo. Tá chorando por quê? O que te falta nesta casa? Tem tudo do bom e do melhor. Já sei: arranjou um namoradinho virtual, né? Pede desculpas,  vem pagar um boquetinho aqui no papai,  ou corto a internet e a tua língua.
-   Faço tudo para te agradar. Não mereço ser tratada como lixo.
-   E você acha que é o quê? Eu sei o que você quer.
-   Sai daqui, não quero mais você nesta casa!
-   Vem cá, minha vaca.
-   Me larga, se não eu grito.
-   Vou comer esse rabo gordo e gozar na tua boca fedida.
-   Não, tá me machucando, para!
-   Não grita para não acordar as crianças. Ou você quer as meninas na nossa festinha?
-   Ah...
Onofre pendura a placa no pescoço de Zelda, rasga o vestido e arranca a calcinha. Enfia a cara da mulher na pia e a penetra com a secura de uma pedra-ume. Depois de três estocadas, broxa. Segura a mulher pelos cabelos, abre a torneira e tenta afoga-la. Ela não luta.
-   Filha da puta! Agora você vai ficar molhadinha.
         Ele acerta um, dois, três socos na cara de Zelda, que cai no chão trincando os dentes sem reagir. Ele enfia o pau mole na boca sangrando enquanto movimenta a cabeça da mulher com as duas mão. Sem conseguir a ereção, pega o rolo de massa e o pilão de tempero e enfia na mulher. Ela tapa a própria boca para não gritar e se encolhe no chão. Ele chuta seu corpo até que as pernas dele fiquem bambas.  Vomita sobre ela, desliza pelos azulejos da cozinha e apaga.
         Zelda está nua no chão. Com um gemido retira o rolo de massa de dentro da vagina e o pilão de pedra do ânus. O sangue quente escorre pelo piso até o rosto de Onofre roncando. Ainda com a placa “Lar Doce Lar” balançando no pescoço, rasteja de quatro até o marido, limpa cuidadosamente o vômito do rosto dele e levanta-lhe a calça arriada.
         Chora em baixo do chuveiro. Ali fica até a água passar de rubra para límpida. Enxuga o corpo lentamente com uma toalha macia e cheirosa. Passa hidratante no corpo, seca os cabelos, perfuma as orelhas e o decote, veste-se de festa dos olhos aos pés.
         Com movimentos delicados aquece o jantar. Enquanto a água do café ferve, põe a mesa com a melhor toalha e guardanapos de linho. Cantarola uma canção antiga, de algum baile dançado há muito tempo. Verifica cuidadosamente se a porcelana e os talheres estão bem arrumados. Abre o vinho, um roble Malbec de Mendoza, passaram a lua de mel naquele frio lunar. Beberam, comeram, passearam e se amaram muito. Bons tempos. Onofre não tinha essa barriga dura de grávida nem a cara vermelha de cachaça. Suspira servindo as duas taças. Observa o marido com um leve sorriso. Mexe em seu nariz e nas orelhas. Resolve trocar suas calças urinadas e a camisa respingada de sangue. Escolhe uma gravata azul-celeste combinando com seu vestido. Veste-lhe o paletó com esmero. Penteia os ralos cabelos do marido e enxuga a baba escorrendo da boca aberta. Arrasta o homem desacordado e o senta na cadeira da mesa de jantar.  Ele dorme profundamente com o rosto deitado sobre a mesa. Ela analisa a cara mole por alguns segundos e dá-lhe um leve tapa no rosto, depois mais outro um pouco mais forte. Levanta a cabeça do homem pelas orelhas e solta. O rosto bate na mesa com um som oco, mas ele não acorda.
         No armário da cozinha Zelda pega um funil de aço inox e encaixa. Despeja a água fervente, que entra pelo ouvido e escorre pelo rosto do homem. Ele acorda aos gritos com o rosto ardendo, desfigurado por bolhas e carne viva. Agarra o braço com que a mulher segura a panela, mas ela não se desvencilha, apenas emborca o bico da chaleira em direção à boca de Onofre. Ele fecha os olhos com um engasgo e cai, treme envergando o corpo para trás até formar um arco estático.  Zelda abre os olhos do corpo e o amarra sentado na cadeira.  
         Eleva a taça e brinda com a outra sobre a mesa. Apenas o gato ouve um sussurro:
-   Gostou da festa, amor? Feliz aniversário.
***


DTRL28: Temas: Tortura e traição