sexta-feira, 22 de julho de 2011

A discreta Lucila


Lucila tem várias manias, a sua preferida é cutucar gente na rua para avisar que a etiqueta da roupa está aparecendo ou tem um fiapo de linha pendurado na manga do paletó. É tão dedicada à coisa que é capaz de saltar do ônibus antes de seu ponto por conta de uma blusa pelo avesso ou – pior – um zíper aberto. Sutiã com alça aparecendo, mancha de molho na barriga da camisa, cadarço de criança desamarrado, remela por baixo dos óculos, meia de bebê caindo, bolsa aberta, carteira saindo do bolso, brinco frouxo, batom borrado no dente, nada, absolutamente nada, escapa de seu olhar aristotélico.

Cônscia de estar prestando serviço humanitário de alta relevância encara as pessoas na rua dando aquela escaneada de cima em baixo procurando um defeito. Quando não encontra fica frustrada e só sossega depois de cutucar alguém.

A reação das vítimas é um prazer à parte para Lucila. A maioria fica com vergonha, agradece e sai de perto de fininho.

Hoje foi diferente. Estava Lucila no metrô lotado investigando os passageiros arrumados para trabalhar quando surgiu um jovem de terno preto alinhado, gravata com nó perfeito, cabelo bem cortado, barba feita e só um sapato engraxado. O outro estava fosco de dar pena. Lucila se espremeu entre os passageiros para chegar até o rapaz. Com o coração acelerado e a boca cheia d’água cutucou com o dedo indicador. O rapaz olhou. Ela apontou o sapato sem graxa. Ele fez uma careta. Ela sorriu triunfante. Ele cuspiu no sapato e com o xale de tricô de Lucila deu uma bonita polida no sapato com um sorriso nefasto no canto da boca. Agradeceu e devolveu o xale.

Lucila resolveu acabar com essa mania boba.

Um comentário:

De Deus disse...

Amei Catarina!
Muito divertido. Só aviso aos meus amigos e se for um grande vexame.
Bem merecido o que o rapaz fêz com a Lucila.
Bjs!