sexta-feira, 17 de junho de 2011

Terremoto na comunidade



Tem uma árvore na rua; inquestionavelmente rainha do pedaço. Mais de trinta metros de altura, tronco popozudo, pele caroquenta, raiz marrenta e copa turbinada. Abriga condomínio de múltiplos espécimes. Macacos tinhosos tiram onda quicando nos galhos. Bípedes alados celebram colorida suruba armando um barraco fenomenal. Borboletas azuis de sangue nobre circulam esnobes entre mariposas do baixo-árvore. À noite, os morcegos agarram-se aos frutos mais duros do que pedra cantando a conquista timidamente. Liquens, musgos, orquídeas, barbas-de-pau, barbas-de-velho e barbas de cílios, e de sobrancelha e de qualquer coisa que se pendure, se agarre, e se alimente de seus oferecidos galhos. A aranha amarela corre atrás do mosquito que procura uma poça limpinha na forquilha, e as formigas trabalham já que o tempo urge e a antipática da cigarra continua cantando o tempo todo. A raiz tentacular da árvore pula rasgando a calçada, seduzindo o canteiro, o meio-fio e onde sua rebeldia determinar. Ela é tão absoluta que não balança nem com vendaval. Desconhece as fraquezas do outono e produz sombra o ano inteiro orgulhando-se de suas folhas verdes eternas.

Beira a segunda-feira, sete horas, ouve-se a algazarra dos pássaros. Os ovos dos ninhos voam para pousar estourados na calçada, os gritos das aves ecoam nas janelas dos apartamentos como prenda de tempestade. Os símios arregalam os olhos mostrando os dentes com os braços estendidos em desespero. Folhas arfam debilmente porque sabem que ou voam ou morrem. Formigas passam por cima dos liquens e das aranhas em direção ao sul, ao norte, ao céu e a lugar algum. Borboletas ventilam o pouso imaginário na pista móvel que não sabe se vem ou vai. A serra elétrica canta uma música do lado do disco que ninguém conhece e fugir é preciso; e nada se alcança, nada se vê, nada locupleta e tudo treme. O tronco, sábio invisível, pensa: foi bom, mas é chegada a hora.

A matriarca tomba sem um único gemido, mantém a dignidade até o chão. Esquartejada em praça pública, seiva fios verdes para quem queira ver e sentir o cheiro atlântico agonizante.

Em seu lugar plantou-se uma camada de cimento e uma mesa de bar.

(Dedicado ao livre movimento de Sammy Angeli, o homem que pensa floresta.)

7 comentários:

Juliana Cardoso disse...

Adorei! Ufa. Me fez pensar na proximidade que criei com a natureza ao ir pra Amazônia... o que me fez peceber tao amada pode ser a natureza.Beijos, Ju

Anônimo disse...

Caramba. Sensacional. Me sinto muito honrado. Obrigado. Beijo. Sammy.

O Bolinho disse...

Emocionante.

Anônimo disse...

Não Cata! Você não deveria ter matado esta árvore! Doeu! doeu de mais e continua doendo! Vai ser difícil te perdoar!
my

Eclético em Cultura disse...

Concordo com a My,o final me deixou muito triste, apesar de ser essa realidade. A natureza é devastada para o bel prazer do homem!
Bjs!
DD

Marcia Tavares disse...

Como sempre bombando.
Quando sai o próximo livro?
bjus

COZINHANDO PARA AMIGOS disse...

Bem, eu tinha ideia de como terminaria, pois conheço a sua língua, conheço seus apelos...me surpreendeu, porém, a apoteose magnânima da árvore.Voilá as delícias de suas crônicas!