quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O peru de Valdirson



O contínuo Valdirson ganhou um peru congelado e temperado do pessoal do escritório. Veio com cartão do Papai Noel desejando Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Só não dizia o que fazer com aquele bicho.
Pegou o trem da Central com o peru pendurado na mochila. Quando começou a pingar o povo pediu para ele desencostar aquele peru gelado e Valdirson achou melhor manter o peru abraçado aos peitos para não incomodar ninguém. Chegando na pensão, onde aluga uma cama, pediu para a senhoria guardar no congelador. Ela não tinha espaço nem no congelador muito menos no coração. Ele pensou o que faria com aquilo, nem família tinha. Acharia alguém para comer o peru com ele. Alguém iria acabar convidando para uma ceia; e ele entraria orgulhoso com o peru. Até ser convidado Valdirson precisa guardar na geladeira se não estraga. Saiu abraçado com a ave sentindo o coração molhado. No boteco do Seu Nonô bebeu um café com leite no pendura e deixou o peru no prego. Ganhou tempo. No dia seguinte não conseguia pensar em outra coisa, só no peru. Na fila do banco olhava as pessoas e imaginava se seriam dignas de comer o seu peru. Ninguém a altura. Pensou em fazer uma visita a tia em Campos, fazer bonito chegando com o peru. Ao menos não chegaria com as mãos abanando como sempre. Lembrou que a tia não gostava dele, não gostava de sol e nem de chuva, não gostava de ninguém e nem de nada, por que haveria de gostar de seu peru?
Os dias foram passando, os grupos fazendo amigo oculto, marcando chopada, planejando ceia com a família servindo mil pratos com temperos especiais, e Valdirson com seu peru encalhado no frízer do boteco. Na véspera do Natal o dono do boteco despejou o peru. Some com esse troço daqui que eu estou sem espaço! O rapaz saiu com o peru balançando e pingando pelas ruas coloridas piscantes. Com a noite nos pés percebeu o nada há fazer, olhou a ave e comentou: É rapaz...parece que vamos passar o Natal só nós dois mesmo.
Andou, andou, andou até bater no Aterro do Flamengo. Sentou nas pedras da boca do rio Carioca e abriu o peru já descongelado. Sentou o bicho no colo pegando suavemente em uma de suas asas. Assim ficaram, de mãos dadas, vendo a baía da Guanabara se mover lentamente.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Pipocas no asfalto



Paulinho nasceu numa família como qualquer outra. O pai intelectual silencioso, a mãe orgulhosa da prole, o irmão mais velho lindo, estudioso, obediente. A irmã caçula, sempre doente e boba, recebia a atenção de todos; inofensiva, uma benção. Já o magro, pálido e ágil Paulinho honrava a fama de filho do meio, era o capeta encarnado. Frequentador eventual da escola mantinha ano após ano o boletim regularmente vermelho, os cadernos desbeiçados, rasurados e sem datas. Saía de casa com a mochila nas costas, uniforme engomado, cabelo penteado e sapatos dignos para voltar totalmente possuído pelas peladas de rua. Joelho esfolado, meias rasgadas, chiclete no cabelo, boca suja de paçoca e, no lugar do dever de casa, a bolsa cheia de bolas de gude e figurinhas conquistadas. A mãe, mulher espiritualizada, resignava-se aos desígnios de Deus, mais cedo ou mais tarde seu moleque tinhoso haveria de servir para alguma coisa.

Numa intensa tarde Paulinho atravessou a rua destrambelhado atrás da bola fugidia. Vinha ladeira abaixo a carrocinha de pipoca e pegou bem no meio das costas do garoto arremessando-o de testa na calçada. Na mesma hora cresceu um galo gigante e Paulinho só lembra das pipocas espalhadas no asfalto, antes de apagar geral. Uma semana de cabeça enfaixada, canja de galinha e repouso foi o suficiente para a vida voltar ao normal. Ou quase.

Passou a dormir mal, acordava suado de pesadelos com pipocas gigantes sufocando-o. Não comeu mais pipocas, nem paçocas, nem jujubas. Enjoou. A mãe surpreendia o moleque meditabundo olhando as estrelas com as mãos no queixo. Do acidente só ficara uma ligeira elevação entre as sobrancelhas, mas sua intuição materna latejava de que algo fora desse mundo acometera seu filho. O pai, homem afeito ao mundo das energias invisíveis, comentou com a mulher ter lido que algumas pessoas têm alterado o chakra frontal depois de uma pancada. Passaram a observá-lo melhor.

Um dia receberam a visita da nova vizinha. Dona Tereza era grande e de fala santa. Paulinho entrou na sala, olhou nos olhos da mulher, tapou o nariz e saiu correndo. A mãe foi atrás e o garoto alegou não suportar o cheiro do perfume da mulher. Dias depois Dona Tereza matou o marido despejando óleo quente com um funil no ouvido do pobre enquanto dormia. Pronto, foi o suficiente para a mãe entender as intenções do Criador. Seu filho, o anjo caído, tornara-se um médium acidental e sentira o cheiro da morte na áurea escurecida da vizinha.

Daí foi só bagaceira a vida de Paulinho. Não tinha tempo mais para brincar na rua. Era uma romaria de mulher traída, velho com espinhela arriada, criança estropiada querendo receber as graças do menino do terceiro olho; não o cego e sim o que tudo vê. A mãe também não dava trégua, e tome banho de descarrego, catinga de incenso pela casa o dia todo, benzedura com espada-de-São-Jorge e arruda para espantar o Coisa-Ruim e missa aos domingos, comungando e confessando. Era para atacar o mal por todos os lados com artilharia pesada. E Paulinho ficando fraco, só vivia espirrando, tossindo, os olhos fundos de quem suga as dores para o fundo do poço de sua alma para salvar o próximo. As mãos geladas causavam tremores de clarividência nos demais mortais, ao ponto do menino desmaiar.

Na escola, sempre cochilando na mesa devido ao intenso trabalho na missão divina combinado com as pipocas gigantes que continuavam sacaneando sua noite, chamou a atenção da professora que encaminhou o combalido menino ao ambulatório. Devidamente examinado, Paulinho voltou para casa com um bilhete do médico da escola para os pais:

“Caros pais,

Paulinho apresenta quadro de alergia respiratória e pressão baixa que inspira cuidados. Sugiro levá-lo o mais breve possível a um alergista para tratamento.”

Em um mês toda a mediunidade de Paulinho sumiu engolida pelas pipocas alienígenas, prontamente substituída pela pelada, bola de gude, figurinhas, bafo-bafo, queimado, pular carniça, matar aula...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Voltei. Depois de doses cavalares de Chá de Sumiço, volto levinha, Catarininha-paz-e-amor. Para festejar o feliz retorno segue uma crônica:

Caminho para a terapia



- Mô, o bebê tá chorando...

- Eu ouvi.

- Não vai fazer nada?

- Não. Pode ser cocô, xixi, fome, cólica e...

- Frescura.

- Maldade. Vou lá.

- Faça isso. Eu vou dormir.

- Você é muito egoísta.

- Não, sou muito cansado de trabalhar o dia todo para você brincar de casinha com esse moleque que só tá de olho no seu peito.

- Não acredito que você está com ciúmes.

- Estou exausto para tanto.

- Você não liga para seu filho. Sabia que hoje ele falou?

- Pediu o quê?

- Água.

- E você deu?

- Dei peito.

- Do que adianta ele falar se você não ouve?

- Marcondes, você é insensível.

- Você é que é. O garoto desesperado de sede, fala pela primeira vez e você finge que não entende. Pelo jeito vai ser assim pelo resto da vida.

- Eu amo o meu filho.

- Não parece...

-Ah! Eu sou uma péssima mãe, ele vai ficar traumatizado. Vai ter déficit de atenção. Já percebo que ele fica olhando para um monte de coisa ao mesmo tempo. Vai fazer terapia até morrer.

- Menos, Rute, menos...

- Eu sei que você não acredita na minha capacidade. Sempre quer mais de mim. Eu não sou a sua mãe, viu? Quando eu falo que vou colocar o Junior na natação você pergunta logo se eu já consultei a sua mãe, que nem nadar sabe.

- Ela pode ajudar.

- Pensa que eu não vejo pelo canto do olho sua mãe balançando a cabeça e sibilando tchi...tchi...tchi quando me vê cuidando do MEU filho? É porque você não me ama. Se amasse não deixaria ela fazer isso comigo. Vai onde? Ainda não terminei. Odeio quando estou falando verdades e você sai de fininho...

- Vou pegar aquele pentelho e dormir com ele no sofá.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Quarentena sabática


Amigos,

A partir de hoje entro em quarentena sabática para cultivo do ócio criativo renovador.
Ficarei sem publicar no blog www.gavetaverde.blogspot.com e na coluna no site www.cronicascariocas.com.br, assim como nas redes sociais.
Volto em outubro com novidades.
Saudades antecipadas,

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Promessa da noite


Cheguei bombado no baile. De cara a morena me deu mole passando lentamente a ponta da língua pelos dentes unidos protegidos por lábios acolchoados. Fui lá conferir. Era tudo verdade. Ofereci latinha, ela sorriu recusando, pegou a dela e virou de um gole só deixando escorrer pelo queixo, peito, umbigo. Respirou fundo e depositou a lata vazia na minha mão. Melhor assim, não tem custo, a noite promete, comentei em segredo com minha cueca. No batidão fui me animando e me aninhando na dança da preparada. Suor no vapor, o funk bombando, a morena ondulando e eu cercando prá nenhum outro maluco se chegar.

Um beijo no cangote, mão na cintura descendo sentindo a minha paciência colhendo o prêmio. É chegada a hora do pega. Ah moleque! Puxei pela mão prum canto. Agora o menino cresce! Ela escorregou de mim e voltou para o salão saltitando, me chamando, me tinindo. Caraio, essa menina vai me fazer pular a noite inteira antes de me dar. Resisti porque o investimento era de primeira, mas lá pelas tantas achei que ela tava me zoando. Eu ficando bêbado vendo ela rodar no salão e, enfim, entreguei as armas numa cadeira de canto.

Não deu um minuto para aparecer outro Mané oferecendo latinha de cerveja para ela recusar pulando e agachando e rebolando e depois mais outro e mais outro e mais outro até o dia clarear.

Na saída do baile ainda pude identificar a morena livre e feliz voltando sozinha pelo beco com as sandálias penduradas nos ombros...

Que mulher....

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A discreta Lucila


Lucila tem várias manias, a sua preferida é cutucar gente na rua para avisar que a etiqueta da roupa está aparecendo ou tem um fiapo de linha pendurado na manga do paletó. É tão dedicada à coisa que é capaz de saltar do ônibus antes de seu ponto por conta de uma blusa pelo avesso ou – pior – um zíper aberto. Sutiã com alça aparecendo, mancha de molho na barriga da camisa, cadarço de criança desamarrado, remela por baixo dos óculos, meia de bebê caindo, bolsa aberta, carteira saindo do bolso, brinco frouxo, batom borrado no dente, nada, absolutamente nada, escapa de seu olhar aristotélico.

Cônscia de estar prestando serviço humanitário de alta relevância encara as pessoas na rua dando aquela escaneada de cima em baixo procurando um defeito. Quando não encontra fica frustrada e só sossega depois de cutucar alguém.

A reação das vítimas é um prazer à parte para Lucila. A maioria fica com vergonha, agradece e sai de perto de fininho.

Hoje foi diferente. Estava Lucila no metrô lotado investigando os passageiros arrumados para trabalhar quando surgiu um jovem de terno preto alinhado, gravata com nó perfeito, cabelo bem cortado, barba feita e só um sapato engraxado. O outro estava fosco de dar pena. Lucila se espremeu entre os passageiros para chegar até o rapaz. Com o coração acelerado e a boca cheia d’água cutucou com o dedo indicador. O rapaz olhou. Ela apontou o sapato sem graxa. Ele fez uma careta. Ela sorriu triunfante. Ele cuspiu no sapato e com o xale de tricô de Lucila deu uma bonita polida no sapato com um sorriso nefasto no canto da boca. Agradeceu e devolveu o xale.

Lucila resolveu acabar com essa mania boba.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Uma medalha para Botelho



Botelho trabalhou por quarenta anos como servidor público. Aposentado poderia dedicar-se ao ócio até o fim de seus dias. Todavia sua vocação para servir à cidade que ama fala mais alto e nosso herói dedica todos seus minutos ao exercício da cidadania. Fiscaliza poda de árvore, buraco em calçada, estacionamento irregular, poste sem lâmpada ou gastando energia. Possui em sua agenda telefônica contato com todos os órgãos públicos, ONGs, jornais e – dizem – até o celular do prefeito. Diariamente faz a ronda em seu bairro com uma máquina fotográfica e um caderninho de anotações. É tão conhecido na área que alguns infratores tratam de se corrigir antes de serem documentados em flagrante delito. Alguém grita “Lá vem Seu Botelho!” e é um tal de catar guimba de cigarro do chão, tirar a moto da calçada, recolher a muamba da esquina; uma correria só. Até os cachorros ficam com prisão de ventre só de olhar para ele.

Quando os bueiros da cidade criaram asas de fogo matando gente, verdadeiras minas terrestres plantadas pelo descaso administrativo, Botelho tomou para si a guerra contra os opressores de seu direito de ir e vir sem ser catapultado ao além. Distribuiu panfletos, fez abaixo assinado, pintou caveiras vermelhas nos bueiros, mandou carta para todos os jornais e órgão públicos sem que nada fosse feito.

Um dia desses de ronda matinal viu uma fumacinha fedida saindo do bueiro em frente ao seu prédio; que ousadia. Nervosíssimo ligou para o Corpo de Bombeiros, TV, rádio e postou-se sobre o bueiro disposto a ser um mártir da causa. Com um megafone fez o que seria posteriormente considerado o melhor discurso cidadão de todos os tempos.

Rua fechada, fuzuê do cacete, porteiros, idosos, turistas esticando os pescoços na ponta dos pés para não perder nenhuma cena. Não deu outra: a tampa do bueiro voou dez metros acima do solo revirando no ar como uma moeda gigante. A multidão convergiu para a tragédia com olhos estáticos e mãos sobre as bocas. Sob o tampo pousado no asfalto a cabeça de Botelho pacificada numa massa disforme. Um dos membros da platéia aproxima os olhos da tampa. A multidão ansiosa aguarda o resultado. Ele sorri e grita:

- Deu coroa! Deu coroa! Ganhei!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Caixa de fósforos


Desde que aprendeu a andar Nina olhava mais para o céu do que para o chão onde pisava. Não a toa vivia tropeçando e esbarrando nas coisas terrenas. Contava estrelas torcendo para não nascer verruga nas pontas dos dedos, apertando os olhos para ver detalhes de São Jorge matando o dragão na lua cheia.

Aos cinco anos amarrou uma toalha de mesa na gola do pijama e pulou de cima da geladeira com os braços e olhos bem abertos. Os dez pontos na testa não borraram seus sonhos alados, apenas trouxeram a sabedoria da necessidade de asas.

A primeira viagem de avião deixou-a grudada na janela. Nem o serviço de bordo conseguiu desviar sua atenção. O orvalho molhando o vidro já matava sua sede e as nuvens de algodão doce eram-lhe alimento suficiente.

Na adolescência escrevia poesia com o céu tomando-lhe o peito e os hormônios. Apaixonou-se e desapaixonou-se entre uma lua nova e uma minguante. Cansada de voar sem rumo conheceu o Homem-árvore e aquietou-se em terra firme por longo tempo.

Um dia sonhou que era um pássaro planando entre o mar e as montanhas do Rio de Janeiro. Acordou feliz e falante. O Homem-árvore entendeu e presenteou-a com um vôo de ultraleve.

À esquerda, à direita e acima a densidade azul rebatia no rosto o sol. As costas da floresta não deixavam Nina pensar direito. Manchas brancas no pé do planeta chamavam atenção. Apertou os olhos como se para a lua invertida e viu frágeis seixos quadrados aquecidos uns pelos outros. Enquanto o piloto arremetia em direção à Lagoa, Nina focou os prédios amontoados e teve a visão de caixas com quarenta e tantos fósforos arrumados uns sobre os outros. Lá dentro varetas com pólvora nas cabeças aguardavam a oportunidade de explodir.

O dia ficou mais claro e Nina teve a certeza: Nunca mais entraria numa caixa sem um plano de voo.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Terremoto na comunidade



Tem uma árvore na rua; inquestionavelmente rainha do pedaço. Mais de trinta metros de altura, tronco popozudo, pele caroquenta, raiz marrenta e copa turbinada. Abriga condomínio de múltiplos espécimes. Macacos tinhosos tiram onda quicando nos galhos. Bípedes alados celebram colorida suruba armando um barraco fenomenal. Borboletas azuis de sangue nobre circulam esnobes entre mariposas do baixo-árvore. À noite, os morcegos agarram-se aos frutos mais duros do que pedra cantando a conquista timidamente. Liquens, musgos, orquídeas, barbas-de-pau, barbas-de-velho e barbas de cílios, e de sobrancelha e de qualquer coisa que se pendure, se agarre, e se alimente de seus oferecidos galhos. A aranha amarela corre atrás do mosquito que procura uma poça limpinha na forquilha, e as formigas trabalham já que o tempo urge e a antipática da cigarra continua cantando o tempo todo. A raiz tentacular da árvore pula rasgando a calçada, seduzindo o canteiro, o meio-fio e onde sua rebeldia determinar. Ela é tão absoluta que não balança nem com vendaval. Desconhece as fraquezas do outono e produz sombra o ano inteiro orgulhando-se de suas folhas verdes eternas.

Beira a segunda-feira, sete horas, ouve-se a algazarra dos pássaros. Os ovos dos ninhos voam para pousar estourados na calçada, os gritos das aves ecoam nas janelas dos apartamentos como prenda de tempestade. Os símios arregalam os olhos mostrando os dentes com os braços estendidos em desespero. Folhas arfam debilmente porque sabem que ou voam ou morrem. Formigas passam por cima dos liquens e das aranhas em direção ao sul, ao norte, ao céu e a lugar algum. Borboletas ventilam o pouso imaginário na pista móvel que não sabe se vem ou vai. A serra elétrica canta uma música do lado do disco que ninguém conhece e fugir é preciso; e nada se alcança, nada se vê, nada locupleta e tudo treme. O tronco, sábio invisível, pensa: foi bom, mas é chegada a hora.

A matriarca tomba sem um único gemido, mantém a dignidade até o chão. Esquartejada em praça pública, seiva fios verdes para quem queira ver e sentir o cheiro atlântico agonizante.

Em seu lugar plantou-se uma camada de cimento e uma mesa de bar.

(Dedicado ao livre movimento de Sammy Angeli, o homem que pensa floresta.)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

É complicado...


- Mãe, o pai é um homem bom?

- Claro, meu filho. Lembra aquelas inglesas bêbadas que ele salvou do afogamento? Então.

- E o tio Edgar?

- Também. Só que ele combate incêndio, deslizamento de encosta, essas coisas.

- E isso é proibido?

- Proibido? Seu tio salva pessoas. Isso não é proibido. Proibido é matar, roubar...

- Então eu posso desobedecer à professora e reclamar com ela se ela me der bronca?

- Pode. Vivemos em plena democracia onde podemos reclamar para defender os nossos direitos, desde que não prejudique o próximo e fale a verdade.

- Então só vai preso quem mata, rouba e engana os outros?

- Sim, devem ser presos e responderem por seus atos porque são bandidos perigosos para a sociedade.

- O pai e o tio são bandidos?

- Não! Eles são bombeiros, heróis da cidade e você deve continuar sentindo orgulho deles.

- Então por que eles estão presos?

- Não sei, meu amor, é complicado... Ei, olha bem nos meus olhos e entenda: é um engano, erros acontecem, eles voltam para casa logo-logo e você não vai querer recebê-los com essa cara molhada, né?

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Amor de cão


As surras de toalha molhada nem as tapas na cara não o deprimiam, ajudavam a analisar seus erros explícitos ou subliminares: demorou mais de dez minutos para perceber o novo corte de cabelo da esposa, ousara colocar um pouco de sal no almoço perfeito que ela fizera com tanto sacrifício, esquecera a tampa do sanitário levantada numa noite insone tentando entender os motivos do último esporro, pecara trazendo da padaria pão careca doce em vez de salgado ao voltar estressado do trabalho.

Embora soubesse merecedor dos corretivos, não sabia mais o que fazer para alegrar aquela mulher. A própria burrice o atormentava e seu esforço era inumano para superá-la. A patroa, compreensiva, acabava aceitando a própria sina. Ela olhava-o com desespero nos dedos entre os cabelos e, louca de amor, deixava escapar que não sabia mais o que fazer com ele.

Com a agenda lotada de compromissos de mimos da amada, ele desdenhava dos próprios: emprego, saúde e espelho. No início da tarde foi sumariamente demitido e voltou ansioso por consolo dos braços da mulher. Encontrou os amados braços ocupadíssimos entre as pernas do cara da TV a cabo. Ao ver a mãe de seus filhos com o rabo para cima gemendo sentiu a fúria latejando na garganta. Quis gritar, pular no pescoço, quebrar tudo. Não é justo! Não é justo! Praguejou com a bílis sufocada. Arrancaria os ovos dele com os dentes dela, furaria os olhos de ambos com as hastes de seus óculos, rasgaria os buchos com a faca Ginsu que a desgraçada fez questão de importar pela internet, jogaria os corpos pela janela pelados para que toda a rua visse a desonra. É isso, comigo é assim...mas o que é isso?

Pela fresta da porta observou melhor a felicidade radiante da esposinha. Tão meiga, tão bela... Nossa, que alegria, que disposição, nossa... O sol ainda está tão alto para tanta fúria... Criticou-se por chegar tão cedo. Deveria ter avisado antes. Ela ficaria furiosa com a surpresa. Saiu de fininho e ficou na esquina da rua esperando o técnico terminar o serviço de instalação.

domingo, 15 de maio de 2011

Carta a um exército particular

Meu amigo é um lutador canhoto. Não de esquerda, e muito menos de direita, não de artes marciais ou de tribuna; tampouco épicas e sim diárias, sem fazer estardalhaço diante das vitórias ou derrotas. O escudo do meu amigo tem a transparecia dos retilíneos e sua arma mais poderosa é o amor puro e profundo pela vida através da família, dos amigos, dos livros e da música de sua terra natal.

Meu amigo tem uma estratégia: conhecer o inimigo e, o mais rápido possível, atacá-lo de frente com os arqueiros e com a cavalaria pelos flancos. Sabe que sempre haverá baixas que serão assimiladas com a força dos patriarcas e a sabedoria das mães.

Hoje o meu amigo ganhou mais uma batalha de uma guerra morna, cozida em fogo brando, anunciada. Outras virão, mas nosso herói não teme, já que sua natureza nasceu assim livre dos terrores terrenos; até porque, também, além do que, até, pois, sabe que não está sozinho. A guerra é dele, mas seu exército é de fidelidade inquestionável e nada, nada mesmo que respire, pulse ou ouse pisar neste planeta o atingirá.

sábado, 2 de abril de 2011

Passa por cima



Leo é cadeirante acostumado aos obstáculos cotidianos. Buracos, postes, orelhões, árvores, gente sem noção e degraus, muitos degraus que o obrigam a vagar procurando uma decida de garagem ou uma boa alma.

Foi com grande alegria que assistiu a construção, em frente ao seu prédio, de uma rampa de acesso ligando a calçada até o outro lado da rua, atravessando a praça e terminando em frente à entrada do supermercado. Asfaltada, sinalizada com lindas faixas amarelas, independente.

No dia da inauguração Leo desceu ansioso para estrear a pista e deu de cara com um Palio estacionado bem em cima da faixa. Deixou um bilhete simpático no limpador de para-brisa e resignou-se em dar a volta na praça. À noite tranquilizou-se ao ver a pista desimpedida. Pela manhã lá estava o carro no mesmo lugar. Deixou outro bilhete agora menos simpático e mais incisivo. Na manhã seguinte, o carro na faixa e o bilhete de Leo amassado no chão. Resolveu esperar para conversar com o vizinho. Quando o homem chegou Leo o interpelou.

- Senhor, com licença, boa noite.

- Não dou esmola.

- Desculpe-me, houve um mal entendido. Estou aqui o esperando apenas para lembrá-lo da proibição de estacionar neste local, pois o senhor está tirando o meu, e de vários outros cidadãos, o direito de ir e vir.

- Passa por cima, aleijadinho!

E saiu rindo e balançado a chave do carro. Leo não dormiu direito, passou a noite com a frase “passa por cima” retumbando nas têmporas. Pela manhã pegou o jornal e observou as duas linhas amarelas paralelas emoldurando o nome do jornal. Possuído, encomendou um galão de tinta óleo amarela, bandeja, rolo e haste. Esperou o carro estacionar e a madrugada para proteger sua empreitada. Com muita dificuldade pintou sobre o capô do carro a continuação da faixa amarela. Repetiu a operação na trazeira do veículo. Exausto, coberto de suor e tinta, voltou para o apartamento direto para a janela onde ficou aguardando o show de desespero do proprietário do carro.

A história correu o bairro e nunca mais ninguém estacionou sobre a faixa.

sábado, 26 de março de 2011

Um tanto ao mar


Parou na beira deixando a espuma enterrar as pontas dos dedos, depois os pés e por fim os tornozelos. Preocupou-se com as coisas do mar. A maré está secando ou enchendo? Puxando para dentro ou para fora? Própria ou imprópria para banho? Dando onda ou banheira? Um redemoinho depois da rebentação sombreado por pássaros planando na termal. Que aves são essas? Gaivotas, quero-quero ou urubus? O vento está soprando do sul ou do norte? Trás frio ou calor? Entro ou não entro? Quantos ainda teria dias como este?

Mergulhou no meio da onda deixando a água gelada alisar o corpo. Embaixo d’água, desde menina, sempre pode ver o passado e o futuro conversando animadamente. Com o somar dos anos os diálogos tornaram-se mais intensos e nadar em direção ao horizonte, o que antes curiosidade, hoje necessário esforço de compreensão do presente.

O braço esquerdo girando na cadência da batida da perna direita e vice o anverso de novo novamente a água entrando e saindo dos ouvidos e narinas ritmadas. As mãos furando o oceano e os pés surrando as marolas. Acima o sol nas costas grita “Você está aqui, sim você está, você...”, abaixo o gelo na barriga sussurra para o umbigo “ Não vá, não fique, não...”. A cabeça dançando para a boca aberta ao abismo só entrada. Não há busca, não há dor, só o fundo do mar correndo ao contrário. Ar.

Três quilômetros adiante parou ofegante. Olhou para o litoral diminuto e para o Atlântico de mãos dadas com o céu. A conversa era longa e não parecia ter data para acabar. A espuma da costa tremia oferecida. Nadou até a beira, bebeu água-de-coco e voltou para casa.

Não estava pronta.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O infinito de Pi



(p = 3,14159 26535 89793 23846 26433 83279 50288 41971 69399 3751)

Quem vê Pi contando aos palmos a distância entre uma árvore e outra, anotando números no braço e falando com suas equações, não imagina o engenheiro brilhante escondido dentro do terno roto e amarrado pela gravata sebenta. Quando a gula da esquizofrenia devorou-lhe o emprego, a família e a dignidade, passou a vagar pelas ruas medindo seu mundo e traduzindo-o em enigmáticos cálculos nas paredes da cidade.

Um entre milhões de malucos abandonados pelo Universo, Pi exibe seu tempo entre um pôr-do-sol e outro. Passeia sua massa cinzenta aprisionada no infinito por entre sinais de trânsito, sinais de olhos, sinais dos tempos inexatos, todos voltados para ele julgando-o. Busca interminável nos números a explicação para tanto abandono e fúria dos nunca pares mesmo que iguais.

Os dias sobrepõem as noites sem que ninguém perceba Pi sentado no banco da praça coberto de números. O olhar encontra o nada e nele voa açoitado pelo vento. As primeiras luzes da manhã encontra Pi translúcido até que transpareça completamente.

No verão seguinte um professor senta no banco para corrigir provas dos alunos. Ao lado de sua perna vê entalhado na madeira uma equação gigantesca. Por curiosidade do ofício anota em seu caderno. Em casa tenta desvendá-la sem sucesso. Certo de que estava diante de algo genial, dedica o resto de sua vida acadêmica a resolver o enigma. Já no leito de morte, ouvindo vozes, vertendo miasmas e mirando anjos com pincéis coloridos voando sobre um interminável quadro-negro, ofega a equação de sua vida dançando entre as nuvens até um raio gravar no quadro a resposta. O mestre sorri e suspira:

π > ∞

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A cigana leu o teu destino


A cigana coloca as cartas e joga sobre ele um olhar 3 x 4. Coisa boa não pode ser, pensa.

- Vejo um manto negro cruzado por um rio de sangue no meio do corpo. Do pescoço uma cascata branca escorre pelo peito. No dedo da rainha assassinada um diamante coberto com sangue. Todas as pedras de vítimas de injustiças viraram rubis.

- Ai...

- Sorte. Vejo claramente.

- Onde? Onde?

- Na cabeça. Está bem claro nesta carta aqui. O peso da balança da sabedoria equilibra o corpo. Na mão a espada de fogo com gumes nas duas extremidades.

- De quê?

- De ida, de volta. Positivo e negativo. Verdade numa ponta e a mentira na outra, ambas ao alcance do livre arbítrio.

- Como se segura uma espada com dois gumes?

- Pelo meio. Com muito cuidado e os olhos vendados.

- Parece perigoso.

- E é. Também sem volta. Ao assumir a espada jamais poderá voltar ao reino da inocência. Haverá dias escuros como a noite e noites insones de ideias iluminadas. Em vários momentos terás apenas a sombra de tuas leis como aliada e, em alguns, nem ela para lembrá-lo dos motivos que o levaram à guerra. Nestas horas terás de fazer grande esforço para não abrir os olhos e trair teu juramento. Não sucumbirás à imagem em detrimento da equidade. E quando a era da colheita chegar saberás cortar e sarar com a modéstia de um servil e sem a petulância de um rei.

- Afinal, o que serei?

- Livre.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Desperdiçar comida é pecado



Marieta recebeu o beijo de Betinho ainda meio sonolenta. Abriu uma fresta nos cílios e viu o marido sorridente de camisa de time, bermuda, chuteira e meião.

- Amor, to indo prá pelada de sábado, volto pro almoço.

Marieta dormiu mais um pouco, passou na feira e preparou Camarão na Moranga como Betinho adora. Quatro da tarde ligou para o celular fora de área. Às dezoito almoçou sem apetite com as crianças. Às vinte e uma guardou a comida na geladeira. À meia-noite chorou, rezou por Betinho e resignou-se ao sono assustado dos que não sabem embora desconfiem. Três da manhã a campainha toca. Marieta pula da cama com o coração aos gritos. Abre a porta de supetão e dá de cara com um rapaz franzino, recém expulso da adolescência, com a timidez pendurada no chaveiro do carro.

- Boa noite, Dona. Desculpe pela demora. É que meu pai demorou a conseguir me dar os endereços. A Senhora faz o favor de escolher um dos quatro bêbados lá no carro que eu ainda tenho três carretos de malas para entregar.

Quando Marieta viu Betinho babando no ombro de outra peste pensou seriamente em recusar a entrega. Por falta de argumento junto às crianças arrastou a encomenda para dentro de casa. Deu banho, vestiu pijama, beijou a testa. Domingo Betinho dormiu até as quatorze horas. Comeu pão com mortadela, bebeu dez cervejas, brincou com as crianças, assistiu a TV até voltar a dormir no sofá.

Na segunda-feira Marieta fez uma quentinha de Camarão na Moranga, tomou banho com água-de-cheiro, vestiu um vestido florido decotado, pintou a boca, soltou os cabelos. Tocou no apartamento do vizinho solteirão, professor gentil e caseiro.

- Dona Marieta, que surpresa agradável. A Senhora está, com todo o respeito, linda! Por favor, entre, sente um pouquinho. Gosta de jazz e vinho? Acompanha-me? Que prazer então. Camarão? Adoooro!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O excluído


- O que você tem, menino? Engoliu uma aranha?

- Não, mãe. Preciso saber quando você e o pai vão se separar.

- Ué? Não estamos pensando nisso. Nós nos amamos. De onde você tirou essa ideia?

- Tô chateado com os coleguinhas da escola. É que os garotos ficam esfregando na minha cara que têm duas casas, dois pais, duas mães, um monte de avós...e eu aqui, nem um meio-irmão eu tenho. Não aguento mais tanta humilhação.

- Tem seu lado bom. Pai, mãe, avós, brinquedos exclusivos só para você todo o fim de semana.

- Saco. Decidi. Se vocês não se separarem eu me separo de vocês.

- É mesmo? Com dez anos na fuça vai prá onde?

- Prá casa do Igor. Lá ele tem até um terço de irmão, filho do segundo casamento da atual mulher do pai dele. Coisa fina.

- Filho, o amor tem várias formas. Todas são certas. O importante é que você é amado e sempre será.

- Tá bom. Você e o pai podem continuar juntos. Eu vou ficando por aqui pelo menos até um de vocês tomar vergonha na cara, arranjar amante e me dar um meio-irmãozinho.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Uma história qualquer sobre homens do bicho


Seu Canastra apontou o jogo do bicho nas redondezas do bairro por mais de quarenta anos. Lá pelas tantas viuvou e deu para beber. No começo cerveja, no final qualquer biricutíco. No sorteio das 18 horas já trocava cachorro por cavalo e cobra por galo. Da contabilidade animal passou a tirar uns trocados para molhar a palavra.

Quando Cordão de Ouro, dono do ponto, descobriu os desvios de Canastra, deu-lhe um pé na bunda como aviso prévio e, compadecido, deixou Canastra vivo à própria sorte. Sem salário, sem registro, sem teto, sem gosto, o homem aboletou-se com uma trouxa de roupa na praça e foi ficando.

Se esperto, assumiria a própria sina. Desprovido dessa dádiva, achou por bem tirar satisfações com o antigo patrão. Tomou todas e plantou-se em frente ao restaurante do bicheiro à espera. Quando Corrente de Ouro saiu,Canastra interpelou e pediu, não ajuda e sim reconhecimento pelos anos de lealdade quase total, admitia. Reconhecido, o chefão garantiu que Canastra perdesse os dentes que lhe sobravam. Ganhou chute nos rins e cara amassada a título de 13º salário, FGTS e férias proporcionais.

Jogado na calçada com lama na alma, Canastra olhou o prendedor de gravata cravejado de diamantes e voltou a implorar:

- Meu amado e justo Senhor, porque eu sou um merda e só o seu perdão me salvará. Atenda apenas um pedido deste pecador.

- Fala monte de bosta.

- Deixe-me beijar seu rosto antes do meu fim.

- Bêbado safado, sabe que tenho coração mole. Vou deixar para que você suma de vez do meu ar.

Aproximou a face da boca de Canastra o suficiente para o homem arrancar o prendedor de diamantes e enfiar na carótida do chefão. Enquanto o sangue espirrava, Canastra ria, ria, ria.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O primeiro amor



- Bora, Pedrinho, matar a última aula ou a gente vai pegar uma fila imensa.

- Tô indo, tô indo.

- Trouxe a garrafa de álcool?

- Não. Era a minha vez?

- A gente compra no caminho. Vito, você tem quanto? E você Edu?

- 0,80.

- 0,15.

- Caramba, só tenho 0,10. Dá. Feito. Não falei? Olha a fila na escada!

- Não vai dar tempo até a hora do almoço.

- Vai sim. É rapidinho, só tem moleque na fila. Talvez aquele velhote empaque na armação.

- Ele tem tempo sobrando, a gente pede para passar na frente.

- Abriu a cortina rosa. A fila tá andando.

- Já tô até pronto.

- Segura.

- O próximo! Os rapazes vão pagar com o quê?

- Chaveiro, Dona Gertrudes.

- Caneta...

- Eu vou pendurar prá próxima...

- Esses estudantes...Deixa eu ver se o material está limpo e desimpedido. Tudo bem. Faz logo o serviço que a fila já está lá na rua. Vem com a mamãe, vem. Upa, upa neném!!!

- Uhuuuu! Todo mundo feito? Agora correndo pro parque.

- Joga esse álcool logo antes que seque.

- Ahhhh!

- Minha vez. Ahhhh!

- Nossa Senhora, isso arde....uuuuiii!

- Amanhã matinê de novo?

- Eu vou.

- Eu trago o álcool.