sábado, 26 de março de 2011

Um tanto ao mar


Parou na beira deixando a espuma enterrar as pontas dos dedos, depois os pés e por fim os tornozelos. Preocupou-se com as coisas do mar. A maré está secando ou enchendo? Puxando para dentro ou para fora? Própria ou imprópria para banho? Dando onda ou banheira? Um redemoinho depois da rebentação sombreado por pássaros planando na termal. Que aves são essas? Gaivotas, quero-quero ou urubus? O vento está soprando do sul ou do norte? Trás frio ou calor? Entro ou não entro? Quantos ainda teria dias como este?

Mergulhou no meio da onda deixando a água gelada alisar o corpo. Embaixo d’água, desde menina, sempre pode ver o passado e o futuro conversando animadamente. Com o somar dos anos os diálogos tornaram-se mais intensos e nadar em direção ao horizonte, o que antes curiosidade, hoje necessário esforço de compreensão do presente.

O braço esquerdo girando na cadência da batida da perna direita e vice o anverso de novo novamente a água entrando e saindo dos ouvidos e narinas ritmadas. As mãos furando o oceano e os pés surrando as marolas. Acima o sol nas costas grita “Você está aqui, sim você está, você...”, abaixo o gelo na barriga sussurra para o umbigo “ Não vá, não fique, não...”. A cabeça dançando para a boca aberta ao abismo só entrada. Não há busca, não há dor, só o fundo do mar correndo ao contrário. Ar.

Três quilômetros adiante parou ofegante. Olhou para o litoral diminuto e para o Atlântico de mãos dadas com o céu. A conversa era longa e não parecia ter data para acabar. A espuma da costa tremia oferecida. Nadou até a beira, bebeu água-de-coco e voltou para casa.

Não estava pronta.

3 comentários:

Maria de Deus - DD disse...

Amo o mar catarina. Quando era pequena era preta da cor de carvão porque vivia na praiaa, não tomava banho de sol, mas de mar mesmo. Adoro apreciar o mar que é uma para mim a coisa mais bela da natureza e traz muitas lembranças da minha infância!
Bjs!

O Bolinho disse...

"Mar" que legal o mar sô...
vc tá com uma veia poética...é o seu muso? de quem é a culpa?

Sylvia Regina Marin disse...

Também notei a veia poética. Lindo, Catarina. Beijos.