sábado, 2 de abril de 2011

Passa por cima



Leo é cadeirante acostumado aos obstáculos cotidianos. Buracos, postes, orelhões, árvores, gente sem noção e degraus, muitos degraus que o obrigam a vagar procurando uma decida de garagem ou uma boa alma.

Foi com grande alegria que assistiu a construção, em frente ao seu prédio, de uma rampa de acesso ligando a calçada até o outro lado da rua, atravessando a praça e terminando em frente à entrada do supermercado. Asfaltada, sinalizada com lindas faixas amarelas, independente.

No dia da inauguração Leo desceu ansioso para estrear a pista e deu de cara com um Palio estacionado bem em cima da faixa. Deixou um bilhete simpático no limpador de para-brisa e resignou-se em dar a volta na praça. À noite tranquilizou-se ao ver a pista desimpedida. Pela manhã lá estava o carro no mesmo lugar. Deixou outro bilhete agora menos simpático e mais incisivo. Na manhã seguinte, o carro na faixa e o bilhete de Leo amassado no chão. Resolveu esperar para conversar com o vizinho. Quando o homem chegou Leo o interpelou.

- Senhor, com licença, boa noite.

- Não dou esmola.

- Desculpe-me, houve um mal entendido. Estou aqui o esperando apenas para lembrá-lo da proibição de estacionar neste local, pois o senhor está tirando o meu, e de vários outros cidadãos, o direito de ir e vir.

- Passa por cima, aleijadinho!

E saiu rindo e balançado a chave do carro. Leo não dormiu direito, passou a noite com a frase “passa por cima” retumbando nas têmporas. Pela manhã pegou o jornal e observou as duas linhas amarelas paralelas emoldurando o nome do jornal. Possuído, encomendou um galão de tinta óleo amarela, bandeja, rolo e haste. Esperou o carro estacionar e a madrugada para proteger sua empreitada. Com muita dificuldade pintou sobre o capô do carro a continuação da faixa amarela. Repetiu a operação na trazeira do veículo. Exausto, coberto de suor e tinta, voltou para o apartamento direto para a janela onde ficou aguardando o show de desespero do proprietário do carro.

A história correu o bairro e nunca mais ninguém estacionou sobre a faixa.

3 comentários:

Anônimo disse...

O 'passa por cima' é sempre de um prepotente-arrogante. Sofri muito no Rio com essa grandoza. Certa vez, lá na Prado Junior, um tipo desse disse-me por três vezes. Comprei uma makita e, à noite fiz minha bicicleta passar por cima do 'bmw' dele. Finalizando pintei uma lembrança: 'Consegui passar por cima como você tem pedido. DESCULPE A DEMORA!" yk

ivo de souza disse...

O suspense nos seus contos são interesantíssimos, pois cria expextativa nos leitores.

Fora isso esse conto tem um caráter bem didático, se os personagens fossem mais lúdicos, o chamaria de fábula.

Teacher Flavio disse...

Infelizmente esse conto mostra o quanto falta educação e bom senso por muitos motoristas neste país. É um excelente desabafo e apoio aos cadeirantes e a sociedade educada.