sexta-feira, 1 de julho de 2011

Caixa de fósforos


Desde que aprendeu a andar Nina olhava mais para o céu do que para o chão onde pisava. Não a toa vivia tropeçando e esbarrando nas coisas terrenas. Contava estrelas torcendo para não nascer verruga nas pontas dos dedos, apertando os olhos para ver detalhes de São Jorge matando o dragão na lua cheia.

Aos cinco anos amarrou uma toalha de mesa na gola do pijama e pulou de cima da geladeira com os braços e olhos bem abertos. Os dez pontos na testa não borraram seus sonhos alados, apenas trouxeram a sabedoria da necessidade de asas.

A primeira viagem de avião deixou-a grudada na janela. Nem o serviço de bordo conseguiu desviar sua atenção. O orvalho molhando o vidro já matava sua sede e as nuvens de algodão doce eram-lhe alimento suficiente.

Na adolescência escrevia poesia com o céu tomando-lhe o peito e os hormônios. Apaixonou-se e desapaixonou-se entre uma lua nova e uma minguante. Cansada de voar sem rumo conheceu o Homem-árvore e aquietou-se em terra firme por longo tempo.

Um dia sonhou que era um pássaro planando entre o mar e as montanhas do Rio de Janeiro. Acordou feliz e falante. O Homem-árvore entendeu e presenteou-a com um vôo de ultraleve.

À esquerda, à direita e acima a densidade azul rebatia no rosto o sol. As costas da floresta não deixavam Nina pensar direito. Manchas brancas no pé do planeta chamavam atenção. Apertou os olhos como se para a lua invertida e viu frágeis seixos quadrados aquecidos uns pelos outros. Enquanto o piloto arremetia em direção à Lagoa, Nina focou os prédios amontoados e teve a visão de caixas com quarenta e tantos fósforos arrumados uns sobre os outros. Lá dentro varetas com pólvora nas cabeças aguardavam a oportunidade de explodir.

O dia ficou mais claro e Nina teve a certeza: Nunca mais entraria numa caixa sem um plano de voo.

3 comentários:

Anônimo disse...

CAT - A Voadora.

Ivo de Souza disse...

Boas imagens. Belo conto!!!

Anônimo disse...

quero ver o filme!!
bjs