quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Papo mole beira-mar



Jorginho é taxista legítimo: folgado, cabeleira branca e barriga farta, boa praça, poliglota, puxa conversa até com surdo-mudo e conta histórias clássicas do cotidiano do Rio. Lábia afiada leva, na maciota do banco traseiro, a fauna e a flora carioca.

Trabalha de segunda a domingo e de sol a sol. Ano novo entra em recesso. Encosta o amarelo na garagem do apartamento da mãe na Praça do Lido para passar a virada com a família; bem longe da lei-seca. No festão de 2009/2010 Jorginho manteve a carteira de motorista no bolso da bermuda só para não se sentir pelado e, quase na hora dos fogos, decorou os chinelos com areia e sentou de frente ao mar para levar aquele papo cabeça com Iemanjá. Negociou as posturas para o ano que prometia a saúde dos seus e as boas corridas, reclamou – de leve – das intempéries pessoais, do síndico, do trânsito, dos preços, todos loucos do ano moribundo. Empolgado, cobrou mais ação da Rainha do Mar diante de tanta bagaceira ocorrendo no mundo. A Senhora pode fazer melhor, incentivou. Súdito assumido, não querendo ser desrespeitoso, mas firme, comentou com a Soberana que 2009 foi muito quente, o mar esteve indócil boa parte do ano e na outra fedendo a merda. Alguns peixes sumiram das redes, pinguins argentinos bateram nestes costados e plantas, aparentemente extraterrestres, invadiram as praias. Majestade, a Senhora não pode deixar essas coisas por isso mesmo, se não vira bagunça. Sei, sei – contemporizou – têm certas coisas que cansam, principalmente depois de certa idade e com tanto trabalho e concorrência terrena. Mas os seus filhos estão aqui na praia pedindo perdão, graça e força. Não é hora de amarelar. E por falar nisso, ando preocupado com Vossa Excelência. Assisti a um filme sinistro em que daqui a dois anos a Digníssima Majestade pira geral, chuta o balde e faz a maior bagunça com o planeta. Não deixa pedra sobre pedra, derruba até a concorrência do alto do Corcovado. Querida, antes que cheguemos a esse ponto vamos relaxar, pensar positivo, sabe? Nós estamos nos esforçando, por favor, não desista destes filhos inconsequentes. Ofereça-nos a oportunidade de sair da adolescência e - quem sabe? – consertar nossos erros.

Veio uma onda hostil pegando Jorginho em cheio. O taxista levantou todo molhado, mas não perdeu a compostura e soltou mais uma: Perdão, Mãe, eu estava só pensando alto. É uma mania minha, força do ofício. Mas se quiser pensar um pouco no assunto, este humilde servo se curva.

Fogos estouram, garrafas viram, gritos e urras. Antes do fim da queima de fogos, raios dividem os céus com a pólvora. Uma tempestade torrencial cai sobre os súditos esvaziando o tapete branco de Copacabana. Os que insistem em ficar, seja pelo poder da fé ou do álcool, são finalmente afugentados por ondas que apagam velas e enterram Cidras. Jorginho vê todo aquele alvoroço e pensa com seus chinelos: Eu e minha boca grande...

sábado, 19 de dezembro de 2009

O dia de Opílio


Opílio é o “cara”. Turma do deixa - disso, fala de veludo e pele de ébano. O sorriso conivente de anjo contrasta com os dois metros de altura com um de envergadura. Diga-se de passagem, porte totalmente desnecessário diante dos inúmeros pré-requisitos preenchidos de um tijucano culto, elegante e contido.

Ocorreu que, naquela segunda-feira, Opílio entrou pela rua em que morava especialmente sem disposição para grandes ou pequenos debates, doido para tomar um banho e esticar o esqueleto diante da TV. No entanto, pressentiu com um arrepio na nuca, de que a noite seria longa. Não deu outra: em frente de casa viu, logo de cara, um Mercedes deitado sobre o seu jardim, entre eles o portão do lar todo contorcido. O “artista” tinha sumido deixando sua “obra” abandonada.

Opílio não se fez de rogado. Certo de que o “artista” voltaria na madrugada para remover a “instalação modernista”, camuflado pela noite tórrida, sentinelou-se numa cadeira de praia ao lado do carro e esperou. Não deu outra. Duas horas da madruga o malandro aparece cheio de disposição para retirar o veículo à surdina. Opílio, com tom de voz de dar inveja a Papa santificou:

- Olha só. Às sete horas da manhã de hoje quero você aqui com um pedreiro e um ferreiro para consertar o meu portão. Às sete e quinze, se o senhor não estiver aqui, vou ficar um pouco irritado e rasgarei o primeiro pneu dessa belezura. Às sete e trinta rasgarei o segundo, e assim sucessivante. Às oito, hora do meu sagrado banho antes de ir trabalhar, incluirei no rol dos ex-pneus até o estepe.

- Pelo amor de Deus, moço, não faça isso. Dá prá notar que o carro não é meu, né? Meu pai vai me matar.

- O pai é seu, mas o portão é meu. Está perdendo tempo precioso...

O homem sai correndo em desespero.

Às sete e quinze a moto-serra fatia implacável o primeiro pneu. Sete e trinta, serra ligada, o Zé-mané aparece com duas almas remelentas. Opílio perguntou pelo material para a obra. Nada. Vieram só avaliar para mais tarde voltar. A vizinhança, formando arquibancada nas muretas, conhecendo bem os atributos do vizinho, não teve dúvidas. Lá vai mais um pneu. Dito e feito. A galera aplaude. Em prantos o “artista” ajoelha-se e promete tudo pronto até o fim do mês. Proposta errada. Opílio entrou em casa e voltou com um bujão de gás numa mão e um maçarico na outra e sentenciou:

- Chega de papo, vou explodir essa porcaria toda e vai ser agora!

Foi um corre-corre dos diabos. O “artista” também tentou correr, mas Opílio segurou-lhe pelo cangote e olhou dentro daqueles olhos rasos de cagão. Na mesma hora o filhinho-de-papai começou a soltar a língua e o bolso. Quando o valor ofertado pelo moleque, de livre coração aberto, chegou ao bastante razoável, Opílio recebeu educadamente em dinheiro, agradeceu, devolveu as chaves do veículo e mandou o traste embora desejando boa viagem.

Nunca pensou que aquele bujão vazio e maçarico quebrado seriam tão úteis um dia. No Natal, a casa de Opílio era a mais bonita da rua. Portão novo, pintura nova, e sobrou até uns trocados para instalar um pisca-pisca na roseira do jardim.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O bom samaritano


- Tio, dá um trocado prá comprá um lanche.

- Trocado é o cacete! Não tenho inteiro e nem trocado. E se tivesse não te daria, seu bosta!

- Que-que-é-isso, tio? Tô só pedindo.

- E já está me ofendendo. Sabia que você não era para existir? Pago imposto para que não tenha que ver coisas como você. Vai lá na Prefeitura, no palácio do Governo, não me interessa, vai lá pedir dinheiro para a puta-que-te-pariu; se é que você sabe quem foi. Vaza ou te encho de porrada.

- Eu sou de menor.

- Está na cara. Menor inteligência, menor saúde, menor limpeza, menor futuro. Ô aberração, tua mãe não te abortou por falta de grana. E não me olha com essa cara de gente que você não me engana.

- Tio, paga uma empada então.

- Mas você não vale nada mesmo. Nem vergonha tem.

- Tenho sim, senhor. Tanto faz. Só quero comer qualquer coisa.

- É. Parece que o merdinha está com fome mesmo. Aí, garçon, traz uma coxa de frango no papel para este infeliz. Agora, moleque, desaparece da minha paisagem antes que eu me arrependa.

- Valeu, tio.

sábado, 5 de dezembro de 2009

No negativo é mais gostoso



Devendo na padaria, na farmácia e no boteco, Lindinho das Beiradas, somada a ordem de despejo, começou a pensar na remota hipótese de procurar trabalho. Mas foi uma ideia que, graças ao bom Deus, passou logo quando tentou tirar no fiado cópias do currículo e o velho do armarinho fitou-o e, por cima dos óculos, pediu pagamento adiantado. Percebendo que seu crédito na praça encontrava-se sensivelmente comprometido, Lindinho não se intimidava, pedia aos amigos e familiares e pagava com eletrodomésticos velhos em troca de comida, o que na verdade não pagava nada. Depois de detonar os limites de cheque especial em três contas bancárias, partiu para o genocídio dos cartões de crédito.
Agora sim, oficialmente falido, resolveu caminhar na praia e fiscalizar o ir e vir das ondas e o planar das gaivotas. Questionou-se, pela primeira vez, como conseguira torrar toda a indenização trabalhista e ainda ficar devendo a meio mundo em apenas três meses. Para uma empreitada dessas tem que ter vocação, não é coisa para qualquer um...
O céu se iluminou, anjos cantaram, sinos repicaram, eureca!
Com a publicação de seu livro “Como falir em três meses: métodos e projetos passo a passo”, Lindinho das Beiradas fez seu pé-de-meia e, para honrar a fama, torrou tudo de novo em três meses.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Caldo Verde



Chegou ao restaurante de estimação seco por um caldo verde. Pediu no capricho. Veio batata processada com três fiapos de couve. Virou bicho. Chamou o gerente, bateu nos peitos, exigiu explicações, desculpas e uma porção extra de couve. Não foi atendido em nada; isto é, quase nada, pois a conta chegou certinha. Sorveu o caldo de batata reclamando entre os dentes. Não houve nem um plus a mais de couve. Não pagou os dez por cento e saiu decidido a difamar o recinto gastronômico. Jurou vingança e jamais recolocar os pés naquela espelunca. Sentia-se humilhado, traído, um merda.
Escreveu uma carta mal criada para os principais jornais da cidade convocando o povo a um levante em massa contra o desrespeitoso restaurante. Sua vingança não teria limites até que as portas do estabelecimento fechassem por estar às moscas.
Quando a carta foi publicada, veio junto o pedido de desculpas do restaurante, que vai reforçar o treinamento da equipe e blá, blá, blá...e volte por nossa conta!
Todo o ódio diluiu-se numa cambuca de caldo verde gratuito.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Do lado da caixa-preta



- Eu não gosto de viajar de avião.
- Quase ninguém gosta. Eu adoro.
- Sei lá, me dá uma gastura, um frio no esqueleto que vai da nuca até o pino da caçoleta.
- É só relaxar e curtir a paisagem.
- Se eu relaxar eu vazo.
- Tenta ler a revistinha de bordo.
- Dá uma tonteira danada.
- O tempo todo?
- Não, só quando eu pisco. Preciso conversar. Que tal acidente aéreo?
- Credo. Não acho apropriado.
- Interessante né? É a única coisa que me acalma; falar sobre turbina explodindo, identificação de corpos, busca da caixa-preta, essas coisas. Mas o que me deixa tranquilinho mesmo é papo de turbulência e tempestade. Lembra daquele avião pulverizado no Atlântico?
- Sei. Tragédia. Sofrimento.
- Pois é, toda vez que entro num avião fico pensando ser meu último voo. Na verdade sonho ser o único sobrevivente, salvo milagrosamente pelo assento flutuante. Depois as entrevistas, escrever um Best-seller e - quem sabe? - até um filme em Hollywood.
- Não acredito que seu sonho se realize neste voo. O céu está limpo. Tudo está bem.
- Nunca se sabe quando o comandante erra o plano de voo, ou um parafuso dos flats fica gasto, ou o trem de pouso emperra.
- A manutenção é rígida e o treinamento constante.
- Errar é humano e esses aeronautas trabalham sob pressão.
- O senhor parece meio pessimista.
- Realista. Estudo o assunto, mas entendo a inocência dos leigos.
- Sou otimista. Estudo as pessoas e o senhor é muito chato.
- Aeromoça, socorro! Quero trocar de lugar. Este senhor está me incomodando.
- Eu? Não sou eu que tenho medo de voar e também não tenho uma nuvem negra sobre a cabeça.
- Por favor, moça, seja rápida. Eu não estou me sentindo bem. Quero ficar no rabo do avião, do lado da caixa-preta.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sem culpa



Não adianta insistir. Não carrego a culpa dos judeus nem os pecados dos católicos. Nunca fui perseguida como os palestinos nem escravizada como os africanos. Não fui vítima de preconceito, maus tratos e desconheço humilhação. Conjugo verbos intransitivos com gays e homofóbicos. Cultivo machistas e feministas no meu jardim que crescem a olhos vistos. Bebo um mixproteico de militantes esquerdistas com militares torturadores no café-da-manhã. Com padres e ateus tempero minha sopa de legumes. À minha mesa farta são bem-vindos analfabetos e intelectuais, desde que não me encham o saco com abduções, catequeses e verdades absolutas. Bebo a abstinência e fumo a culpa alheia. Para quem se importa, estou rindo por baixo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Canto para Anita



Morava em uma frondosa árvore na Rua Senador Corrêa. Tudo ia bem até que, no primeiro dia de verão durante uma tempestade magistral, caí do ninho. Não estava pronto ainda. Todo molhado, me vi tremendo no batente de um salão de beleza. Fiquei um tempo andando e piando por ali, já que voar ainda não sabia.
De repente, mais do que de repente, apareceu uma vassoura. Pulei em cima e logo me puxaram para dentro. Tinha um monte de passarinha gigante piando muito. Fiquei meio tonto e depois de um tempo, já estava com minhas garrinhas pintadas, uma de cada cor. Ficou legal, e resolvi ficar por ali mesmo.
Chegou o Natal e, enfim, minhas asas e cauda cresceram; foi uma grande festa no salão: deram-me banho de creme hidratante, para as penas, finalização com gel. Não tinha gaiola porque alguém falou que rouxinol não se cria preso. Então, era livre para voar no salão inteiro.
Muita gente, ciente, criticava alegando que eu estava preso quando deveria estar cantando livre numa árvore, no Canecão ou - quem sabe? - no Rock In Rio in Lisboa... Grande engano, eu não queria sair do salão, era muito divertido conversar o dia todo, sobrevoar os secadores e pousar no ombro de minha bem feitora. Ah!! Com a Anita não tinha tempo ruim, nem dela e nem dos outros. Mulata feiticeira de cara limpa brilhava como o Sol: para todos. Tinha a mania de dar lembrancinhas só para deixar mais claro ainda que, em algum minuto daquele seu iluminado dia atribulado, pensou naquele ser: você.
No final do dia, depois de transformar muitas cabeças ocas em luz, em vez de descansar, Anita pegava o violão para dedilhar uma canção comigo. E assim eu dormia no seu ombro.
Quando Anita estava triste, só eu percebia; quando alegre, até as cortinas comemoravam, tinha até roda de samba. Anita tinha um olho mágico na testa que a tudo via e sentia. Só quem a pegava para Cristo sabia que aquele olho, parceiro, chorava junto e a todos entendia.
De vez em quando, quando a porta abria, eu olhava para o lado de fora do salão. Via as árvores e um arrepio esquisito lambia minhas asas. Durava só um instantinho, mas Anita, com seu olho mágico, a tudo percebia: Esticou seu pequeno dedo indicador para que eu subisse e falou:
- Fala logo, meu roxo, quando você vai?
Nunca, minha flor, nunca!!!
Ela sorriu, me beijou a testa e me colocou na janela aberta para a árvore. Ouvi o canto dos pássaros, as folhas conversando e o vento fazendo bagunça. Quando percebi, já estava em um galho cantando, gritando. Lá de cima vi Anita apagar a luz do salão; saiu pela porta sem olhar para cima.
Fiquei ali no frio, sem Anita, com gente estranha...
Acordei cantando a música do violão de Anita. Em poucos minutos, vários passarinhos pararam ao meu lado para aprender a música de Anita. E cantamos juntos para Anita naquele dia, e no dia seguinte, com Anita, sempre enfeitada como surpresa de passarinha: um colar combinando com a blusa ou o cabelo, uma saia nova, uma palavra viva para os suicidas; ou mesmo, uma história engraçada da família que amava e guardava sob suas asas quentes.
O que se comentava era que, quando Anita pegava seu violão no final do dia, vários rouxinóis se perfilavam na janela para acompanhá-la. Só eu sabia que Anita tinha um rouxinol encravado em seu peito.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Tô passando



- Sabe aquele cara que me passou o celular na boate?
- Claro! Gatíssimo!
- Pois é, passei.
- Jura? Conta! Conta!
- Passei adiante. O cara é um mala. Passou um tempão falando dos dotes culinários e santidades da mãe. Quando mudou de assunto, diante de minha cara de paisagem, quis saber mais de mim. Até me empolguei.
- E você?
- Antes que eu falasse qualquer coisa ele perguntou qual o meu time. Quando respondi que não tinha, ele passou meia-hora tentando me converter ao vascainismo.
- Ninguém merece...
- Pois é, menina. Tentando salvar a noite falei que gostei da camisa vermelha dele. Prá quê? Ele desembestou: disse que sempre usa vermelho para combinar com a cor do carro; que ele fez questão de salientar que era um Audi, com roda de magnésio liga-leve...
- Liga-o-quê? Tipo leite de magnésia?
- Sei lá, deve ser. Um carro supermegaultra um monte de coisa e blá, blá, blá...
- Como você saiu dessa roubada?
- Quando o monólogo já beirava a calibragem dos pneus da Formula 1, entreguei os pontos.
- Foi embora.
- Nada. Pulei em cima dele e passamos a noite num motel. Não deixei ele falar mais nada, mantive a boca dele ocupada até de manhã.
- Ai garota...
- Quer o telefone dele? Prá mim ele já deu o que podia dar. Tô passando.

sábado, 12 de setembro de 2009

Onze a nove



Primeiro a rainha do oriente derrubou a primeira torre. Sem defesa, o rei viajandão do novo mundo viu sua segunda torre ruir sobre um exército de peões aturdidos. Sua rainha descansava e nada sentiu. Os bispos postaram-se silenciosos em defesa do rei, mas recuaram diante de uma muralha estratégica de bispos adversários suicidas. O rei, à frente da opção de salvar sua rainha e o restante de seu povo deitando-se honrosamente sobre o tabuleiro, subiu ao púlpito e jurou vingança. Num último movimento desesperado, virou o tabuleiro fazendo com que seus homens e adversários embolassem numa única estatística. Enquanto isso, o rei do oriente comemorava nas montanhas. A partida acabou sem que restasse em pé uma peça de testemunha. Pretas e brancas jaziam entre os quadrados manchados pela batalha. Só quem ganha é a guerra porque, para os reis, o jogo nunca termina.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Saiba que as coisas não são tão simples assim


Saiba que as coisas não são tão simples assim. Um dia você está aqui, no outro não. Você acha isso simples? Pois não é. Não estar aqui é obvio que não é simples. Só em não estar cá há a hipótese de estar em qualquer outro lugar ignorado ou não estar em lugar algum; o que é muito grave. Estar aqui já configura um fato extremamente complexo. Exige matéria, consciência e testemunha. Só esses três pré-requisitos já complicam a coisa toda.
Pode ser romântico, mas você não pode estar em um ambiente saudoso só em pensamento. Esquece então aquele papo cabeça de tele-transporte, sexto-sentido, etecetera e tal. Sua matéria é uma massa cansada e pesada que tem limitações existenciais: precisa estar inteira para ser considerada presente.
Também não basta estar materialmente aqui. É preciso saber que está aqui. Os paralelepípedos podem ser vistos, mas não estão aqui. Nunca soube de um paralelepípedo que questionasse se sua vida seria melhor se estivesse encravado em uma avenida arborizada e não numa rua residencial sem saída. Isso seria difícil de solucionar. Os alienados, os chapados e os executivos sim, sempre sabem onde estão: perdidos; logo, estão aqui.
Por conseguinte temos o principal argumento de que estar aqui é uma verdadeira equação quântica. Precisamos de testemunhas. Não basta preencher o espaço físico, não basta ter a consciência da ocupação, você precisa de provas. Sua palavra não basta, até porque a palavra não está aqui, não tem matéria, lembra? Você precisa, para estar aqui, de outro alguém material e mentalmente presente. Do contrário, nada feito. Você não está aqui. Você não é.
Eu falei que não era simples.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Pequeno momento carioca



 Mulher! Liga essa água pelo-amor-de-Deus que eu estou todo ensaboado!
 Ih, homem... Parece que a caixa está vazia.
 Traz um balde, então.
 Nadinha.
 Do filtro. Tira do filtro que eu já estou tremendo e todo ardido nas partes.
 E eu vou cozinhar com o quê?
 E eu vou trabalhar com o cabelo duro e todo escorregando?
 Passa a minha toalha que está úmida.
 Que m@#&erd@ é esta? Um copo d’água?
 Metade para escovar os dentes e a outra para enxaguar as partes.
 E a barba?
 Faz à seco e passa álcool.
Vestiu o uniforme, pegou o engarrafamento de rotina. Descendo do ônibus pisou em titica de cachorro. Chegou ao escritório suando espuma de 40° à sombra. Correu para o banheiro para lavar o sapato e enxaguar a cara. Passou a mão no cabelo duro, olhou pela janela a baía da Guanabara rindo aos pés do Pão-de-Açucar e pensou : Que cara de sorte eu sou.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Os maravilhosos domingos de Constantina



Todo domingo tem feira de artesanato e chorinho na Praça São Salvador. É muito colorido e alegre. Nunca para Constantina que cultiva críticas ao belo como se fosse um vaso de espinho raro.
Caipirinhas com frutas exóticas, crianças correndo aos berros, velhos jogando dama nas mesas de granito, pula-pula, pipoca, fotografias antigas, livros raros, bolsas bordadas e tudo o mais muito caprichado. Com toda essa felicidade latente, Constantina sai de seus aposentos, também todo domingo, só para implicar. Sem um centavo se quer na bolsa, pergunta preço só para reclamar que está caríssimo para camelô que nem paga imposto. Estranha um objeto, ao saber se tratar de uma luminária diz ser a coisa mais feia que vira em sua longa vida. Abre caminho entre as pessoas à bengaladas resmungando que ninguém mais respeita idoso. Manda o chorinho tocar Ataulfo Alves e não aquela porcaria. Xinga as crianças de mal-educadas porque os pais ficam enchendo a cara em vez de domar aqueles monstrinhos. Abana fumante fingindo falta de ar, vê bolor em empada fresca e mosca em água-de-coco. Feita a rota oficial do mau-humor, escolhe sua vítima solitária. De preferência que esteja com um sorriso idiota na cara.
Começa falando do tempo. Muito calor. Dorme mal. Se a vítima reagir observando que o céu está lindo é porque vai chover. Ilustra com a constatação de que, com esse tempo maluco, morre muita gente de gripe de porco, de galinha, de gente e até de mosquito. Sem contar que a violência está aí. Ontem mesmo mataram um menino com um tiro na testa. O mundo está perdido. E não adianta disfarçar com essa gente toda na praça e nenhum carro de polícia. A qualquer momento vem uma bala perdida e puf, acabou. Se eu fosse você não ficava com esse celular dando mole. Aqui é muito perigoso. Hoje em dia está todo mundo assim, doente. E por falar nisso, rapaz, você parece meio abatido. Já vai? É isso mesmo, vá para casa que é mais seguro e tome um copo de leite quentinho.
Triunfante, Constantina olha para o céu e comenta entre os dentes: Eu falei...vai chover, e muito!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sobre a solidão das rosas



Marlene mora sozinha e trabalha na biblioteca desde sempre. Acorda tarde porque dorme e labuta até o fim da noite. E também porque não tem um bichinho para alimentar ou para brincar ou para ficar olhando. Todo sábado vai à feira comprar víveres e rosas vermelhas que ninguém mais, além dela mesma, verá sobre a mesa da sala. Todas as noites senta-se à mesa admirando as pétalas ao som de jazz regado à vinho tinto seco. Escreve num caderno florido suas impressões sobre o mundo que nunca serão lidas. Compra bens que jamais serão aproveitados por ela ou por herdeiro algum. Limpa a casa somente para que o vento suje.
No trabalho conheceu Anselmo, frequentador diário da biblioteca. Conversam pouco, só sobre os livros a serem consultados. Com o tempo Marlene foi desenvolvendo um carinho especial por aquele homem sério, contido e elegante que sempre trazia uma rosa vermelha na lapela.
Num dia de ousadia, comentou que amava rosas vermelhas e que sempre as tinha em casa. A partir daquele dia Anselmo passou a dar-lhe a flor da lapela diariamente.
Ela apaixonou-se perdidamente. Passou a arrumar-se com esmero. Batom, esmalte e decote discreto. Perfume leve. Tudo harmonioso com o coque elegante. Desde então, abominava os fins-de-semana. Não mais comprava as rosas aos sábados, arrumava sobre a mesa as rosas murchas presenteadas pelo amado. Escrevia poemas melosos e acordava segunda-feira ansiosa pelo encontro.
Um dia Anselmo não apareceu. No outro dia também não. Nem na semana, nem no mês, nem no ano seguinte. Marlene definhava a olhos vistos em seu silêncio inodoro. Enfim criou coragem. Pegou o cartão da biblioteca de Anselmo e ligou para o telefone. Ninguém com esse nome. Endereço inexistente.
No sábado Marlene comprou rosas vermelhas, vestiu-se de negro e foi para o cemitério São João Batista. Depositou as rosas no túmulo mais bonito que encontrou, abraçou-se à lápide e chorou copiosamente até o sol se por.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Conselhos contemporâneos


Não beba álcool ou refrigerantes não fume não coma carne vermelha ovo cru nem frituras nada de massas ou molhos e procure relaxar cuidado com alimentos ácidos não brigue não grite não faça ou diga nada que possa vir a se arrepender depois e não guarde mágoas não seja sedentário e nem peque pelo excesso de exercícios evite lesões não durma pouco e nem demais não deixe para depois o que pode fazer hoje e curta o ócio tenha um tempo para você sem jamais ser solitário mantenha-se atualizado e atenção para não se viciar em jornal e internet cuidado com a vista use óculos escuros protetor solar esfoliante creme hidratante mas não deixe de pegar sol para sintetizar as vitaminas cuide bem dos seus joelhos mantenha os exames preventivos em dia e siga todas as orientações médicas não use cotonetes sempre mas use-os regularmente economize água energia não suje o planeta e não esqueça de tomar banho diariamente não use sapatos desconfortáveis mas não ouse comparecer a uma reunião importante de chinelos seja simpático sem ser babaca seja equilibrado sem ser esnobe seja observador sem ser tímido e tímido sem ser idiota obedeça rigorosamente essas pequenas regras e/ou morra mais cedo ou mude-se definitivamente para um sítio em Sana.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O mar de Beth


Cada um que chegava, batia seu ponto e sentava imediatamente à bancada de trabalho. Com o consumo das horas, o falatório aumentava cada vez mais. Beth não se estressava, nascera para o SAC. Atendia cada consumidor como um destemido salva-vidas. Lançava-se em ondas gigantescas para resgatar um direito perdido ou uma informação afogada. Sabia ouvir o desespero sem perder o controle da maré. E ainda guardava fôlego para, ao final, reanimar o cliente com massagens no ego e soluções salvadoras. Nunca perdera uma vida, isto é, um cliente. Tal qual heroina de guerra, mantinha as inúmeras condecorações penduradas no lado esquerdo do peito.
Em sua primeira ligação do dia, sentiu a maresia gelada do outro lado da linha:
- Bom dia? Só se for prá você!! Quero encerrar a minha conta agora e não aceito argumentações. Não ouse desligar ou transferir esta ligação para o setor X, Y ou Z, pois anotei seu nome, cara Beth! Fui claro?
- Muito claro, senhor. O senhor gostaria de...
- Eu avisei mocinha. Quero falar com sua supervisora agora. Vai, vai chamar.
- Mas senhor eu só per...
- Você é idiota ou se faz? Isso não vai ficar assim!
Pipipipipi...
Pronto. Já tinha seu primeiro cliente perdido. O restante do dia passou em turbulentas ondas intransponíveis. Sentia as vidas afundarem na espuma das ligações truncadas. Por mais que tentasse sair da rebentação, seus braços foram adormecendo e não mais conseguiam nadar no apertado fio telefônico. Levou tanto caixote nos ouvidos que as vítimas sumiam nas águas turvas sem que Beth as alcançasse.
No final do dia, sentia tanto frio que as mãos tremiam ao bater o ponto. Estava destruída. Com os olhos marejados, foi para a praia conversar com o mar. Pensou longamente com as lágrimas voando e imaginou o quanto estaria gelada a água. Aproximou-se da beira, tirou os sapatos, o casaco e largou a bolsa. Parou. Pegou um punhado de areia branca e guardou no bolso do jeans. Sorriu e falou sem medo para o oceano: Levo a lembrança da batalha hoje perdida para não me esquecer de ganhar a guerra amanhã!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O carcará de pés azuis



Batizou o filho com nome nobre: Artur, o rei, não teria futuro semelhante aos seus; nascera para ser grande. Em que? Não interessa, Deus sabia, avisou.
Foi numa alvorada abafada que, Maria, sôfrega, trincou os dentes no paninho e expulsou o rebento do paraíso. Quase não sangrou e, ao ver a luz, Artur chorou.
O pai olhou pela janela e viu o céu cor-de-rosa paralisar as folhas do cajueiro, de susto. O carcará espreitou a moita, inerte, calculando o sabor da presa. Antes que a nuvem soçobrasse na caatinga, um assovio de assombro virou vento embolando a cortina de chita, assustando as moscas posseiras do cão esquálido que dormia ali, na sombra de qualquer coisa parada.
A ventania veio no maior vexame: corre daqui, corre dali, tira a roupa e o charque do varal, bota as crianças pra dentro e fecha a porteira cacarejada das galinhas.
Era o aviso.
O pai, mais que depressa, pegou Artur entre as mãos rachadas e o ergueu aos céus para ser abençoado. O Celeste arrancou de Artur o cueiro em fúria e, se não fosse a força das mãos paternas, teria levado o pequenino para Sua casa. Mas ele ficou, e não chorava mais.
Os pingos começaram a cair fazendo na terra esturricada um barulhinho oco de soco em porta de pau-de-fé. Um atrás do outro, foram encharcando o sertão de brilho; fazendo poça, riso, charco e vida.
Como começou, parou o tempo cansado deitando na roça de feijão-de-corda. O dia nasceu assim, satisfeito e abundante.
Artur, missão cumprida, mamou e dormiu sobre o seio suado de sua mãe.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Pequeno poema pueril: pobre poeta


Pesco palavras perdidas
Próximas ao perpétuo padrão
Pelo paradoxo prolixo
Peço perdão
Perto das pendências
Peco pelo pontual pedaço provocador
Pendente na persona palhaça pestilenta
À pedra e à pá persigo
A prosa prostituída, parto
Para a paródia proscrita
Presa perene das patas
Provocadoras do peito pétreo
Paro e penso pouco
Pois provo a parcos pingos
A promessa de paixão

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Sonrisal extra



Tem cara de vaca e boca de amendoim. Atende a todos na velocidade de uma preguiça e o olhar simpático de uma sucuri. Atencioso com os clientes, cumprimenta com uma gargalhada de hiena e um tapinha de urso nas costas. Sua pele de jaca harmoniza-se perfeitamente com as orelhas símias. O corpo, inspirado em uma cruza de peixe-boi com tartaruga, aparentemente só é capaz de mover a cabeça, as mãos e os pés. Mantém as garras felinas cravadas no balcão enquanto a vítima decide se sai correndo ou pede um Sonrisal extra. Quem entra pela primeira vez na farmácia de Seu Manfredo precisa ser preparado para o que vai encontrar, do contrário perderá a oportunidade de conhecer a pessoa mais gentil e honesta posta no mundo. Em seu coração jubarte cabe toda a cidade e quando alguém morre, Seu Manfredo uiva de dor junto ao caixão. Frequenta todos os casamentos e batizados, sempre aprumado como um pavão sequelado. Faz curativo na molecada e dá injeção de graça nos velhinhos. Nasceu para servir. Todos o adoram, mas toda noite o homem se olha no espelho. Sempre sozinho.

sábado, 4 de abril de 2009

A princesa e o poeta


Nestor apresenta-se como poeta prolífero e radical, mas nos últimos tempos anda carente de musas inspiradoras. Vagando cabisbaixo pela Rua Bento Lisboa, por descuido, entrou no aviário. Parou diante da gaiola e viu-se arrebatado pelo olhar de uma galinha cor de mel. A penosa gritou e Nestor arrepiou-se todo. Foi amor à primeira vista. Comprou o bicho e correu prá casa ofegante.
Batizou a ave de Princesa e passou a tarde toda assistindo a diva ciscar no tapete. À noite, com o apartamento já todo cagado, o poeta começou a escrever seu poema épico galináceo. Varou a madrugada digitando os versos sofregamente enquanto a mascote dormia no sofá. Desencanara, estava de volta à velha forma. Como não pensara nisto antes? Uma galinha princesa!
No dia seguinte, para comemorar com os amigos o triunfante retorno da inspiração, preparou Princesa ao molho pardo.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Amor, enfim


Aos 86 anos ainda sente no vento o perfume do amado. Fala dos gostos do homem e, feliz, anuncia os 57 anos de casada. Que homem maravilhoso! Declara. Lembra da mão máscula e gentil segurando-lhe a nuca, deitando-a levemente antes das núpcias. As flores de jasmim roubadas e arrumadas na lapela. Os beijos, os partos, a casa, as festas, a jura eterna e a luz da vela. Vê o sorriso dele no filho e a determinação na filha. Cultiva esse amor todos os minutos em que a natureza lhe reserva de lucidez. Pede um peixe ao molho de camarão como o amado fez há 50 anos naquelas últimas férias de verão. Leva a mão inchada e trêmula aos lábios, acaricia-os como se seus dedos não fossem os próprios a digitar a pele murcha. Olha para o céu e geme baixinho: Estou aqui, amor, me leva...

Tomate e o anel


“Óia o picolé Colegial aí ó!”. Assim passa Tomate do forte do Leme ao forte de Copacabana, pelas areias escaldantes, indo e voltando do nascer ao pôr-do-sol. De pele originalmente branca, de tanto curtir ao sol ganhou o apelido. Gosta de catar objetos esquecidos na praia que pendura em um cordão no pescoço. Tem anéis, pulseiras, lacinho de cachorro, forminha e pá de brinquedo e qualquer coisa colorida ou brilhosa que encontrassem seus pés na areia.
Semana passada Tomate tropeçou num anel prateado com uma pedrona de vidro. Achou lindo e pendurou em local de destaque: no meio dos peitos. Não andou nem dez metros para que uma mulher aos gritos apontasse para ele:
- Ali! Ali!
- Calma, picolé Colegial chegando!
- Meu anel! Ele roubou o meu anel!
Chamaram a polícia. Juntou gente, salva-vidas, vendedor de milho, surfista, jogador de altinho, cachorro e o escambal para defender Tomate, que já declarava:
- Roubei nada, achei tudo.
- Seu policial, o anel sumiu do meu dedo!
- E apareceu no dedão do pé deste Tomate aqui que vos fala, autoridade...
- Eu quero o meu anel!
- Qual deles, madame? Pode escolher!
- O de platina com a pedra de diamante.
- Este bonitão aqui? A senhora tem muito bom gosto prá se vestir quando vem prá praia. Benza Deus...
- Policial, prenda este homem e vamos para a delegacia registrar a queixa.
- Por quê? Eu? O Tomate? Preso?
A zona na areia foi completa. Todo mundo falando ao mesmo tempo. A polícia puxando Tomate de um lado para a viatura e o povo puxando Tomate para o lado da areia aos gritos de “Solta o Tomate! Tá machucando o Tomate!”. Guerra de areia, picolé, milho e cacetada giratória para quem mantivesse as fuças no caminho. Quando conseguiram algemar Tomate, a turba voltou-se contra a senhorinha que leva anel de brilhante para lavar no mar. Jogaram tanta areia na coitada que, antes que fosse enterrada, desistiu da queixa, pensando melhor, ela começou a achar que é bem provável que tenha perdido o anel.
Dessa Tomate escapou.

Prosa vice-versa


Helô não admite ser chamada de mãe de juiz ou vagabunda, diz ter apenas uma essência ordinária. Mora há cinco anos com um companheiro fiel e trabalhador que, compreensivo, sabe da natureza arbitrária de Helô e a sustenta com orgulho. Ela declara amor eterno ao “Seu Corninho”, como ela mesma o chama carinhosamente, mas que na hora do sexo gosta mesmo é de mulher com bundão; embora dê o rabo pro maridão uma vez por semana a título de prêmio. É homem bom e de poucas palavras e taras. Muitas tem ela, o que não é segredo prá ninguém; nem para a filha adolescente que vê na mãe uma mulher honesta. Ninguém duvida. Helô fala a verdade o tempo todo. Poucos aguentam tanta desfaçatez. É mãe de família zelosa e dona de casa caprichosa. Faz questão de mostrar a foto do “Seu Corninho” e da filha no celular ao mesmo tempo que belisca a bunda de uma morena distraída. Fala alto, cospe no chão, joga bola e porrinha com os amigos do bar. Tem a boca carnuda de onde sai os piores palavrões encaixados em frases de efeito. Orgulha-se de não enganar ninguém, no entanto tem gente que se engana com ela. Fazer o quê?
No fundo, Helô é um homem ordinário num corpo de uma mulher honesta...Ou vice-versa?

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Eu amo você



Eu amo, amo muito. Amo os setenta anos de minha mãe, mulher guerreira e seus cabelos cor de laranja no leito de morte. Amo despudoradamente os olhos infantis de meu pai viajando indefinidamente em nuvens imaginárias. Amo sim os sábios fantasmas de minha bela irmã, as ausências do forte irmão caçula e as reticências do irmão artista reticente. Amo não, adoro, a minha terra alagoana, esturricada e estuprada sistematicamente pelo poder. Amo, amo, cada vez mais o envelhecimento luminoso de meu homem ao meu lado. Amo os meus amigos pelos simples fato de verterem a pureza bruta dos que escolhem com quem estar. Amo a minha gata dormindo, miando, lanchando pelo. Amo demais, venero a dureza pura de meu filho e seu coração explodindo em paixões. Amo todos os seres vivos, pois deles me alimento, amo a praça, a folha e o vento, meu vento que corre, corre, corre. Amo você porque me lê e também tem seus amores. Amo, não temo, amo, amo e amo cada vez mais o meu direito de amar.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Cida e a televisão


O conto Cida e a televisão foi o líder da rebelião da gaveta verde e o primeiro a obter êxito em sua fuga. Atendendo a pedidos de familiares, concorreu e está classificado entre os 10 finalistas do concurso Contos do Rio 2006. Oficialmente anistiado com sua publicação no caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, em 29/07/06.


Abrir um crediário é negócio complicado. Só por necessidade. A televisão, de imagem preta tremida e branca fora-de-foco, foi sendo invadida por um exército de fantasmas cinzas e, assim, se anunciava o fim. Assistir novela das oito com fantasma é uma coisa mas os jogos da Copa é tortura! Já pensou ver os canarinhos cinzas levantarem a taça preta? Uma TV nova seria um sonho, sonho que virou aflição quando, em plena final da Taça Guanabara, o Fogão ganhando de virada, a desgraçada vai fechando os olhinhos até ficar apenas uma linha triste de luz, último suspiro. Morreu de vez. Foi coisa de urgência abrir o crediário complicado. Sorte a patroa ser gente boa na hora da precisão. Botou o nome lá mas exigiu que fosse coisa séria, tinha que pagar o carnê no dia certo, e apresentar o comprovante a chefia. Se não, não tinha pagamento não. Estava certa ela, disse que tinha um nome a zelar. Eu estranhei, mas gente de posse tem até nome. Eu, tenho uma TV a zelar. Patroa boa ela. Ficava meio tumultuado, mas eu, euzinha, paguei toda a televisão. Graças a Santa da minha patroa, a negada lá da comunidade ia ver a Copa do Mundo em cores e bem grande, como no cinema.
Quando a Televisão completou três meses de aniversário, o canal bom das novelas, o que agente mais vê nos domingos de jogos no Maracanã, foi ficando pálido, o som mirradinho, soltou um gritinho fino e apagou; em seguida, os outros canais também se calaram. Chamei o meu cunhado, rapaz jeitoso, pra ele dar uma olhada na antena da lage. Nada. Chamei a benzedeira, vai que é urucubaca? Nada. A patroa, deusa na terra, me vendo meio borocoxô, perguntou e eu falei:
-Ela morreu, a TV!
A patroa, sábia, contou da garantia, eu não tinha que pagar nada, era só chamar os técnicos.
O homem veio, de uniforme azul, distinto, barbeado. Chegou com um papel grande, com meu nome em cima, com letras importantes. Tive que assinar, afinal era o meu nome e minha televisão. Mexe daqui, mexe dali. Tirou um monte de coisa e olhou, olhou, mexeu, mexeu, e eu ali, com pena da bichinha, toda depenada na frente de gente estranha. Fiquei mais aliviada quando ele botou a tampa e apertou o botão: Linda, cheia de vida e luz.
Para comemorar o feito, rolou uma feijoada na grande estréia do Brasil na Copa. A abertura tinha um gostinho doce de festa e logo contra aqueles gigantes vermelhos! O vizinho entrou com o torresmo, a terceira filha, ajuizada, com o arroz. O feijão, meu nego não deixa ninguém comprar no lugar dele, tem ciência. A couve, a patroa, alma imaculada, deixou incluir na feira. As carnes, a gente pega com seu Zé do Açougue que sempre vai nas nossas festas, enche os cornos e não paga nada. A cachaça e a cerveja nem precisa encomendar, alguém sempre leva.
A lage estava quente com o pagode rolando, quando, chegada a hora de assistir a transmissão ao vivo, o caçula, menino ranhento, vindo fora do tempo, sem compostura, gritou: Cadê a Televisão? Sumiu, desapareceu no meio do festeio. Foi-se. Mas como se só tem gente da comunidade aqui? Procura daqui, procura dali, nada. O pagode parou e, todo mundo foi saindo de fininho procurar onde assistir o evento. Sobrou até feijão. Depois, o vazio encardido da parede da sala, o fio da extensão balançava sem nada a dizer. Depois da louça lavada, cacos e convidados varridos, ficou o vazio cansado. A Patroa, um amor de pessoa, não entende nada de televisão que some na comunidade: Falou de Polícia, Fada, Papai Noel, Justiça e Coragem. Vindo dela a gente entende. Falando daqui e dali, fiquei sabendo que a minha televisão, por necessidade, poderia estar lá em cima, no alto do morro, entretendo os falcões que não podiam abandonar o microondas ligado e eles tinham ordem de sair só quando o serviço estivesse terminado. Coisa de emergência, ficar sem ver o jogo, nem pensar.
Não vou admitir esse tipo indecência com a minha televisão de crediário pago como suor do meu rosto. É verdade. Vou tomar satisfação com a autoridade da área: um menino forte, bonito, mas que precisa ter ciência de que mãe da comunidade merece respeito. Onde já se viu tomar televisão de gente do bem na hora do jogo da seleção? Só dando uns sopapos nele pra ver se entra no prumo. O moleque mandou eu ir prá casa descansar mas como eu não me aquietei, ele chamou os meganhas dele prá me calar.
Descansar é o caramba, eu quero a minha televisão! - Falei para a Patroa, linda, que o negócio estava difícil, sofri ameaça, saiu até no jornal que eu era meio doida querendo bater em meio mundo por causa de uma televisão que não se sabia nem se existia. Ela, mulher única, pensou, pensou, e achou melhor eu não trabalhar mais na casa dela, afinal, era perigoso, alguém poderia me achar lá e...Pah! Ela sempre pensou em mim, boa patroa. Ela me pagou todos os dias em que eu trabalhei e eu pensei, como eu tenho sorte. Tudo bem, eu não tenho trabalho mas tenho uma televisão. Não está aqui, mas é minha.
O meu caçula, o ranhento e feioso, me fez uma surpresa de encher os olhos: Apareceu no barraco com uma caixa tão grande que só dava para ver os cambitos dele por baixo. Disse que era presente. Abri a caixa e lá estava a televisão mais bonita do mundo, enorme, prateada, 29 polegadas, som estéreo e com um controle remoto cheio de botão. É verdade que ninguém, nem minha vó gagá, esperava nada daquele estrupício. Deus é pai e a ex-patroa é Santa. O meu caçula, feito numa noite úmida, bêbada, trouxe, como um príncipe encantado, a Copa do Mundo dos meus sonhos. Ele subiu na vida, agora é trabalhador. Tem ofício. No microondas, lá em cima. E nada nos faltará.

Escrever direito


Pensar e não escrever é inafiançável
Visto que tortura é crime hediondo.
Escrever expulsa e mais aprisiona
Pois se trata de pena de banimento.
Só divulgar liberta
Isto posto, transito em julgado,
Sem direito a recurso,
Voa a palavra solta.

A aula na esteira de malas


Sábado, oito horas de manhã de Sol, avisando:
- Vou chegar a pino!!
Enquanto a maioria dos nativos dirige-se em hordas às praias, cinqüenta almas acomodam-se nas cadeiras canhoto-que-se-ferre para a aula-revisão-simulado de língua portuguesa. Nos olhares vagos no teto, no chão, no ar quente e em cada testa está escrito: Por que eu matei aquela aula da tia Samaritana na quarta série? Para trocar figurinha ou para jogar queimado? Nunca saberei...Seria possível desvendar os mistérios da língua-mãe nas próximas cinco horas?
- Não desiste não! Não desiste não!
O mestre negão entrou na sala, cheio de vontade. Só na entrada, tirou metade da turma do limbo e o restante prometia. Exercício vai, explicação vem, pergunta vai, resposta vem. Sempre tem na turma uma mala que sabe tudo, antes mesmo das demais babas reticentes entenderem a pergunta, a encomenda empacotada responde tudo certo. Uma vaga já é dela. A auto-estima já no dedão, escorre para o cantinho da unha encravada. Vai ser de lascar.
Advérbio vem, conjunção vai, semântica vem, gramática vai e lá está outro ilustre representante da indústria de bagagens, imbuído de pernósticas intenções de aparecer ou fazer o mestre desaparecer, fuzilando esta:
- Olha só... Há controvérsias...!!!
Trata-se de outro tipo de mala - na verdade uma pochete de napa - inversamente proporcional à primeira representante que ostenta a alcunha de mala de legítimo couro. De porco encerado, tinindo.
Controvérsias e idiotices esclarecidas; driblada a esteira de aeroporto, o mestre segue firme em seu propósito de acrescentar luz na mina escura. Coisa de Mito da Caverna. Ele deve ter uma coleção de malas no currículo. Troço louvável, deveria ser canonizado em vida.
Hora da merenda. Pausa para desopilar o fígado porque tem mais!
Pensa bem...O cara está desempregado, devendo o cheque especial, estudando o que já deveria saber e ainda tem de administrar a concorrência leal? Deve ser pré-requisito, sei lá, a inteligência emocional tão em voga neste mundão globalizado.
- Não desiste não! Não desiste não!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Queridas latinhas


- Sabe aquele monte de latinhas fedorentas?
- O que tem?
- Estava ocupando muito espaço na estante.
- E?
- É. Vendi.
- Você vendeu a minha coleção de latinhas que junto desde o meu primeiro porre?
- Essa mesma. A estante agora cabe até livro.
- Você enlouqueceu? Não me respeita mais? Jogou toda a minha história no lixo?
- História? Você passou a vida toda de porre; não se lembra de nada mesmo.
- O que você fez com o dinheiro?
- R$25,00? Paguei o salão.
- R$25,00 por 250 latas, dezenas raras e algumas de cervejarias extintas para pagar tinta de cabelo!
- Reciclagem. Palavra de ordem do momento.
- Não posso acreditar, Ester. Todo o nosso amor, carinho, amizade reduzido a R$25,00.
- Menos drama, Abelardo, menos! Foram só umas latas velhas...
- Ester, você não consegue entender, você destruiu tudo que ainda poderia haver entre nós.
- Deixa de besteira homem, sou eu, sua fiel escudeira.
- Não, mulher. Não reconheço mais em ti uma companheira. Estou indo embora traído.
- Não esquece o casaco, está uma aragem fria lá fora.
Saiu batendo a porta e seguiu direto para o bar dividir a cerveja e sua dor com os amigos de fé. Lá pelas tantas, Abelardo se abraçou com uma latinha e foi pela rua desviando de parede, poste e meio-fio. Abriu a porta e encontrou Ester chorosa, arrependida, vestida de camisola de florzinha e bobis nos cabelos. Estava linda com as bochechas rosadas e úmidas. Jogou-se em seus braços sem soltar a latinha. Beijou-lhe a testa enrugada e as mãos ásperas e suspirou:
- Perdão, amor! De que valem essas latas diante de nosso amor?
- Não, não! Você tem razão; eu não tinha o direito...
Abelardo sorriu de olhos fechados e foi deslizando pelo corpo de Ester até desmaiar no tapete. Ester beijou-lhe os cabelos brancos, cobriu-o com um edredom, recolheu a latinha e colocou-a na estante da sala.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Lista de ódios


Quando eu tinha doze anos escrevi minha primeira lista de ódios. Nela incluí a professora de matemática rindo da minha prova e a boazuda da rua implicando com os meus peitos inexistentes. Lá figuravam as discotecas e qualquer coisa que brilhasse, a escola, os amigos (todos inimigos em potencial) e a sindica do prédio. Não poupei nem Deus e nem o Diabo, escrevi tudinho mesmo. Até mesmo calçada com pedras portuguesas porque eu odiava pisar em linhas.
Com o passar do tempo fui atualizando a famigerada lista que crescia a olhos vistos. No auge da adolescência, contabilizava mais de cem ódios, dos quais vinte profundos. Alguns ódios se mantiveram durante anos nas primeiras colocações, como matemática, ditadura militar, chocolate, anel, perfume, esmalte, dobradinha, maquiagem, apito de guarda noturno, carro, gente que grita e gente que não fala nada, mas ri o tempo todo.
Um dia, inspiradíssima, encontrei um novo ódio e escrevi sem pensar:
Odeio odiar.
Aquilo me arrepiou até o pino da caçoleta. Fiquei doente. Mesmo. Tremia de febre e insônia. Como eu poderia continuar minha sina depois de uma revelação dessa? As quatro paredes do quarto foram testemunhas do quanto eu tentei continuar, mas a danada da caneta não conseguia documentar mais nenhum ódio, muito pelo contrário, a facínora começou a riscar os ódios cultivados por duros anos. Sofrimento atroz. Ninguém sabe o quanto é difícil se livrar de ódios tão saudáveis, nutridos e bem apessoados. As lágrimas vertiam formando grandes rodelas azuis no papel manchado; tudo desconstruído.
Na manhã seguinte ao fim, acordei com a caneta na mão onde ficaria para os restos de meus dias escrevendo uma interminável lista de amores.