sábado, 5 de dezembro de 2009

No negativo é mais gostoso



Devendo na padaria, na farmácia e no boteco, Lindinho das Beiradas, somada a ordem de despejo, começou a pensar na remota hipótese de procurar trabalho. Mas foi uma ideia que, graças ao bom Deus, passou logo quando tentou tirar no fiado cópias do currículo e o velho do armarinho fitou-o e, por cima dos óculos, pediu pagamento adiantado. Percebendo que seu crédito na praça encontrava-se sensivelmente comprometido, Lindinho não se intimidava, pedia aos amigos e familiares e pagava com eletrodomésticos velhos em troca de comida, o que na verdade não pagava nada. Depois de detonar os limites de cheque especial em três contas bancárias, partiu para o genocídio dos cartões de crédito.
Agora sim, oficialmente falido, resolveu caminhar na praia e fiscalizar o ir e vir das ondas e o planar das gaivotas. Questionou-se, pela primeira vez, como conseguira torrar toda a indenização trabalhista e ainda ficar devendo a meio mundo em apenas três meses. Para uma empreitada dessas tem que ter vocação, não é coisa para qualquer um...
O céu se iluminou, anjos cantaram, sinos repicaram, eureca!
Com a publicação de seu livro “Como falir em três meses: métodos e projetos passo a passo”, Lindinho das Beiradas fez seu pé-de-meia e, para honrar a fama, torrou tudo de novo em três meses.

6 comentários:

Marilia disse...

Olá Catarina,

Esse Lindinho não é mole não, só falta ter conta pendurada na Casa Brasil. Pensando bem, acho que lá não iriam aceitar, não é ?

Bjs, Marília

Daniel Souza disse...

Que inveja desse Lindinho, hein? Haja torresmo na retaguarda pra conseguir cuspir desavenças sem culpa para a tal "sossiedadi".

Eu acho que esse candango vive ali nos arredores da São Salvador, esperando as famosas empadas caírem das mesas, o Antônio liberar um chopp na pendura ou, vá saber, alguma incauta solidária estender as mãos e levá-lo para casa, proporcionando-lhe casa, comida, cama lavada e afins, em troca de explosões na carne há muito não tocada.

É sério, eu me identifiquei, (in?)felizmente.

Uma queda pra quem ousa escarrar impropérios pros contribuintes de nossa nação.

Ah, mas quem se importa?!?!?!

Catarina Cunha disse...

Não sei não, mas acho que o Lindinho anda frequentando não só a Praça São Salvador como também o coração trocavor de muitos autênticos canalhas e o sonho das mulheres alucinadas. Lindinho, como a cigarra, enche o saco, mas faz parte da paisagem carioca.

Daniel Souza disse...

Lindinho, ao que tudo indica, nada mais é do que o reflexo da sociedade carioca, não??

Afinal de contas, chopps, praças, autênticos canalhas, canalhas fajutos, mulheres alucinadas, apaixonadas, desesperadas, cigarras e bitucas dos maridos delas, são ou não são o que sobrou pós-apagão?????

Ah, e a identificação rolou em função da ousadia exposta de -tentar? - viver desta maneira, quem sabe, dando invisivelmente na cara dos que insistem em encontrar a felicidade em troca de escravidão e não, sobre os dizeres cafajestes, as atitudes audaciosas ou coisas que - q absurdo - as pessoas insistem em achar.

E sobre o outro post, sim, além de vaticinar quedas, ostentar poses fajutas e adorar empadas e chopp, sou FELIZmente vascaíno..rs

E o mencionado em questão, andou falando falácias do meu humilde time. Portanto, na liberdade democrática e contemporânea dos moldes da rede de hoje - ou ambos os dois - foi apenas bala trocada, sabe? rs

Ivo de Souza disse...

Mais uma vez você demonstra maestria e concisão. Colocando sempre seus personagens no limite do que podem suportar da vida moderna e avassaladora do capitalismo. Todavia, a improvisação, sempre carregada num tom de ironia, faz com que eles suprem suas dificuldades e angústias, tal como acontece no conto "O mar de Beth". Desse modo a luta pela vida sempre vence. Ou melhor, tem vitórias e derrocadas, engendrando assim a dialética da existência, do se afirmar e se negar, do ser e não ser.

Parabéns!

Catarina Cunha disse...

Ufa...meus leitores estão cada dia mais soltos...Delícia! Grata, mui grata.