sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Querido Papai Noel,


Suzete pendurou a meia-arrastão na janela prendendo cartão decorado com purpurina e preenchido com letra caprichada:

Querido Papai Noel,

Este ano eu fui muito gente boa. Não sacaneei ninguém, perdoei todos os filhos-da-puta que jogaram pedras no meu caminho e que mereciam morrer com uma bigorna entalada na garganta. Comi montanhas de legumes e verduras entre torresmos e chopes. Não dormi com ninguém; só fiquei aqui e ali sempre com camisinha reserva com todo o respeito, até porque só consigo pegar no sono sozinha na minha cama de solteira. Paguei a musculação o ano todo e até fui lá algumas vezes. Não tirei nenhuma vida, isto é, quase nenhuma se o Papai aí considerar grave achatar mosquitos que rondam meus ouvidos e sugam o meu sono. Engoli sapos, lagartos e aranhas e só regurgitei coelhinhos fofos. Não fiz promessas, já que é pecado não honrá-las. Tomei banho em três minutos para economizar a água do planeta. Não pulei no pescoço de uma condômina nem diante das injúrias mais pérfidas, apenas contemplei, em absoluto silêncio, sua carótida pulsante. Evitei sequestrar o jornal do vizinho, fiz o preventivo e não cuspi no meu terapeuta. É certo, e o Senhor sabe disso, enchi o saco dos que amo, mas o nobre amigo não há de negar que me rasguei toda para me redimir. Votei consciente, paguei os impostos no vencimento e não subornei nem um guarda. Não baixei nada ilegal da internet, de DVD e CD pirata passei longe, no elevador mantive o controle dos gases, não desejei morte lenta e dolorosa para o nazista do meu chefe. Não joguei papel no chão, nem quando os pés tropeçaram em montanhas de lixo. Emprestei dinheiro sem juros para os amigos, cuidei de gatos e gente de rua. Ouvi conversas idiotas, imbecis, racistas, reacionárias e execráveis fazendo cara de aquarela de marina de Búzios. Paguei cerveja para os poetas e loucos da praça. Tudo bem, devo admitir que falei alguns palavrões, mas todos por causas nobres. Ressaca não dá para contabilizar porque assim nem você aguentaria essas renas histéricas.

E agora, meu Papai Noel, em troca de todas essas boas ações peço, humildemente, que quando o Velhinho tiver um tempo entre uma chaminé e outra, deposite nesta singela meia apenas mais um ano de vida feliz ao lado dos meus.

4 comentários:

Sammy disse...

Ho-ho-ho - que beleza. Te devo um Chops. Beijo.

Anônimo disse...

Catá, a conclusão de seus contos é sempre genial!!!
Muitas e muitass felicidades por mais muitíssimos anos ao lado de seu muso e seu filhotinho...
my

Marilia disse...

Muito gente, muito bom ! Longa vida à Suzete. bjs, Marília

Sylvia Regina Marin disse...

Bela Catarina,
Eu tenho que ser sua fã, não é? Você é sempre demais.
Saudades.
Beijos.