sexta-feira, 8 de julho de 2011

Uma medalha para Botelho



Botelho trabalhou por quarenta anos como servidor público. Aposentado poderia dedicar-se ao ócio até o fim de seus dias. Todavia sua vocação para servir à cidade que ama fala mais alto e nosso herói dedica todos seus minutos ao exercício da cidadania. Fiscaliza poda de árvore, buraco em calçada, estacionamento irregular, poste sem lâmpada ou gastando energia. Possui em sua agenda telefônica contato com todos os órgãos públicos, ONGs, jornais e – dizem – até o celular do prefeito. Diariamente faz a ronda em seu bairro com uma máquina fotográfica e um caderninho de anotações. É tão conhecido na área que alguns infratores tratam de se corrigir antes de serem documentados em flagrante delito. Alguém grita “Lá vem Seu Botelho!” e é um tal de catar guimba de cigarro do chão, tirar a moto da calçada, recolher a muamba da esquina; uma correria só. Até os cachorros ficam com prisão de ventre só de olhar para ele.

Quando os bueiros da cidade criaram asas de fogo matando gente, verdadeiras minas terrestres plantadas pelo descaso administrativo, Botelho tomou para si a guerra contra os opressores de seu direito de ir e vir sem ser catapultado ao além. Distribuiu panfletos, fez abaixo assinado, pintou caveiras vermelhas nos bueiros, mandou carta para todos os jornais e órgão públicos sem que nada fosse feito.

Um dia desses de ronda matinal viu uma fumacinha fedida saindo do bueiro em frente ao seu prédio; que ousadia. Nervosíssimo ligou para o Corpo de Bombeiros, TV, rádio e postou-se sobre o bueiro disposto a ser um mártir da causa. Com um megafone fez o que seria posteriormente considerado o melhor discurso cidadão de todos os tempos.

Rua fechada, fuzuê do cacete, porteiros, idosos, turistas esticando os pescoços na ponta dos pés para não perder nenhuma cena. Não deu outra: a tampa do bueiro voou dez metros acima do solo revirando no ar como uma moeda gigante. A multidão convergiu para a tragédia com olhos estáticos e mãos sobre as bocas. Sob o tampo pousado no asfalto a cabeça de Botelho pacificada numa massa disforme. Um dos membros da platéia aproxima os olhos da tampa. A multidão ansiosa aguarda o resultado. Ele sorri e grita:

- Deu coroa! Deu coroa! Ganhei!

4 comentários:

O Bolinho disse...

"Cara"!!!!

Maria de Deus Oliveira disse...

Cada um receb a medalha que sonnha, 15 minutos de fama! rsrsrs
Visite meu blog, voltei a ativa. Espero um comentário seu. Não são histórias adoravéis
porque meu estilo é outro, mas aguardo sua visita.
www.ecleticoemcultura.blogspot.com
Bjs!
DD

Ivo de Souza disse...

Gostei das duas imagens: a da moeda na crônica e a do novo visual do blog.

Abs

Ivânio Cunha disse...

Cata: Nessa "nova crônica" você está imbatível. Excelente!!!

Teu Ivânio