sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ARRASTA

A CADA ANO UM RIO
DESÁGUA EM MINHA'LMA
ARRASTANDO PALAVRAS
E LETRAS AO OCEANO,
AOS BORBOTÕES: A SAGA

A CADA RIO UM ANO
DE MINHA'LMA DESÁGUA
POR LETRAS E PALAVRAS, A SAGA
DOS BORBOTÕES DO OCEANO
ARRASTA

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Querido Papai Noel,


Suzete pendurou a meia-arrastão na janela prendendo cartão decorado com purpurina e preenchido com letra caprichada:

Querido Papai Noel,

Este ano eu fui muito gente boa. Não sacaneei ninguém, perdoei todos os filhos-da-puta que jogaram pedras no meu caminho e que mereciam morrer com uma bigorna entalada na garganta. Comi montanhas de legumes e verduras entre torresmos e chopes. Não dormi com ninguém; só fiquei aqui e ali sempre com camisinha reserva com todo o respeito, até porque só consigo pegar no sono sozinha na minha cama de solteira. Paguei a musculação o ano todo e até fui lá algumas vezes. Não tirei nenhuma vida, isto é, quase nenhuma se o Papai aí considerar grave achatar mosquitos que rondam meus ouvidos e sugam o meu sono. Engoli sapos, lagartos e aranhas e só regurgitei coelhinhos fofos. Não fiz promessas, já que é pecado não honrá-las. Tomei banho em três minutos para economizar a água do planeta. Não pulei no pescoço de uma condômina nem diante das injúrias mais pérfidas, apenas contemplei, em absoluto silêncio, sua carótida pulsante. Evitei sequestrar o jornal do vizinho, fiz o preventivo e não cuspi no meu terapeuta. É certo, e o Senhor sabe disso, enchi o saco dos que amo, mas o nobre amigo não há de negar que me rasguei toda para me redimir. Votei consciente, paguei os impostos no vencimento e não subornei nem um guarda. Não baixei nada ilegal da internet, de DVD e CD pirata passei longe, no elevador mantive o controle dos gases, não desejei morte lenta e dolorosa para o nazista do meu chefe. Não joguei papel no chão, nem quando os pés tropeçaram em montanhas de lixo. Emprestei dinheiro sem juros para os amigos, cuidei de gatos e gente de rua. Ouvi conversas idiotas, imbecis, racistas, reacionárias e execráveis fazendo cara de aquarela de marina de Búzios. Paguei cerveja para os poetas e loucos da praça. Tudo bem, devo admitir que falei alguns palavrões, mas todos por causas nobres. Ressaca não dá para contabilizar porque assim nem você aguentaria essas renas histéricas.

E agora, meu Papai Noel, em troca de todas essas boas ações peço, humildemente, que quando o Velhinho tiver um tempo entre uma chaminé e outra, deposite nesta singela meia apenas mais um ano de vida feliz ao lado dos meus.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Amiguinhas de cortina



Sebastiana ficou tonta, não falava coisa com coisa e quando esqueceu que levantou para fazer xixi e foi beber água, percebeu que era hora de procurar ajuda. Em frente à porta da Emergência, uma placa com desenho de caveira alerta: “Perigo de vida – Alta tensão”. Não deu outra, foi parar no CTI. Sebastiana não conseguia dormir com todos aqueles fios, agulhas e sons estranhos. Ao lado de seu leito uma gaveta metálica escrito “expurgo” onde vira e mexe alguém jogava coisas dentro. Gente de branco chegava, olhava os monitores por trás de Sebastiana e soltava a enigmática palavra “basal”. Tédio. Tratou de arrumar quatro amiguinhas – elas não sabem, mas são -: a misteriosa Senhora Ruth que fica fora do alcance das vistas, num lugarzinho exclusivo, muita gente entrando e saindo. Talvez seja mãe judia e rica, digna, sofre em silêncio ou está em coma profundo mesmo. A vizinha de cortina é a tia Zulmira, que só geme. Stanislaw Ponte Preta ficaria, se pudesse, chocado em saber que sua querida personagem padece de uma pneumonia vinda de Muriaé, Macaé ou não se sabe mais de onde ela é.

Na madrugada Sebastiana conheceu as outras duas companheiras de monitoramento. De tempos em tempos, Dona Paulina chama “Maria! Maria! Tô com frio” e a outra paciente, coincidência ou não, Dona Maria, responde lá do outro lado do salão “Calor, calor!”.

O enfermeiro Carlos, responsável pelo bem-estar das cinco almas, confere o cobertor de Dona Paulina, sussurra algo em seu ouvido e acaricia seus cabelos. Repete o gesto com Dona Maria; com um olho nas luzes barulhentas dos aparelhos e outro no puro delírio antisséptico.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A felicidade em bolinhas de sabão


Jaqueline, figura saltitante importada da baixada fluminense, vive sob as marquises dos prédios nos arredores da Praça São Salvador. Raquítica, viciada, coberta de doenças de pele, carrega na barriga o fruto do amor cafajeste de outro morador de rua que, dia sim outro também, enche a cara dela de tapa. Quando acorda, lá pelo meio-dia, desfila entre os “tios” e “tias” pedindo comida e cigarro. Parece um palito amarelo com uma azeitona no meio. No fim da tarde já ganhou comida, roupas e dinheiro suficiente para trocar pelas pedras de crack dela e do macho nervoso.

Os moradores sensibilizados com a situação arranjaram um abrigo para mães solteiras, com direito a psicólogo, médico, cama limpa e comida simples, porém farta. Em troca Jaqueline teria de dividir tarefas, como fazer faxina, arrumar o quarto, cozinhar, cuidar de horta comunitária e estudar. E, o pior, ficar de cara limpa. Ninguém merece. Jaqueline é pobre, mas não é escrava para trabalhar de graça.

Voltou para a rua. Saudades. Hoje tomou banho no chafariz cantando livre e feliz.

sábado, 27 de novembro de 2010

Festa do Dia D

Amigos leitores,
Dia 25/11/2010 foi inesquecível para os cariocas: bombas, tiroteios, carros-tochas, chuva de bala e água. Chamado de dia "D" do Rio de Janeiro. Dia "D" de DEU VACA, meu livro lançado na mesma data em festa deliciosa na editora MULTIFOCO. Nada define melhor o estilo carioca de ser como o frenético caos da última quinta-feira e a coragem de seu povo que insiste em ser feliz.
Sammy definiu a noite: "No Rio o bicho estava pegando, tinha tudo para dar zebra, mas Catarina estava com a macaca e Deu Vaca!"

Veja o vídeo da festa


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Lançamento livro DEU VACA

Vento carioca


Agenor adora ventania. Basta voar as primeiras folhas para que o apreciador da natureza se instale no banco da praça com seu caderninho. Espera, ansioso, as mulheres de saia serem surpreendidas pela golfada de ar vinda da praia. Para justificar hábito tão erudito, Agenor inventou de escrever uma tese: “A Calcinha Carioca – Cultura e Expressão Oculta”. Trabalho de campo árduo. Brancas de algodão enfiadas no rego, floridas, de bolinhas, calçolas emagrecedoras, transparentes, de moranguinhos, de elástico frouxo, de renda negra, de bichinhos, e até invisíveis que não deixam marcas. E muitas, muitas vermelhas de variados tecidos, tamanhos e idades.

Revelação científica: as calcinhas vermelhas são as campeãs sob as saias cariocas. Isso sem contar com as pagadas de cofrinho sob os jeans. Impressionado com a descoberta, Agenor tratou de registrar a tese na Biblioteca Nacional e partiu em busca de um editor visionário. Não pensava em outra coisa e não saia mais da praça buscando enriquecer seu trabalho. Esqueceu todas as outras funções, inclusive junto à patroa. Nem via mais a mulher ao lado da cama.

Ela cansou de esperar e partiu para o tudo-ou-nada. Um dia Agenor chegou a casa, depois de um extenuante dia de pesquisa na praça, e encontrou a mulher só de calcinha e sutiã meia-taça vermelhos, trepada num par de saltos-agulha, preparando o jantar. O homem, instantaneamente, perdeu o interesse pelo vento da praça.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Momento gelo e carteado


Pitomba passa o dia todo, montado em seu triciclo, indo e vindo na ciclovia vendendo gelo para os barraqueiros da orla de Copacabana. Uniformizado só de bermuda e chinelos, segue feliz labuta sempre cantado funk com estribilho aos gritos de “Olha o gelo nas paradas!!! Tunk, tunk, tunk...”.

Numa viagem dessas atropelou uma senhorinha que caminhava em slow motion no meio da ciclovia. Foi velhinha para um lado, gelo para outro e Pitomba no asfalto. Juntou gente rapidinho, convertidas automaticamente em juízes de ocasião: “Velha maluca, quer morrer? Engole as agulhas de crochê!”, “Esses entregadores de gelo são todos homicidas em série!”. A ambulância do Corpo de Bombeiros resgatou os dois no mesmo carro. Foram batendo boca até o hospital. Sendo reservada aos paramédicos a função inglória de apartar as figuras possuídas de razão e hematomas.

Ninguém quebrou nada, mas ficaram bem ralados e com escoriações generalizadas. Ele perdeu o gelo, ela o carteado no Posto Seis. Na saída do hospital encontraram-se devidamente esparadrapados. Olharam-se longamente. Sorriram. Ele ajudou a chamar um táxi. Ela deu carona. Afinal, o dia estava lindo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Cartela padrão

“Quase não sabemos de onde viemos, muito menos para onde vamos.”

Nada melhor para começar uma palestra do que uma frase de efeito que não diz coisa alguma. Impressionante, sempre arranca admiração e aplausos.

“O processo de gestão exige planejamento estratégico e a quebra de paradigmas...”

Outra frase feita. Não posso acreditar que minha empresa pagou inscrição, ponte aérea e hotel para que eu assistisse esse embuste. Antes pagasse minha pós ou mestrado ou um aumento justo. Muito justo. Vamos ver se eu consigo me divertir um pouco com isso para passar o tempo. Se esse executivo empacotado falar mais dez chavões da administração eu fecho uma cartela de bingo. Vamos lá, cara, não me decepcione...

“Toda organização precisa de planejamento estratégico através da gestão de projetos. É mister efetuar pesquisa de clima organizacional e mapear o capital intelectual e a inteligência emocional de seus líderes visando quebrar paradigmas e solidificar a missão e a visão da empresa. A administração deve acompanhar o processo por meio de avaliação de resultados para o atingir as metas e ...”

Bingo! Hurruuuu! Aqui, aqui! Bingooooo!!

Silêncio no auditório.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Você é mais um para a estatística?


Maurício é um clássico eleitor nulo. Frequentou os melhores colégios do Rio de Janeiro, conhece as melhores noitadas e praias, nunca leu os clássicos da literatura, mas conhece todos pelo nome, pratica musculação, surf, comida natureba pronta para micro-ondas e churrasco com os amigos. Não dispensa a imagem de São Jorge nem o patuá na carteira. Preocupa-se com a poluição e o aquecimento global embora nunca tenha pedido a dispensa dos sacos plásticos no supermercado ou deixado de jogar filtro de cigarro na rua. É contra o aborto, mas não usa camisinha porque não anda com cachorra. Paga impostos em dia, tem crise de memória ao declarar o imposto de renda e sempre reclama na coluna do leitor da corrupção. Sua vida nunca teve grandes percalços, boa alimentação, boa saúde, boa mesada. Os últimos oito anos não fizera diferença no seu estilo de vida, não se importa que os pobres estejam comendo, estudando e vivendo melhor; desde que não invadam sua zona de conforto. Maurício não pensa pequeno, é um visionário. Recusa-se a coadunar com populares programas de governo e assume que, enquanto viver neste país de gentinha, continuará a anular seu voto. Não quer ser conivente com os escândalos e erros futuros. Entretanto, no próximo domingo, resolveu não anular o voto, vai justificar, afinal não pode dispensar um feriadão ecológico na região dos lagos.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Senhor, sua assinatura não confere



Seu Antônio, Contador de relativo renome entre os pequenos comerciantes da zona norte do Rio, tem como principais clientes os portugueses donos de botecos. Organizadíssimo, mantém fichas amareladas com dados contábeis e emite relatórios inquestionáveis em sua máquina de escrever manual desde 1971.

Parte dos serviços contábeis é pago com generosas rodadas de cerveja no fim de cada tarde, quando Seu Antônio sai do escritório e pendura o paletó na cadeira do bar e guarda a gravata no bolso. Eventualmente consome no bar mais do que possui de crédito laboral. Lá pelas tantas passa o cheque psicografado pelo anjo da guarda e volta para casa limpando parede com o ombro.

Mesmo com todo o apoio celestial, os cheques começaram a voltar; não por falta de fundos e sim por divergência na assinatura. O Contador, indignado com a humilhação imposta pelo Banco, reclamou tal bandeira despregada, ameaçou encerrar a conta, processar por danos morais; o que não adiantou absolutamente nada. O nome do homem continuava sendo manchado nas mesas dos mais tradicionais botequins da cidade.

Um dia acordou inspirado. Não foi para o escritório e sim direto para o bar. Tomou todas até o meio-dia. Na hora de pagar a conta disse que iria ao Banco e voltava já. Entrou na agência bancária visivelmente chapado. Sentou diante da gerente e sentenciou:

- Traz aí de saideira um cartão de autógrafo que eu quero renovar minha assinatura. Quero ver se agora vocês não reconhecem essa merda!

Negativo da alma


Tirei um retrato

Do rato cego rondando meus encalços

Em preto e branco

Surto meu filme mofado

Não filmado, não listo

A imagem na parede

Revela apenas fato

Com o riso torto

E o olhar morto

Na moldura presa alma

Rota arrota

Estática.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Indivíduo coletivizado


Acorda cedo, jornal, barba, corte no queixo, que merda, logo hoje? Banho, café, jornal, terno preto, verão, acostumado, mas nem tanto. Pega a última vaga na sombra do poste no ponto de ônibus. Sorte. O dia começou bem. Entrevista para emprego não pode chegar com a camisa social colada nos peitos e a testa pingando na gravata. Meia horinha depois chega o coletivo bem coletivizado. Licença aqui, olha onde bota o pé, desculpa, segura, balança, não encosta, não dá, quer que segure a pasta?, abre a janela faz favor, alô? agora não posso tô no buzão, que cheiro, credo! vai descer, motorista, aqui não, no outro, é aqui, é aqui, valeu, ufa. Duas horas, dentro do previsto, muito bem, você é o cara. Sinal da Presidente Vargas com Rio Branco fechado. Calma, você ainda tem quinze minutos, segue o gado, dribla camelô, bicicleta, gente lerda, buraco na calçada, topada, fila para o elevador, ai-ai-ai...bora-bora-bora, agora sim, respira fundo, espera um pouco antes de entrar para se recompor. Bom dia, tudo bem, viagem tranquila, obrigado, sim, moro perto, é rapidinho até aqui. Nenhum problema, posso esperar o tempo que for necessário, este sofá está ótimo, não, obrigado, já tomei café, fique a vontade. Espera, espera, calma, não comece a tremer a perna, nada de TOC, lembra os conselhos do gestor de RH? Então espera, espera, meio-dia, o chefe foi almoçar? Tudo bem, eu espero, duas da tarde, três, café, chiclete. Chegou, calma, vai chamar, até que enfim, sorria, isso mesmo, disposição imediata, salário a combinar, admiro esta empresa por isso e por aquilo outro, meu currículo é generalista, atuo em várias frentes, sei, sei, entendo perfeitamente, claro, claro, entendo, a vaga é para júnior e não senior, eu aceitaria se pudesse...tudo bem, tudo bem, precisa de um perfil mais jovem, isso, não quero tomar mais o seu tempo,obrigado por me receber, foi um prazer, quem sabe em outra oportunidade?

Acorda cedo, jornal, barba, corte no queixo, que merda, logo hoje? Banho, café, jornal...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Eu voto porque posso



Eu voto. Voto nos incluídos mantenedores dos excluídos, nos pensadores transformados em ação, nos que acordam cedo e dormem tarde. Voto nos que se expõem ao julgamento do povo, à bala e ao futuro. Voto no trabalhador, no estudante, no artista, no militante, no aposentado e em você. Voto hoje porque posso e não abro mão desse direito conquistado dos porões da ditadura ao burburinho nas ruas. Voto porque tenho fé e coragem para consertar meus erros, abrir estradas do conhecimento e rasgar o verme do voto nulo, do branco e o de cabresto. Voto com os olhos abertos para o passado e de olho na consolidação diária de nossa democracia. Voto porque vejo minha nação melhor a cada dia e é responsabilidade minha fazer com que ela continue subindo no prumo. Domingo próximo assino mais uma vez meu compromisso com o futuro; porque eu posso.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Dia de Dorinha


Tia Liata não sai de casa sem maquiagem nem sem a bolsinha de tricô com Dorinha, apelido carinhoso de seu .22. Herdara do falecido marido que carregou a pequena arma na meia do coturno durante brilhante carreira de vigilante. Tia Liata aprendera a limpar, carregar e atirar nos passeios pela Floresta da Tijuca.

Todo dia cinco do mês a senhorinha atravessa a alça da bolsa no corpo e sai com a mão encaixada em Dorinha para receber a pensão. Hoje, na saída do Banco, ligadíssima no movimento, manja o moleque encostado na porta atendendo o celular e olhando para ela. Ela faz que vai para a esquerda e o moleque atrás, ela volta e o encara, ele desvia o olhar e retorna grudando sombra nas costas de tia Liata. Ela aperta Dorinha sentindo a respiração ofegante dele. Ela pensa se seria capaz de atirar em alguém. Nunca matara nada maior do que baratas. Nem rato. Morre de pena daqueles olhinhos inocentes. Mas se eu não me defender quem vai me guardar? É só eu e Deus. Se me levam a pensão vou comer o que o mês todo? Sente um toque no ombro. Saca Dorinha e aperta o gatilho até que do cano só saia tec-tec-tec. O coração voa na cabeça e as pernas falham num breu súbito. Sirenes entram e saem de sua boca inflando e murchando. Luz branca.

Acorda na enfermaria do Souza Aguiar. Lembra do que fez Dorinha e chora. O que você fez? O que você fez? Prefiro morrer a saber que você feriu alguém. Meu bom Deus, perdoa essa alma perturbada e guarda a vítima de Dorinha com fervor. Ela não fez por mal. Cadê você Dorinha? Onde você se meteu, menina? Volta prá mim. Eu vou te buscar.

- Que confusão é essa na porta do hospital?

- Lembra daquela velha maluca que ontem acertou seis tiros no boneco do posto de gasolina e enfartou?

- Morreu?

- Agora sim. Pulou pela janela.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A felicidade é um bloquinho de batalha naval



De todas as cenas exaustivamente exibidas do ataque aos EUA em 11/09/01, a que mais me impressiona é a cara de paisagem do presidente Bush ao receber a notícia através de um singelo cochicho de um assessor quando visitava uma creche americana. Fiquei intrigada e a curiosidade vem me consumindo os neurônios nos últimos nove anos. Sobre efeito de que droga ele estaria para fazer aquela cara? Se ele tivesse cheirado nuvens é certo que daria um pulo da cadeira. Se um tapa num baseado fosse sua opção, desconfio de que um longo bocejo seria uma reação esperada. Já se estivesse bêbado a gargalhada seria inevitável. Analisei várias possibilidades toxicológicas e o enigma só se avolumou. Nada se adequava àquela expressão.

Uma grande amiga, usuária fiel de fluoxetina, a pílula da felicidade, contou-me ter sido demitida sumariamente após vinte e cinco anos de trabalho na mesma empresa como quem relata a visita à padaria para comprar pão francês. Outro usuário, ao receber a notícia de que o melhor amigo do filho havia depositado um tiro na própria cabeça, falou para o adolescente que isso acontece, suicídio é natural, é até a favor, ofereceu um sanduiche de presunto para comemorar. Emoção zero, preocupação, amor, raiva, felicidade, ira, alívio, medo, nada, nadinha de nada. Uma aberração.

Aí tudo se iluminou. O homem dos esteites estava chapado de fluoxetina. A pílula mágica transformou quase três mil vidas numa bola desenhada com esferográfica num bloco de batalha naval.

E se o Cara estivesse sóbrio? Talvez não existisse mais muçulmanos ou americanos ou planeta Terra ou jujuba cor de rosa.

Talvez.

Nunca saberemos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sem, só


- Censo Demográfico 2010, boa-tarde.

- Quer o quê, cara-pálida?

- Senhor, conforme amplamente divulgado e cartaz afixado no quadro de avisos de seu condomínio, tomarei apenas minutos de seu precioso tempo com algumas perguntas importantes para efetuar grande retrato em extensão e profundidade da população brasileira.

- Vaza, mané.

- Desculpe-me, Senhor, responder ao Censo é obrigatório por lei.

- Entra, senta aí e desembucha.

- Obrigado, Senhor. Quantos moram aqui? Idade? Renda? Grau de instrução? Imóvel próprio ou alugado? Sua cor?

- Eu, trinta velinhas, mil merrecas, ensino médio aos trancos, cafofo alugado, adoro vermelho.

- Sua cor da pele.

- Ah, não tá vendo? Sou neguinha.

- Muito obrigado. É só. Não disse que era rápido?

- Como assim? Só isso?

- Por sorteio este imóvel teve escolhido o questionário simplificado.

- Você acha que eu não sou importante o suficiente para dar opinião sobre a sociedade, o futuro do país e minha cor predileta? Sobre o meu gato não vai perguntar nada? É por que eu sou preto, pobre, gay e moro longe?

- De maneira alguma, Senhor. O Censo agradece a sua colaboração.

- Daqui você só sai, Santa, depois de anotar nessa prancheta toda a minha vida. Sem essas informações o governo não poderá analisar a real situação da nação, os gargalos do mercado de trabalho, o racismo, a homofobia e a necessidade de políticas públicas voltadas para os animais de estimação.

- O Senhor tem razão. Pode falar, estou anotando.

- Ah, bom. Blá blá blá então, blá blá blá escutou? blá blá blá não esquece: blá blá blá anotou tudo?

- Mais alguma coisa?

- Já ia me esquecendo de algo importantíssimo. Marca aí que bebo, fumo, tomo antidepressivo e como chocolate diariamente, mas tudo pouquinho, tá?

- Perfeito, Senhor. Muito obrigado.

- De nada, Bem. Quer um cafezinho?

- Seria uma honra. Infelizmente tenho muitas casas para visitar.

- É pena. Bom trabalho.

- Grato, grato, o Senhor é muito gentil.

Já na rua, sob sol escaldante, consultou a prancheta e pensou: Caraca, gastei duas horas com aquele viado nojento. Tô fudido, ainda tenho nove apês para visitar.

Passou pela lixeira e depositou mais uma estatística cega.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O piano e o Opala que virou Toyota


O piano e o Opala que virou Toyota

Quando o piano despencou da nona janela e se espatifou na capota do Toyota do delegado Frazão, não ficou uma testemunha para registrar ocorrência. Quem estava no prédio se fingiu de cego e quem não estava riu muito, certo que escondido. Frazão tem fama de violento e dono da verdade. Dizem que ele foi do tempo que a polícia civil circulava por aí de Opala com a mala cheia de presunto vencido. Vizinho é lixo, mulher tem seu preço, família boa é família longe, amigo é o que paga conta. Ninguém mexe com ele.

Embora todos saibam que nos últimos tempos Frazão vem amolecendo. Dizem que por obra e graça de Norminha, professora primária de corpo e sorriso farto e massa cinzenta nem tanto. Balzaquiana de trança acima de qualquer suspeita.

O amor fincou mudanças visíveis no delegado. A camisa fechada até a gola não mais exibindo o peito cabeludo entre as correntes de ouro, o cabelo limpo e penteado, o sapato engraxado e a camisa por dentro da calça. Se não posse a careca e a barriga gestacional, poderíamos facilmente passá-lo por um dos alunos CDFs de Norminha.

A professorinha vinha domando a fera às migalhas ao chão. Um beijo no cangote, uma piscadela de olho acima do batom, uma passada de dedos suavemente na orelha. Algo além só na imaginação inebriada do pobre homem da lei. Para ela só casando e, de presente, um piano. Sempre quis ter um piano e, é claro, um homem maravilhoso como ele que lhe desse uma penca de filhos rosados e fofos, uma casa digna com pinguim na geladeira e toalha de mesa de encerado florido.

Casaram. No começo só meu pudim prá lá, minha cocada prá cá, risinhos e cochichos nos cantos. Ardências na cozinha e loucuras no banheiro. Não demorou para a falta de talento de Norminha ao piano fazer aflorar o lado mão-branca de Frazão.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A chatice em sua excelência



Eu sou chato. Chato mesmo. E não é só uma suspeita porque minha mãe, que Deus a tenha ao seu lado fazendo tricô, fez essa revelação ainda na minha infância. Quando perguntei o porquê de ninguém querer ser meu amigo mesmo eu sendo o generoso dono da bola da pelada, exigindo apenas ser sempre o atacante e escolher o time todo. A sábia progenitora foi taxativa. Filho, você é muito chato. Que Deus me perdoe, mas você é uma mala sem alça.

A partir desse dia assumi minha chatice tendo a oportunidade de desenvolvê-la ao máximo. Hoje sou um chato inquestionável. Não perco uma oportunidade de exercer o meu dom. Ontem mesmo encontrei a gostosona do 801 no elevador e não pude – não quis – evitar comentar que aquela ridícula meia de oncinha não combinava com seu corpo escultural de cachorra de baile funk. Ponderei dissertando sobre a necessidade de algumas mulheres menos favorecidas mentalmente mostrarem uma imagem brega. Elogio rasgado. Ela não entendeu. Chamou-me de bicha escrota e deu-me com a bolsa zebrada de alças douradas no meio da cara. E olha que nem tive tempo de falar dos brincos que pareciam algemas de fetiche. Tentei imobilizar a rottweiler por trás antes que começasse a morder. A porta do elevador abriu para que o porteiro me visse engatado de conchinha na fera. Socorro tarado socorro. O tampinha pulou no meu pescoço enquanto eu gritava educadamente me larga pau-de-arara xexelento ou eu faço um pirão da tua cabeça de guaiamum. Chega a síndica das compras, tira uma banana da sacola enfia no meu olho quando alcanço seus cabelos vermelhos ameaçando quebrar aquela palha de milho dura espetada na cabeça de maracujá de gaveta. Imobilizado no chão pelo joelho do guaiamum, com a banana enfiada na boca pelo maracujá e a cachorra pisando no meu saco com o salto agulha, suspiro ao ver os homens da lei adentrando o recinto. Algemado, explico na viatura a agressão que sofrera. Cala a boca, maluco, ou perde os dentes. Absurdo. Até entendo vocês não quererem ouvir minha história, não teriam condições de entender nada mesmo. Coitados. Não conseguiram ser nada melhor na vida. Ô azar. Caramba, você quebrou meu dente seu infeliz. Sou chato. Vou processar todo mundo. E tem mais uma surpresinha: sou advogado.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Zé, o porteiro de Copacabana

Embora muitos jurem que os porteiros de Copacabana foram produzidos em série misturando barro, xiquexique e água de açude nos cafundós do nordeste, Zé sabe ser único. Não pela origem humilde, a viagem no pau-de-arara e o misere inicial na cidade maravilhosa porque isso tudo é de praxe. Zé é o Zé porque sorri o tempo todo e não baixa os olhos diante de ninguém. E nunca negou serviço. Conhece o povo que entra e sai do prédio pelo nome, pelas sortes e azares de cada um. Mantém a timidez lapidada em discrição tão característica do retirante nordestino.

A vida lhe foi digna e, com tempo para aposentadoria, casa ampla com laje no Pavão-Pavãozinho, filhos criados e passado apaziguado, Zé deu entrada no INSS para receber o benefício e descansar. A vista escureceu quando o atendente declarou que ele não tinha contribuição alguma e como não tinha carteira de trabalho nem contra-cheque para comprovar a história, a situação fica complicada. Envergonhado, mas com sangue ainda quente, Zé voltou para o condomínio e procurou o patrão de longas datas. O síndico, velho amigo, lamentou o ocorrido e mandou que o homem procurasse seus direitos na justiça.

Zé sentiu um troço quente na nuca e o peso de mil caixas sobre os ombros arqueados. Correu para o seu antigo cafofo no porão úmido do prédio porque homem que é homem chora, desde que sozinho e no escuro para que nem ele mesmo veja. Agarrou-se ao colchão e sentiu sob a cama o cabo da peixeira aposentada. Qual a última vez que precisou usá-la? A ferrugem ajudava a contar o tempo e a lembrar das brigas, bebedeiras e desatinos da solteirice. Ainda saberia usá-la com a mesma destreza com que cortara cana na infância?

Foram quarenta peixeiradas, uma para cada ano de trabalho. Deu-se por satisfeito. Limpou o instrumento, arrumou os panos de bunda e sumiu.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

À esquerda ou à direita?


- Mô, estamos próximos. Olha a placa do Queijão alí.

- Já é a terceira placa de queijo na estrada.

- Então. É isso que está no mapa: entrar na 3ª placa depois do Queijão.

- À esquerda ou à direita?

- Mas que mania, Marcelo, de complicar tudo! De que lado está a placa? Não é à esquerda? Então entra à esquerda, né?

- Sueli, não tô vendo nem estrada...

- Pronto. Lá vem você de novo. É por isso que a gente precisa rever a nossa relação. Você não leva a sério nada do que eu falo. Confiança zero. Trata-me como se eu fosse uma idiota.

- Ok. Entrando à esquerda.

- Não adianta disfarçar e mudar de assunto. Sei que você só concordou em entrar à esquerda porque eu questionei a falta de diálogo no nosso casamento. Pensa que eu não percebi quando, mesmo eu lendo o mapa, você com olho comprido, conferindo tudo, duvidando da minha capacidade? Minha mãe sempre disse que você não era um homem confiável...

- Eu?

- E cheio de meias palavras. É um tal de futebol com os amigos prá lá, hora-extra prá cá, atrasos inexplicáveis...E quer saber mais? Eu não preciso passar por toda essa humilhação. Sou uma mulher independente, capaz, bonita e gostosa, viu? Muito gostosa se você não sabe ou esqueceu. Saiba que ouço isso quase todo dia na rua, no escritório e até no supermercado.

- Estrada ruim, não é querida? Vai acabar com os amortecedores do carro. Meu bem, olha esse mapa de novo.

- Viu? Nem ouve o que eu estou falando. Só se preocupa com essa lata velha. Já entendi tudo. Se é assim que você quer está decidido. Eu fico com o apartamento e você com o carro e com a casa de praia que eu nunca quis essas porcarias que só dão despesas. Bem, foi bom enquanto durou. Não vamos fazer cena. Melhor resolver tudo amigavelmente, mantendo o respeito mútuo, para não traumatizar as crianças. O cachorro fica comigo, é meu companheiro fiel como você nunca foi, seu galinha. Aquela tartaruga nojenta que você ganhou numa rifa de bar pode levar contigo. Já vai tarde. As crianças ficam comigo, lógico, você não saberia o que fazer com eles. Não sabe nem em que série estão na escola. Pai desalmado.

- Mô, desculpe interromper sua partilha, mas chegamos numa pedreira abandonada com uns caras esquisitos e armados. É aqui o churrasco da sua empresa, q.u.e.r.i.d.a?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Reciclando o futuro deste país


- Compro alumínio, compro metal, panela velha, máquina de lavar velha, micro-ondas velho, ferro de...

- Aqui, moço!

- Tem o que prá gente aí dona?

- Um computador slim com processador 2.2 GHz + 2 GB de memória DDR2 800 MHz + disco rígido de 160 GB + monitor 17 polegadas + teclado + mouse sem fio.

- Sei... O resultado dessa soma toda que a senhora fez aí é igual a vinte pratas.

- O quê? R$ 20,00? Só isso?

- Funciona?

- Claro que não. Mas pode ser consertado. É que comprei um novo e não tenho espaço para este.

- Hum... Vinte e cinco e não se fala mais nisso.

- Absurdo! Tem um monte de peças novas aí dentro.

- Então a senhora sai pela rua anunciando suas peças novas.

- Nada feito. Prefiro doar para quem precisa a aceitar ser extorquida.

- A senhora é quem sabe...Compro alumínio, compro metal...

Revoltada, colocou o computador num carrinho de feira e doou para a primeira escola pública que encontrou no caminho aos cuidados do porteiro. Pensou orgulhosa que, com certeza, a escola tem oficina de informática e aproveitaria o equipamento importante para a formação da futura intelectualidade brasileira. Quem sabe através do velho teclado surja um grande escritor ou um cientista renomado?

Meia hora depois o porteiro vendeu o computador para o mesmo carro do ferro-velho pela melhor oferta: R$ 10,00. Cerveja do dia garantida.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Bem cheirozinho



Meu nome é Bárbara e estou decidida a ter um jardim com ervas finas na janela do conjugado e não vou mais pagar rios de dinheiro por folhas impregnadas de agrotóxico. Antes de comprar sementes e vasos, farei um curso de jardinagem urbana num desses espaços zen, tipo vegan e coisa e tal. Dedicação exclusiva e cultura assimilada, agora mãos à obra. Terra, adubo, vasinho decorado, dez dias, quinze dias, vinte dias e nada das sementes germinarem. No vigésimo primeiro dia uma folhinha verde brotou. Vitória volátil: capim, lindo, mas capim aos montes devidamente devorados pelos gatos da casa. Insisti com a plantação por mais quatro tentativas. Só capim e gato feliz. Meditei profundamente observando a janela tomada por uma floresta de capim e a festa dos gatos embolando no vaso carinhosamente preparado para receber, manjericão italiano, hortelã, alecrim... Lembrei meu pai dizendo que a gente não pode desistir dos projetos no meio só por causa de algumas intempéries, se não vai ficando um monte de coisa incompleta pelo caminho e quando menos esperamos e mais precisamos, olhamos para trás e não vemos nada construído. Preocupante essa lembrança. Seria eu uma mulher insensata, volúvel, desconcentrada, impulsiva? Será que essa derrota denota o quanto eu preciso aprender na vida e que na verdade eu não mereço ter na minha janela ervinhas e sim capim? Dizem que a gente é o que planta, logo, sou um insignificante vaso de capim. Pensando melhor, vamos deixar de frescura porque esse capim até que é bem cheirozinho, a feira tem todas as ervas de que preciso e ponto final.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Palavras redentoras



Bento gostaria de acreditar, ao menos, em uma das três coisas que movem o mundo: religião, política ou time de futebol. Entretanto a vida o fez assim, desprovido de fé. O que não impediu seu sucesso, mas é certo que dificultou sua vida. Sabe que sua peculiar, digamos, característica, não é defeito genético, pois a mãe era carola de rezar o terço diariamente e ajoelhar-se todos os domingos em frente ao altar. O pai, flamenguista de carteirinha, filiado ao partidão, não dispensava um trabalho na encruzilhada para dar um empurrãozinho na eleição e no campeonato brasileiro.

O menino cresceu sob a ameaça de ir para o inferno e amargar uma vida besta, sem graça e sem amigos. Formou-se, casou-se e teve uma penca de filhos. Sempre fiel às suas crenças; isto é, sua ausência. Viu os filhos e netos sucumbirem à religião e à camisa do flamengo. Um dos netos, para seu desgosto, virou até vereador. Cansado de lutar por suas ideias tornou-se um velho ranzinza e solitário dentro daquela enorme família. Nem nos dias mais críticos Bento apelou aos céus. Encarou com muita dignidade suas convicções de misteriosa origem.

Mas o dia da razão é certo para todos, seja crente, ateu, flamenguista, botafoguense, homem, mulher, mosquito ou couve-flor. No leito de morte, após noventa anos na corcunda, a família reunida choramingava na despedida de olho no relógio porque o fim era próximo, mas estava demorando além da conta. Acenderam umas velas e hastearam a bandeira do partidão no pau da cortina. Um neto cobriu o avô com a camisa do flamengo e outro, padre, ofereceu-se para ouvir sua primeira e última confissão.

Bento abriu os olhos pesadamente e analisou a situação. Toda a família estava lá. A fumaça movia a luz das velas na parede. As cortinas fechadas e os semblantes pesados deu-lhe a consciência do fim e o alento redentor para suas últimas palavras:

- Tirem essa bandeira empoleirada na minha cortina e esse pano de cima de mim. Apaguem essas velas que eu não quero chegar no inferno trepado num poleiro e vestido de urubu defumado.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Figurinha repetida


- Abre esta porta, Rufinho, ou eu vou arrombar!

- Pô, mãe...tô quase dormindo...

- Não enrola. Sei que você está na internet falando besteira. Já entrei no chat, sou a Rosinha-só-amor e você é o Rufão-furador.

- Porra, mãe, respeita a minha privacidade.

- Privacidade é o cacete, você só tem treze anos. Abre a porta agora ou eu cancelo a internet.

- Chamou, mamãe?

- Desliga. Agora.

- Deixa só eu terminar esse papo...

- Está marcando encontro com quem?

- Com o Gustavão-do-álbum-da-Copa prá trocar figurinha.

- É pedófilo.

- Para, mãe, que saco. Tô marcando na Praça de Alimentação do Shopping, às quatro da tarde. Deixa de neura.

- Eu vou contigo.

- É ruim de eu pagar esse mico.

- Eu pago o dobro para pegar esse pervertido. E vou levar a polícia.

- Ih...tô fora.

Flagrante preparado, polícia disfarçada na escuta, mãe resoluta esperando. Quatro, quatro e quinze e vinte e trinta e nada. A mãe percebe uma mulher na mesa ao lado com cara de ódio profundo agarrada a um álbum da Copa. Arrisca:

- Gustavão?

- Rufão?

- Não me entenda mal. Sou a mãe.

- Eu também.

- Tem repetida?

- Aos montes!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Focinho úmido


Maristela é sozinha. Tem um cachorro cego e aleijado que leva para passear todas as manhãs; no colo. Entre uma visita ao veterinário e uma parada para conversar sobre os últimos resultados dos exames do bichano, Maristela reclama da vida, do portão, do bairro e de qualquer coisa ou humano. Já encontrei muita gente assim. O que me assusta. Não pelo presente e sim pela possibilidade do futuro. A questão é: o que faz com que pessoas saudáveis, inteligentes e cultas, em um momento xis da vida, adquiram uma nuvenzinha negra sobre a cabeça? Como uma mulher amante dos animais, da família e das plantas torna-se um ser tão negativo? Tenho muito medo do outro lado. Talvez por nunca ter tido a consciência do mal. Sempre acreditei que a bondade existe e ninguém é irrecuperável. Romântico, eu sei, mas sou assim.

Contrariando todas as previsões, ao cruzar com o olhar fuzilante de Maristela tenho vontade de abraçá-la, chamar para um chá, conversar por horas, fazer carinho.

Pode ser o receio de um dia – quem sabe? – sofrer amargura tal que meu coração sucumba ao rancor, minha pele resseque à mercê da solidão e meus olhos se tornem tão frios que seria necessário colírio fervente para abrandar a dor.

Temo pela vida do cachorro de Maristela, o último bastião de afeto e sanidade. O fiel, inocente e presente cão. Temo pelo restinho de humanidade que resta a Maristela concentrado num velho focinho úmido.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Atenção! Última chamada para embarque



- Alberto, estou grávida.

- Como assim, Marlene?

- Grávida, buchuda, prenha, pejada, gestante...

- Eu?

- Não, eu. Você vai ser o pai. Não dá para trocar.

- Como isso aconteceu?

- Não lembra ou quer que eu conte a história da sementinha?

- Não brinca com essas coisas, Marlene. Você sabe que eu não quero essa responsabilidade ainda.

- Ainda? Com 45 anos na cara? Vai esperar para ser pai-avô para apostar corrida de bengala com o filho? Ou ficar brocha e precisar de doação de esperma dos amigos?

- Não quero ter filhos.

- Não sabia. A gente pode tirar, então. Aí nós passamos os próximos vinte anos pensando como seria o moleque ou a moleca. Depois, entediados, adotamos um abandonado para ter com quem brincar e deixar os bens acumulados sem serventia.

- Não é uma má ideia.

- Também acho. Podemos adotar um dia. Quem sabe?

- Quantos meses?

- Dois.

- Na sua idade gravidez é perigosa.

- Depois dos 40 tudo é mais perigoso. Até caminhada dá dor na lombar e beber água pode afogar. Aborto então...

- Marlene...

- E se quiser ter filho comigo é agora: última chamada do relógio biológico.

- Você está me pressionando.

- Eu? Claro que não, Alberto. Só estou expondo os fatos.

- É, mas se for macho eu escolho o nome! A decisão é minha e ponto final.

- E se for fêmea vai se chamar Maria Vitória.

- Nome horroroso. Parece nome de desodorante... Não vou permitir!

- Alberto...

- Marlene...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Neura seriada



- O senhor confirma a compra no valor de U$ 3.500,00 na loja Sexy Shop Baby em Nova Iorque?

- Não! Não confirmo! Eu já falei que não fui eu! Nem passaporte eu tenho e minhas milhas não dão direito a tele-transporte.

- Estaremos estornando o valor na próxima fatura.

- E os juros também porque eu não vou pagar essa conta.

- Sim, senhor. Por favor, anote o número do protocolo.

Nossa, que dia! Quem será agora?

- Aaaalô!

- Por que você me mandou este e.mail?

- Como?

- Eu não gosto desse negócio de pornografia infantil. Você está doido ou se fazendo? Ainda por cima para o email do meu trabalho. Tarado! Idiota!

- O que é isso Pedro? Está me estranhando? Eu não te mandei nada e muito menos...

- Olha, eu não quero nem saber. Tire meu nome de sua lista e não me ligue mais ou eu te denuncio.

- Espera um pouco. Não fui eu. Eu jamais...

Pipipipi...

Essa agora. Clonaram meu email também. Vou cancelar essa porcaria agora mesmo. Senha não confere? Caramba! Vou à polícia logo.

- Quero registrar uma queixa: Clonaram meus cartões de crédito e estão usando o meu email para divulgar pornografia infantil.

- O senhor é casado? Tem namorada?

- Não, não.

- O senhor teria emprestado os cartões para algum amigo íntimo?

- Não. E eu não sou gay.

- O senhor sofreu abuso sexual na infância?

- Não! Claro que não! Eu fui roubado! Provavelmente na internet. Sei lá.

- O senhor não se lembra. Então bebe ou usa drogas?

- Drogas? Não. Às vezes bebo.

- Entendi. O senhor deu os cartões e senhas quando estava bêbado.

- Não! Caro inspetor, eu só quero fazer o B.O. Aqui está minha carteira de motorista.

- Senhor, aqui consta que o senhor se envolveu em um acidente hoje pela manhã.

- Impossível. Passei a manhã no telefone bloqueando cartões. O carro ficou na garagem e está lá até agora. Que acidente?

- O seu veículo bateu em um poste na Avenida das Américas e foi abandonado no local.

- Menos mal. Eu tenho seguro.

- Mas tinha dois meninos estrangulados na mala do carro.

- O quê? Roubaram o meu carro para uma desova?

- Aha... O senhor trabalha numa loja de brinquedos...

- Sim. Sou o gerente.

- O senhor parece nervoso...

- Nervoso? Eu estou tremendo! Não é todo dia que jogam crianças mortas no meu carro!

- O senhor quer um copo de água?

- Por favor. Obrigada. Ei? Por que você está guardando o copo que usei nesse saco plástico?

- DNA. O senhor está preso para averiguações. Tudo que disser poderá...

Acordou coberto de suor na fria madrugada de maio. Catou o controle remoto entre as cobertas e, antes de desligar a TV, teve uma sensação de estranha: o seriado que dormira assistindo às 22 horas reprisava na madrugada exatamente no ponto em que dormiu.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O barraco de Seu Antenor



Entra ano e sai ano o pessoal da comunidade vê o barraco do Seu Antenor se equilibrando no cocuruto de uma pedra no alto do morro cercado de bananeira. Embora considerado o morador inaugural da área, ao contrário dos demais, o velho não conseguiu botar tijolo e bater lage na residência. Foi remendando aqui e ali com chapa de metal, madeira e estuque aonde as goteiras iam mandando. Cinquenta anos se passaram sem que os temporais se dessem conta da absurda engenharia do barraco de Seu Antenor.

Este ano seria diferente. As águas caíram sem dó sobre as casas da comunidade. Rios de lama formavam cascatas entre as vielas. Os próprios moradores chamaram a Defesa Civil para convencerem o velho a sair do barraco. Era lógico que quando aquela pedra rolasse o barraco levaria consigo uma dezena de casas abaixo. Na cidade já havia diversos desmoronamentos e as autoridades, com a agenda lotadíssima, trataram de condenar a casa e partir para outras localidades. Todas as demais casas já estavam desocupadas, mesmo assim Seu Antenor não arredou pé. De seu lar, onde criou os filhos e foi muito feliz, não sairia nem morto; preferia ser enterrado naquele solo que tanto lhe deu. Quando a chuva apertou, a vizinhança amontoada na estrada ouviu um grande estrondo e assistiu horrorizada a avalanche de terra descer o morro.

Lá no alto apareceu um buraco imenso sob a pedra saliente que, feito um dente cravado na carne, mordia a terra num último gesto de desespero. Na frente do barraco via-se Seu Antenor gargalhando com os braços abertos para o céu que fuzilava seu corpo com rajadas de vento e agulhadas de chuva.

Ajoelhou-se e rezou.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Ofício de ossos


Esmeraldina botou no mundo doze criaturas, oito se criaram, quatro Deus levou ainda anjos. E só não gerou mais porque o marido Cícero, coveiro da cidade, morreu de uma síncope. Deitou para fazer a sesta e não acordou mais. Tinha espinhela caída, o que não o impedia, de domingo a domingo, de acordar com as galinhas, tomar duas talagadas de cachaça-de-cabeça e seguir para o cemitério. Cavava buraco até a hora do almoço. Depois tirava uma soneca antes de voltar para acompanhar os enterros e selar as tumbas.

Esmeraldina cuidava da casa, das crias e da roça com os filhos maiores. Cícero não deixou pensão. Só um cachimbo fedido de fumo-de-rolo e uma dívida no botequim do Seu Castroso.

No sertão ser coveiro não apetece a todos os viventes. Tem cabra que tem medo de alma. Cícero dizia que medo de alma era para quem tem rabo-preso com defunto. Por causa disso, Cícero passou trinta anos no ofício sem ser incomodado por viva alma; ou morta. Morto o coveiro, ninguém queria a função funesta. Esmeraldina não era diferente. Nem de cemitério gostava, mais pelo cheiro peculiar do que pelo chororô ou alma penada. Mesmo assim achou um desaforo não ter ninguém para enterrar o pai de seus filhos. O cortejo fúnebre parou diante do lugar onde deveria estar aberta a cova de Cícero, um canto esturricado de barro. A comoção foi grande. Não o bastante para que alguém pegasse na pá. O sol ardia nos lombos de vestes pretas quando Esmeraldina sentiu um pingo de suor molhando os lábios. Mandou sentar o caixão no solo e aguardar sua volta. Atravessou a rua e na birosca do Seu Castroso pediu duas cachaças. Bebeu feito água e limpou a boca com o véu negro. Tirou o cachimbo do bolso e acendeu. Amarrou o vestido de viúva na altura dos joelhos, pegou a pá, fincou na terra com o pé e pensou alto o suficiente para os urubus plantados nas cruzes ouvirem e silenciarem: Eu sabia Ciço, que você não deixaria sua velha sem ofício para sustento.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Uma moto, um Astra e a chuva


Samuel é doido pela rua. Corre debaixo de sol e chuva, caminha pela cidade cheirando folha de árvore, procurando passarinho e macaco, entra em rua e vila só para conhecer. Circula também de moto com a viseira do capacete aberta para sentir melhor o vento. Piloto nato tirou a carteira de habilitação tipo AC na Marinha, onde as instruções foram claras: “Dirige aí!”. Desde então pilotar e dirigir com segurança é uma extensão do seu corpo.

Na última terça-feira, voltando estressadíssimo do trabalho pela Praia do Flamengo debaixo de chuva forte, Samuel pilotava na maciota quando passou ao lado de um Astra e percebeu uma sorridente menina de tranças com o rosto colado ao vidro da janela traseira. Gritou para o motorista apontando para o carro. O motorista do Astra não teve dúvidas e jogou o carro em cima da moto de Samuel que deitou no asfalto.

Quando acordou já estava algemado junto ao meio-fio. Com a calça e a camisa rasgadas sentiu o sangue escorrer pelo braço esfolado. Pelo andar das coisas perdera a pelada de terça à noite. Ainda confuso, tentou entender os acontecimentos questionando o policial que confabulava animadamente com o motorista do Astra. Samuel pensou, tranquilo, bastaria esclarecer tudo. Chamou a autoridade e levou um safanão no meio da cara. O estômago revirou, o sangue ferveu. Nunca apanhara na vida, quanto mais na cara. Começou a se debater tentando se livrar das algemas e a gritar que era trabalhador, tinha documentos no bolso e coisa e tal. Como ninguém lhe dava atenção começou a gritar por socorro e a xingar a mãe de todo mundo. Atendido, levou outro tapa e teve a boca selada com uma fita crepe. Antes de ser jogado na viatura, ainda ouviu o cara do Astra dizendo ser médico e ter certeza de que Samuel estava drogado e que se não fosse sua agilidade teria sido assaltado. O homem entrou no carro e partiu enquanto Samuel gemia sob o lacre.

Levou muito soco nas costelas e puxão nas algemas até chegar na Delegacia. O inspetor olhou o sujeito sujo, ensanguentado, encharcado, com os olhos arregalados e sentiu que a noite seria longa. Mandou tirar a mordaça do meliante e que falasse. Samuel gritou o mais alto que pode:

- Porta aberta, porra!