sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ARRASTA

A CADA ANO UM RIO
DESÁGUA EM MINHA'LMA
ARRASTANDO PALAVRAS
E LETRAS AO OCEANO,
AOS BORBOTÕES: A SAGA

A CADA RIO UM ANO
DE MINHA'LMA DESÁGUA
POR LETRAS E PALAVRAS, A SAGA
DOS BORBOTÕES DO OCEANO
ARRASTA

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Querido Papai Noel,


Suzete pendurou a meia-arrastão na janela prendendo cartão decorado com purpurina e preenchido com letra caprichada:

Querido Papai Noel,

Este ano eu fui muito gente boa. Não sacaneei ninguém, perdoei todos os filhos-da-puta que jogaram pedras no meu caminho e que mereciam morrer com uma bigorna entalada na garganta. Comi montanhas de legumes e verduras entre torresmos e chopes. Não dormi com ninguém; só fiquei aqui e ali sempre com camisinha reserva com todo o respeito, até porque só consigo pegar no sono sozinha na minha cama de solteira. Paguei a musculação o ano todo e até fui lá algumas vezes. Não tirei nenhuma vida, isto é, quase nenhuma se o Papai aí considerar grave achatar mosquitos que rondam meus ouvidos e sugam o meu sono. Engoli sapos, lagartos e aranhas e só regurgitei coelhinhos fofos. Não fiz promessas, já que é pecado não honrá-las. Tomei banho em três minutos para economizar a água do planeta. Não pulei no pescoço de uma condômina nem diante das injúrias mais pérfidas, apenas contemplei, em absoluto silêncio, sua carótida pulsante. Evitei sequestrar o jornal do vizinho, fiz o preventivo e não cuspi no meu terapeuta. É certo, e o Senhor sabe disso, enchi o saco dos que amo, mas o nobre amigo não há de negar que me rasguei toda para me redimir. Votei consciente, paguei os impostos no vencimento e não subornei nem um guarda. Não baixei nada ilegal da internet, de DVD e CD pirata passei longe, no elevador mantive o controle dos gases, não desejei morte lenta e dolorosa para o nazista do meu chefe. Não joguei papel no chão, nem quando os pés tropeçaram em montanhas de lixo. Emprestei dinheiro sem juros para os amigos, cuidei de gatos e gente de rua. Ouvi conversas idiotas, imbecis, racistas, reacionárias e execráveis fazendo cara de aquarela de marina de Búzios. Paguei cerveja para os poetas e loucos da praça. Tudo bem, devo admitir que falei alguns palavrões, mas todos por causas nobres. Ressaca não dá para contabilizar porque assim nem você aguentaria essas renas histéricas.

E agora, meu Papai Noel, em troca de todas essas boas ações peço, humildemente, que quando o Velhinho tiver um tempo entre uma chaminé e outra, deposite nesta singela meia apenas mais um ano de vida feliz ao lado dos meus.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Amiguinhas de cortina



Sebastiana ficou tonta, não falava coisa com coisa e quando esqueceu que levantou para fazer xixi e foi beber água, percebeu que era hora de procurar ajuda. Em frente à porta da Emergência, uma placa com desenho de caveira alerta: “Perigo de vida – Alta tensão”. Não deu outra, foi parar no CTI. Sebastiana não conseguia dormir com todos aqueles fios, agulhas e sons estranhos. Ao lado de seu leito uma gaveta metálica escrito “expurgo” onde vira e mexe alguém jogava coisas dentro. Gente de branco chegava, olhava os monitores por trás de Sebastiana e soltava a enigmática palavra “basal”. Tédio. Tratou de arrumar quatro amiguinhas – elas não sabem, mas são -: a misteriosa Senhora Ruth que fica fora do alcance das vistas, num lugarzinho exclusivo, muita gente entrando e saindo. Talvez seja mãe judia e rica, digna, sofre em silêncio ou está em coma profundo mesmo. A vizinha de cortina é a tia Zulmira, que só geme. Stanislaw Ponte Preta ficaria, se pudesse, chocado em saber que sua querida personagem padece de uma pneumonia vinda de Muriaé, Macaé ou não se sabe mais de onde ela é.

Na madrugada Sebastiana conheceu as outras duas companheiras de monitoramento. De tempos em tempos, Dona Paulina chama “Maria! Maria! Tô com frio” e a outra paciente, coincidência ou não, Dona Maria, responde lá do outro lado do salão “Calor, calor!”.

O enfermeiro Carlos, responsável pelo bem-estar das cinco almas, confere o cobertor de Dona Paulina, sussurra algo em seu ouvido e acaricia seus cabelos. Repete o gesto com Dona Maria; com um olho nas luzes barulhentas dos aparelhos e outro no puro delírio antisséptico.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A felicidade em bolinhas de sabão


Jaqueline, figura saltitante importada da baixada fluminense, vive sob as marquises dos prédios nos arredores da Praça São Salvador. Raquítica, viciada, coberta de doenças de pele, carrega na barriga o fruto do amor cafajeste de outro morador de rua que, dia sim outro também, enche a cara dela de tapa. Quando acorda, lá pelo meio-dia, desfila entre os “tios” e “tias” pedindo comida e cigarro. Parece um palito amarelo com uma azeitona no meio. No fim da tarde já ganhou comida, roupas e dinheiro suficiente para trocar pelas pedras de crack dela e do macho nervoso.

Os moradores sensibilizados com a situação arranjaram um abrigo para mães solteiras, com direito a psicólogo, médico, cama limpa e comida simples, porém farta. Em troca Jaqueline teria de dividir tarefas, como fazer faxina, arrumar o quarto, cozinhar, cuidar de horta comunitária e estudar. E, o pior, ficar de cara limpa. Ninguém merece. Jaqueline é pobre, mas não é escrava para trabalhar de graça.

Voltou para a rua. Saudades. Hoje tomou banho no chafariz cantando livre e feliz.