quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Chinelo azul

          

        Meio enterrou-me na areia Solar. Recebi a camiseta e a bermuda formando sobre mim um montinho abafado. Pelas tiras vi o homem entrando na água com um mergulho borboleta. Adorava vê-lo entrar no mar e sair nadando em caça deslizante ao jacaré. Depois me entediava e ficava olhando o povo passando de um lado para o outro e as crianças fazendo “castelos de areia” que mais pareciam crateras lunares rodeando dunas de estrume. No cume mais alto um canudo plástico enfiado num envelope de picolé faziam o papel de bandeira da fortaleza. Lá vem um turista ensandecido pelo calor ou pela caipirinha ou por ambos e cai no fosso do castelo. Invasão! Invasão! Gritam as crianças embolando na areia enchendo e as amídalas de areia. Depois corre todo mundo para a água para dar barrigada e sair gargalhando com zumbido nos ouvidos. Penso aqui com as minhas borrachas: essa deve ser a primeira alucinação humana de tantas que virão em suas pandêmicas vidas.

            Gosto também dos humanoides desprovidos de consciência da finitude, são descolados, inocentes e desencanados. Chegam à praia vestidos de dez reais amarrados na sunga. Dão cambalhotas mortais para mergulhar, jogam futebol, altinho, vôlei e frescobol por horas debaixo de sol bebendo cerveja e comendo torresmo ou biscoito Globo e fazendo fumaça. Contrário dos humanoides informados, colados e encanados. Trazem ou alugam barraca e cadeira, já chegam de chapéu, óculos escuros e besuntam o corpo todo de protetor solar. Carregam bolsas imensas de onde tiram canga, celular e vários objetos não identificáveis. Bebem água mineral ou de coco e comem salada de frutas. O tempo de permanência na praia é determinado pelo jornal. Acabou de ler vai embora. Muitos nem olham para o mar, o céu e seus habitantes. Dia desses um tinha acabado de montar acampamento e meu dono pediu para ele dar uma olhadinha em mim por enquanto que  mergulhava. Ele disse que não podia, pois já estava de saída. Pode um negócio desses?
             
        Nós não temos hora pra sair da praia. Invariavelmente esperamos o Sol se despedir para buscar nosso rumo e, enquanto minhas tiras aguentarem, eu voltarei. 



Leia mais: http://www.divulgaescritor.com/products/chinelo-azul-por-catarina-cunha/