A Aposentada Secreta
Voltando com minha coluna semanal no Crônicas Cariocas: http://cronicascariocas.com/cronicas/a-aposentada-secreta/
Dona Lourdes
aprendeu a segurar o dedal e enfiar a linha na agulha antes mesmo de ler e escrever no pré-escolar. Ajudava a mãe
na costura e herdou o ofício com gosto. Sabia que os panos seriam seus
companheiros para o resto da vida. Sempre foi autônoma e recolhia a
contribuição para o INSS regularmente há 32 anos, sem nunca ter tirado uma
licença. Não tinha pressa de se aposentar, mas assistindo na TV o Presidente da
República anunciando o pacote de maldades da previdência achou por bem dar
entrada nos papéis, antes que a direção do vento mudasse.
Não comentou
com ninguém, isso é coisa pessoal, não havia de sair por aí batendo nos peitos
“Me aposentei! Tô rica!”. Deus a livre. Nunca foi de falar dos outros, quanto
mais da própria vida. A conversa com a máquina de costura lhe bastava.
No dia em que
entrou o primeiro crédito na conta, Lourdinha respirou aliviada. Agora poderia
pegar menos encomendas e descansar um pouco a coluna e a vista. Às oito e
quinze da manhã o telefone tocou:
¾
Bom dia! Eu falo com a Sra. Maria de Lourdes de
Azevedo Santos?
¾
Quem deseja?
¾
É a Sra. Maria de Lourdes?
¾
É, é. Quem fala?
¾
Meu nome é Valquíria. Parabéns, Dona Lourdes
pela aposentadoria!
¾
De onde está falando?
¾
Aqui é do Banco Abacate S/A. Ficamos sabendo que
a senhora recebeu hoje o seu primeiro crédito de aposentadoria no valor de R$
1.434,25, benefício nº 143.962.027.883.265. Estamos entrando em contato para
informar que...
¾
Qual é mesmo o seu nome, minha filha?
¾
Valéria.
¾
Não era Valmira? Não, Verônica? Deixa pra lá,
tanto faz. Eu quero saber onde, como e porque você tem meu nome, telefone e
todas as informações da minha aposentadoria.
¾
São os dados cadastrais do Banco, Dona
Lourdinha. Olha, nós temos aqui vinte mil reais disponíveis para a senhora hoje
mesmo. É só falar “SIM”!
¾
Eu nunca tive conta no Banco Abacate, minha
conta é no Banco Tomate. E você ainda não me falou onde, pelo amor de Deus,
pegou meus dados que eu não sou mulher de andar por aí na boca de qualquer uma.
¾
Ah, Lourdinha, vai se prender a detalhes quando
pode botar a mão numa grana preta?
¾
Como assim? Com quem você acha que está falando?
Não lhe dei liberdade, sua mal educada. Nunca mais ligue para minha casa ou eu chamo a
polícia.
¾
Mas, Lulu, vai perder a oportunidade da sua vida...
¾
Tenha um bom dia, menina.
A senhora
tremia como se alguém tivesse arrombado sua casa e a encontrasse pelada fazendo
alongamento. Respirou fundo e tentou
voltar para sua costura, mas o telefone não parava de tocar. Era fixo e celular
o dia inteiro. Banco Alecrim, Financeira BerinJela, email de pessoas e lugares
desconhecidos, caixa de correspondência lotada de cartas oferecendo todo tipo
de empréstimo consignado e academia para a terceira idade. Os porteiros e
vizinhos já a cumprimentavam pela aposentadoria. A síndica do prédio, que nunca
lhe dirigiu a palavra, indicou uma sobrinha que trabalha numa agência de viagem.
O porteiro deu dica da ótica com desconto para aposentados e na padaria, que
frequenta há vinte anos, deram-lhe um cartão fidelidade. Uma cuidadora bateu na
sua porta por indicação do italiano da banca. Vinha gente querendo vender de
liquidificador a terreno na praia.
Dona Lourdes
passou a alternar as noites entre a insônia e os pesadelos de telefones tocando
dentro de sua barriga. Em pouco tempo uma gastrite lhe tirou totalmente o gosto
pela comida e as energias foram junto. Passou a não atender mais a porta, desligou o celular e tirou o fixo do gancho,
logo não recebia mais visitas e nem ligações indesejadas; mas também não
recebia clientes. Foi amolecendo em frente à televisão e encostando a máquina
de costura.
Quando a vida já ameaçava visitá-la
apenas como uma névoa distante, Dona Lourdes despertou da letargia, pegou o
telefone e ligou para o INSS:
¾
Moça, o que eu preciso fazer para me
desaposentar?
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