sexta-feira, 29 de julho de 2011

Promessa da noite


Cheguei bombado no baile. De cara a morena me deu mole passando lentamente a ponta da língua pelos dentes unidos protegidos por lábios acolchoados. Fui lá conferir. Era tudo verdade. Ofereci latinha, ela sorriu recusando, pegou a dela e virou de um gole só deixando escorrer pelo queixo, peito, umbigo. Respirou fundo e depositou a lata vazia na minha mão. Melhor assim, não tem custo, a noite promete, comentei em segredo com minha cueca. No batidão fui me animando e me aninhando na dança da preparada. Suor no vapor, o funk bombando, a morena ondulando e eu cercando prá nenhum outro maluco se chegar.

Um beijo no cangote, mão na cintura descendo sentindo a minha paciência colhendo o prêmio. É chegada a hora do pega. Ah moleque! Puxei pela mão prum canto. Agora o menino cresce! Ela escorregou de mim e voltou para o salão saltitando, me chamando, me tinindo. Caraio, essa menina vai me fazer pular a noite inteira antes de me dar. Resisti porque o investimento era de primeira, mas lá pelas tantas achei que ela tava me zoando. Eu ficando bêbado vendo ela rodar no salão e, enfim, entreguei as armas numa cadeira de canto.

Não deu um minuto para aparecer outro Mané oferecendo latinha de cerveja para ela recusar pulando e agachando e rebolando e depois mais outro e mais outro e mais outro até o dia clarear.

Na saída do baile ainda pude identificar a morena livre e feliz voltando sozinha pelo beco com as sandálias penduradas nos ombros...

Que mulher....

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A discreta Lucila


Lucila tem várias manias, a sua preferida é cutucar gente na rua para avisar que a etiqueta da roupa está aparecendo ou tem um fiapo de linha pendurado na manga do paletó. É tão dedicada à coisa que é capaz de saltar do ônibus antes de seu ponto por conta de uma blusa pelo avesso ou – pior – um zíper aberto. Sutiã com alça aparecendo, mancha de molho na barriga da camisa, cadarço de criança desamarrado, remela por baixo dos óculos, meia de bebê caindo, bolsa aberta, carteira saindo do bolso, brinco frouxo, batom borrado no dente, nada, absolutamente nada, escapa de seu olhar aristotélico.

Cônscia de estar prestando serviço humanitário de alta relevância encara as pessoas na rua dando aquela escaneada de cima em baixo procurando um defeito. Quando não encontra fica frustrada e só sossega depois de cutucar alguém.

A reação das vítimas é um prazer à parte para Lucila. A maioria fica com vergonha, agradece e sai de perto de fininho.

Hoje foi diferente. Estava Lucila no metrô lotado investigando os passageiros arrumados para trabalhar quando surgiu um jovem de terno preto alinhado, gravata com nó perfeito, cabelo bem cortado, barba feita e só um sapato engraxado. O outro estava fosco de dar pena. Lucila se espremeu entre os passageiros para chegar até o rapaz. Com o coração acelerado e a boca cheia d’água cutucou com o dedo indicador. O rapaz olhou. Ela apontou o sapato sem graxa. Ele fez uma careta. Ela sorriu triunfante. Ele cuspiu no sapato e com o xale de tricô de Lucila deu uma bonita polida no sapato com um sorriso nefasto no canto da boca. Agradeceu e devolveu o xale.

Lucila resolveu acabar com essa mania boba.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Uma medalha para Botelho



Botelho trabalhou por quarenta anos como servidor público. Aposentado poderia dedicar-se ao ócio até o fim de seus dias. Todavia sua vocação para servir à cidade que ama fala mais alto e nosso herói dedica todos seus minutos ao exercício da cidadania. Fiscaliza poda de árvore, buraco em calçada, estacionamento irregular, poste sem lâmpada ou gastando energia. Possui em sua agenda telefônica contato com todos os órgãos públicos, ONGs, jornais e – dizem – até o celular do prefeito. Diariamente faz a ronda em seu bairro com uma máquina fotográfica e um caderninho de anotações. É tão conhecido na área que alguns infratores tratam de se corrigir antes de serem documentados em flagrante delito. Alguém grita “Lá vem Seu Botelho!” e é um tal de catar guimba de cigarro do chão, tirar a moto da calçada, recolher a muamba da esquina; uma correria só. Até os cachorros ficam com prisão de ventre só de olhar para ele.

Quando os bueiros da cidade criaram asas de fogo matando gente, verdadeiras minas terrestres plantadas pelo descaso administrativo, Botelho tomou para si a guerra contra os opressores de seu direito de ir e vir sem ser catapultado ao além. Distribuiu panfletos, fez abaixo assinado, pintou caveiras vermelhas nos bueiros, mandou carta para todos os jornais e órgão públicos sem que nada fosse feito.

Um dia desses de ronda matinal viu uma fumacinha fedida saindo do bueiro em frente ao seu prédio; que ousadia. Nervosíssimo ligou para o Corpo de Bombeiros, TV, rádio e postou-se sobre o bueiro disposto a ser um mártir da causa. Com um megafone fez o que seria posteriormente considerado o melhor discurso cidadão de todos os tempos.

Rua fechada, fuzuê do cacete, porteiros, idosos, turistas esticando os pescoços na ponta dos pés para não perder nenhuma cena. Não deu outra: a tampa do bueiro voou dez metros acima do solo revirando no ar como uma moeda gigante. A multidão convergiu para a tragédia com olhos estáticos e mãos sobre as bocas. Sob o tampo pousado no asfalto a cabeça de Botelho pacificada numa massa disforme. Um dos membros da platéia aproxima os olhos da tampa. A multidão ansiosa aguarda o resultado. Ele sorri e grita:

- Deu coroa! Deu coroa! Ganhei!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Caixa de fósforos


Desde que aprendeu a andar Nina olhava mais para o céu do que para o chão onde pisava. Não a toa vivia tropeçando e esbarrando nas coisas terrenas. Contava estrelas torcendo para não nascer verruga nas pontas dos dedos, apertando os olhos para ver detalhes de São Jorge matando o dragão na lua cheia.

Aos cinco anos amarrou uma toalha de mesa na gola do pijama e pulou de cima da geladeira com os braços e olhos bem abertos. Os dez pontos na testa não borraram seus sonhos alados, apenas trouxeram a sabedoria da necessidade de asas.

A primeira viagem de avião deixou-a grudada na janela. Nem o serviço de bordo conseguiu desviar sua atenção. O orvalho molhando o vidro já matava sua sede e as nuvens de algodão doce eram-lhe alimento suficiente.

Na adolescência escrevia poesia com o céu tomando-lhe o peito e os hormônios. Apaixonou-se e desapaixonou-se entre uma lua nova e uma minguante. Cansada de voar sem rumo conheceu o Homem-árvore e aquietou-se em terra firme por longo tempo.

Um dia sonhou que era um pássaro planando entre o mar e as montanhas do Rio de Janeiro. Acordou feliz e falante. O Homem-árvore entendeu e presenteou-a com um vôo de ultraleve.

À esquerda, à direita e acima a densidade azul rebatia no rosto o sol. As costas da floresta não deixavam Nina pensar direito. Manchas brancas no pé do planeta chamavam atenção. Apertou os olhos como se para a lua invertida e viu frágeis seixos quadrados aquecidos uns pelos outros. Enquanto o piloto arremetia em direção à Lagoa, Nina focou os prédios amontoados e teve a visão de caixas com quarenta e tantos fósforos arrumados uns sobre os outros. Lá dentro varetas com pólvora nas cabeças aguardavam a oportunidade de explodir.

O dia ficou mais claro e Nina teve a certeza: Nunca mais entraria numa caixa sem um plano de voo.