sexta-feira, 16 de abril de 2010

Neura seriada



- O senhor confirma a compra no valor de U$ 3.500,00 na loja Sexy Shop Baby em Nova Iorque?

- Não! Não confirmo! Eu já falei que não fui eu! Nem passaporte eu tenho e minhas milhas não dão direito a tele-transporte.

- Estaremos estornando o valor na próxima fatura.

- E os juros também porque eu não vou pagar essa conta.

- Sim, senhor. Por favor, anote o número do protocolo.

Nossa, que dia! Quem será agora?

- Aaaalô!

- Por que você me mandou este e.mail?

- Como?

- Eu não gosto desse negócio de pornografia infantil. Você está doido ou se fazendo? Ainda por cima para o email do meu trabalho. Tarado! Idiota!

- O que é isso Pedro? Está me estranhando? Eu não te mandei nada e muito menos...

- Olha, eu não quero nem saber. Tire meu nome de sua lista e não me ligue mais ou eu te denuncio.

- Espera um pouco. Não fui eu. Eu jamais...

Pipipipi...

Essa agora. Clonaram meu email também. Vou cancelar essa porcaria agora mesmo. Senha não confere? Caramba! Vou à polícia logo.

- Quero registrar uma queixa: Clonaram meus cartões de crédito e estão usando o meu email para divulgar pornografia infantil.

- O senhor é casado? Tem namorada?

- Não, não.

- O senhor teria emprestado os cartões para algum amigo íntimo?

- Não. E eu não sou gay.

- O senhor sofreu abuso sexual na infância?

- Não! Claro que não! Eu fui roubado! Provavelmente na internet. Sei lá.

- O senhor não se lembra. Então bebe ou usa drogas?

- Drogas? Não. Às vezes bebo.

- Entendi. O senhor deu os cartões e senhas quando estava bêbado.

- Não! Caro inspetor, eu só quero fazer o B.O. Aqui está minha carteira de motorista.

- Senhor, aqui consta que o senhor se envolveu em um acidente hoje pela manhã.

- Impossível. Passei a manhã no telefone bloqueando cartões. O carro ficou na garagem e está lá até agora. Que acidente?

- O seu veículo bateu em um poste na Avenida das Américas e foi abandonado no local.

- Menos mal. Eu tenho seguro.

- Mas tinha dois meninos estrangulados na mala do carro.

- O quê? Roubaram o meu carro para uma desova?

- Aha... O senhor trabalha numa loja de brinquedos...

- Sim. Sou o gerente.

- O senhor parece nervoso...

- Nervoso? Eu estou tremendo! Não é todo dia que jogam crianças mortas no meu carro!

- O senhor quer um copo de água?

- Por favor. Obrigada. Ei? Por que você está guardando o copo que usei nesse saco plástico?

- DNA. O senhor está preso para averiguações. Tudo que disser poderá...

Acordou coberto de suor na fria madrugada de maio. Catou o controle remoto entre as cobertas e, antes de desligar a TV, teve uma sensação de estranha: o seriado que dormira assistindo às 22 horas reprisava na madrugada exatamente no ponto em que dormiu.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O barraco de Seu Antenor



Entra ano e sai ano o pessoal da comunidade vê o barraco do Seu Antenor se equilibrando no cocuruto de uma pedra no alto do morro cercado de bananeira. Embora considerado o morador inaugural da área, ao contrário dos demais, o velho não conseguiu botar tijolo e bater lage na residência. Foi remendando aqui e ali com chapa de metal, madeira e estuque aonde as goteiras iam mandando. Cinquenta anos se passaram sem que os temporais se dessem conta da absurda engenharia do barraco de Seu Antenor.

Este ano seria diferente. As águas caíram sem dó sobre as casas da comunidade. Rios de lama formavam cascatas entre as vielas. Os próprios moradores chamaram a Defesa Civil para convencerem o velho a sair do barraco. Era lógico que quando aquela pedra rolasse o barraco levaria consigo uma dezena de casas abaixo. Na cidade já havia diversos desmoronamentos e as autoridades, com a agenda lotadíssima, trataram de condenar a casa e partir para outras localidades. Todas as demais casas já estavam desocupadas, mesmo assim Seu Antenor não arredou pé. De seu lar, onde criou os filhos e foi muito feliz, não sairia nem morto; preferia ser enterrado naquele solo que tanto lhe deu. Quando a chuva apertou, a vizinhança amontoada na estrada ouviu um grande estrondo e assistiu horrorizada a avalanche de terra descer o morro.

Lá no alto apareceu um buraco imenso sob a pedra saliente que, feito um dente cravado na carne, mordia a terra num último gesto de desespero. Na frente do barraco via-se Seu Antenor gargalhando com os braços abertos para o céu que fuzilava seu corpo com rajadas de vento e agulhadas de chuva.

Ajoelhou-se e rezou.