terça-feira, 20 de junho de 2017

Foi nada, seu juiz!


-- Mô? Viu que é bandeirinha mulher? A gente não tem sorte com mulher na arbitragem. Sei que você pode pensar que é machismo, não é não, é estatística. Silêncio no tribunal! Começou.  Até que enfim um técnico ousado partindo pro ataque. Vamutrucidááá!  Chuviscando no gramado, esse tapete esburacado vai virar um sabão. Tomara que aqui não chova forte, se não a gente perde o sinal da tevê. O Pitomba pegou a bola. Corre! Passa! Ladrão! Ladrão! Pronto perdeu. Correr atrás do ônibus pra tentar a peneira você sabia, agora que tá sentado na grana fica de frescuragem.  Recupera, isso! Mô, tá vendo o babaca se achando mágico? Não dribla, cara, me ouve que tu não é Garrincha, passa essa bola. Assim não que estoura a virilha e desfalca o time. Não, não, não, por aí não. Ai, já que tá aí entra logo na área que não é areia movediça. Rápido, porca miséria! Não vai dar.  Vai, se joga na área que tu não tem perna pra isso. Isso! Cai, estrebucha, treme, chora, peste, que o juiz tá olhando! Penalti, seu juiz! Machado covarde no joelho!  Hurrrúúú! Bota o Micro Craque pra bater. Agora não tem pra ninguém. Concentra e mete um torpedo que o goleiro tem mão de alface. Caraio, Micro Craque,  tá mandando bola pra mãe na arquibancada? Assim não dá, não se pode nem elogiar que o cara vai lá e faz uma bosta dessa, né Mô?  Bora lá, bora lá, desanima não ganhando de zero a zero. Bora recuperar essa bola. Assim não, olha o meia fungando no teu cangote. Pronto, roubou. Eu avisei, não avisei,  Mô? Então. Não deixa ele lançar. Quebra ele! Puts, que canelada, pegou muito mal. Foi nada, seu juiz, manda levantar que esse sangue é massa de tomate.  Cartão amarelo? Tomanocú, nem encostou no cara, a Cinderela tá caindo de madura. Tudo bem, segura a onda, não reclama do amarelo que podia ser pior. Putaquipariu, dedo na cara do juiz vai dar merda. Xinga mais pra ser expulso, ferra logo com o jogo todo pra eu queimar esta camisa com teu nome. Não falei? Vai pro chuveiro mais cedo. Bate uma lá com a única cabeça que você pensa, idiota. Vai perder e cair pra segundona. Então vamu lá com dez na garra! Tô ouvindo o grito da galera do delei. Vai, vai, por aí não, agora, isso, vai garoto, passa, passa, chuta, chuta, porraaaaa,  gol, gol, gooool! Vêm ver o riplei, Mô! Go-go-go-laaaaço! Como assim impedido? Não falei que a gente sempre se fode com mulher bandeirinha? Piranha. Absurdo, absurdo.  Pô, a gente já tá no desfalque e ainda tem de enfrentar mais o trio de arbitragem, é sacanagem. Tem que prender esse juiz com a cueca cheia de verdinha. Nada é fácil pra gente, né Mô? Olha lá, que é isso? Não deixa passar zagueirão, dá uma cusparada na cara, pescoçada, quebra, quebra! Merda. Não falei? Não fez levou. Agora terminar o primeiro tempo perdendo, são quinze minutos de zoação.  Também com esse técnico de merda. Era pra mexer no meio de campo e fortalecer a zaga. Eu falo, mas ninguém me ouve e insiste em botar atacante vesgo.

Bora lá correr atrás do prejuízo. Vamú virá! Que é isso? Tomaram chá de camomila no vestiário? Reação, reação! Por aí, passa pro Palito, cruza pra direita que o cara tá sozinho implorando. Esquerda, esquerda, pro Babá não que tá jogando machucado. Não chuta, isso cruza, chuta, não, não chuta, isso, chuta é gol, gol, gooool!!! Cadê a bandeirinha piranha? Tá do outro lado do campo, ah, bom, é golgolgol golaço! Não falei? Não falei? O Babá é gênio. Borá virá! Faltam cinco minutos, cabe mais um. Arruma, arruma. Assim, bonito. Vão ficar encerando o meio do campo? Assim não dá, olha o relógio, porra! O juiz comprado só deu três de acréscimo. Seria no mínimo dez com aquela cena da bailarina com canela de vidro. Puts, só bola nas costas. Apontou o centro do campo. O empate é uma realidade estratégica, lá na frente recupera. Também roubando até eu empatava essa merda.  Né Mô?

-- Falou comigo, Zé?


-- Na-não, nada não. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A Aposentada Secreta

Voltando com minha coluna semanal no Crônicas Cariocas: http://cronicascariocas.com/cronicas/a-aposentada-secreta/



Dona Lourdes aprendeu a segurar o dedal e enfiar a linha na agulha antes mesmo de  ler e escrever no pré-escolar. Ajudava a mãe na costura e herdou o ofício com gosto. Sabia que os panos seriam seus companheiros para o resto da vida. Sempre foi autônoma e recolhia a contribuição para o INSS regularmente há 32 anos, sem nunca ter tirado uma licença. Não tinha pressa de se aposentar, mas assistindo na TV o Presidente da República anunciando o pacote de maldades da previdência achou por bem dar entrada nos papéis, antes que a direção do vento mudasse.
Não comentou com ninguém, isso é coisa pessoal, não havia de sair por aí batendo nos peitos “Me aposentei! Tô rica!”. Deus a livre. Nunca foi de falar dos outros, quanto mais da própria vida. A conversa com a máquina de costura lhe bastava.
No dia em que entrou o primeiro crédito na conta, Lourdinha respirou aliviada. Agora poderia pegar menos encomendas e descansar um pouco a coluna e a vista. Às oito e quinze da manhã o telefone tocou:
¾     Bom dia! Eu falo com a Sra. Maria de Lourdes de Azevedo Santos?
¾     Quem deseja?
¾     É a Sra. Maria de Lourdes?
¾     É, é. Quem fala?
¾     Meu nome é Valquíria. Parabéns, Dona Lourdes pela aposentadoria!
¾     De onde está falando?
¾     Aqui é do Banco Abacate S/A. Ficamos sabendo que a senhora recebeu hoje o seu primeiro crédito de aposentadoria no valor de R$ 1.434,25, benefício nº 143.962.027.883.265. Estamos entrando em contato para informar que...
¾     Qual é mesmo o seu nome, minha filha?
¾     Valéria.
¾     Não era Valmira? Não, Verônica? Deixa pra lá, tanto faz. Eu quero saber onde, como e porque você tem meu nome, telefone e todas as informações da minha aposentadoria.
¾     São os dados cadastrais do Banco, Dona Lourdinha. Olha, nós temos aqui vinte mil reais disponíveis para a senhora hoje mesmo. É só falar “SIM”!
¾     Eu nunca tive conta no Banco Abacate, minha conta é no Banco Tomate. E você ainda não me falou onde, pelo amor de Deus, pegou meus dados que eu não sou mulher de andar por aí na boca de qualquer uma.
¾     Ah, Lourdinha, vai se prender a detalhes quando pode botar a mão numa grana preta?
¾     Como assim? Com quem você acha que está falando? Não lhe dei liberdade, sua mal educada.  Nunca mais ligue para minha casa ou eu chamo a polícia.
¾     Mas, Lulu, vai perder a oportunidade da sua vida...
¾     Tenha um bom dia, menina.
A senhora tremia como se alguém tivesse arrombado sua casa e a encontrasse pelada fazendo alongamento.  Respirou fundo e tentou voltar para sua costura, mas o telefone não parava de tocar. Era fixo e celular o dia inteiro. Banco Alecrim, Financeira BerinJela, email de pessoas e lugares desconhecidos, caixa de correspondência lotada de cartas oferecendo todo tipo de empréstimo consignado e academia para a terceira idade. Os porteiros e vizinhos já a cumprimentavam pela aposentadoria. A síndica do prédio, que nunca lhe dirigiu a palavra, indicou uma sobrinha que trabalha numa agência de viagem. O porteiro deu dica da ótica com desconto para aposentados e na padaria, que frequenta há vinte anos, deram-lhe um cartão fidelidade. Uma cuidadora bateu na sua porta por indicação do italiano da banca. Vinha gente querendo vender de liquidificador a terreno na praia.
Dona Lourdes passou a alternar as noites entre a insônia e os pesadelos de telefones tocando dentro de sua barriga. Em pouco tempo uma gastrite lhe tirou totalmente o gosto pela comida e as energias foram junto. Passou a não atender mais a porta,  desligou o celular e tirou o fixo do gancho, logo não recebia mais visitas e nem ligações indesejadas; mas também não recebia clientes. Foi amolecendo em frente à televisão e encostando a máquina de costura.
        Quando a vida já ameaçava visitá-la apenas como uma névoa distante, Dona Lourdes despertou da letargia, pegou o telefone e ligou para o INSS:
¾     Moça, o que eu preciso fazer para me desaposentar?