sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O excluído


- O que você tem, menino? Engoliu uma aranha?

- Não, mãe. Preciso saber quando você e o pai vão se separar.

- Ué? Não estamos pensando nisso. Nós nos amamos. De onde você tirou essa ideia?

- Tô chateado com os coleguinhas da escola. É que os garotos ficam esfregando na minha cara que têm duas casas, dois pais, duas mães, um monte de avós...e eu aqui, nem um meio-irmão eu tenho. Não aguento mais tanta humilhação.

- Tem seu lado bom. Pai, mãe, avós, brinquedos exclusivos só para você todo o fim de semana.

- Saco. Decidi. Se vocês não se separarem eu me separo de vocês.

- É mesmo? Com dez anos na fuça vai prá onde?

- Prá casa do Igor. Lá ele tem até um terço de irmão, filho do segundo casamento da atual mulher do pai dele. Coisa fina.

- Filho, o amor tem várias formas. Todas são certas. O importante é que você é amado e sempre será.

- Tá bom. Você e o pai podem continuar juntos. Eu vou ficando por aqui pelo menos até um de vocês tomar vergonha na cara, arranjar amante e me dar um meio-irmãozinho.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Uma história qualquer sobre homens do bicho


Seu Canastra apontou o jogo do bicho nas redondezas do bairro por mais de quarenta anos. Lá pelas tantas viuvou e deu para beber. No começo cerveja, no final qualquer biricutíco. No sorteio das 18 horas já trocava cachorro por cavalo e cobra por galo. Da contabilidade animal passou a tirar uns trocados para molhar a palavra.

Quando Cordão de Ouro, dono do ponto, descobriu os desvios de Canastra, deu-lhe um pé na bunda como aviso prévio e, compadecido, deixou Canastra vivo à própria sorte. Sem salário, sem registro, sem teto, sem gosto, o homem aboletou-se com uma trouxa de roupa na praça e foi ficando.

Se esperto, assumiria a própria sina. Desprovido dessa dádiva, achou por bem tirar satisfações com o antigo patrão. Tomou todas e plantou-se em frente ao restaurante do bicheiro à espera. Quando Corrente de Ouro saiu,Canastra interpelou e pediu, não ajuda e sim reconhecimento pelos anos de lealdade quase total, admitia. Reconhecido, o chefão garantiu que Canastra perdesse os dentes que lhe sobravam. Ganhou chute nos rins e cara amassada a título de 13º salário, FGTS e férias proporcionais.

Jogado na calçada com lama na alma, Canastra olhou o prendedor de gravata cravejado de diamantes e voltou a implorar:

- Meu amado e justo Senhor, porque eu sou um merda e só o seu perdão me salvará. Atenda apenas um pedido deste pecador.

- Fala monte de bosta.

- Deixe-me beijar seu rosto antes do meu fim.

- Bêbado safado, sabe que tenho coração mole. Vou deixar para que você suma de vez do meu ar.

Aproximou a face da boca de Canastra o suficiente para o homem arrancar o prendedor de diamantes e enfiar na carótida do chefão. Enquanto o sangue espirrava, Canastra ria, ria, ria.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O primeiro amor



- Bora, Pedrinho, matar a última aula ou a gente vai pegar uma fila imensa.

- Tô indo, tô indo.

- Trouxe a garrafa de álcool?

- Não. Era a minha vez?

- A gente compra no caminho. Vito, você tem quanto? E você Edu?

- 0,80.

- 0,15.

- Caramba, só tenho 0,10. Dá. Feito. Não falei? Olha a fila na escada!

- Não vai dar tempo até a hora do almoço.

- Vai sim. É rapidinho, só tem moleque na fila. Talvez aquele velhote empaque na armação.

- Ele tem tempo sobrando, a gente pede para passar na frente.

- Abriu a cortina rosa. A fila tá andando.

- Já tô até pronto.

- Segura.

- O próximo! Os rapazes vão pagar com o quê?

- Chaveiro, Dona Gertrudes.

- Caneta...

- Eu vou pendurar prá próxima...

- Esses estudantes...Deixa eu ver se o material está limpo e desimpedido. Tudo bem. Faz logo o serviço que a fila já está lá na rua. Vem com a mamãe, vem. Upa, upa neném!!!

- Uhuuuu! Todo mundo feito? Agora correndo pro parque.

- Joga esse álcool logo antes que seque.

- Ahhhh!

- Minha vez. Ahhhh!

- Nossa Senhora, isso arde....uuuuiii!

- Amanhã matinê de novo?

- Eu vou.

- Eu trago o álcool.