sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Canto para Anita



Morava em uma frondosa árvore na Rua Senador Corrêa. Tudo ia bem até que, no primeiro dia de verão durante uma tempestade magistral, caí do ninho. Não estava pronto ainda. Todo molhado, me vi tremendo no batente de um salão de beleza. Fiquei um tempo andando e piando por ali, já que voar ainda não sabia.
De repente, mais do que de repente, apareceu uma vassoura. Pulei em cima e logo me puxaram para dentro. Tinha um monte de passarinha gigante piando muito. Fiquei meio tonto e depois de um tempo, já estava com minhas garrinhas pintadas, uma de cada cor. Ficou legal, e resolvi ficar por ali mesmo.
Chegou o Natal e, enfim, minhas asas e cauda cresceram; foi uma grande festa no salão: deram-me banho de creme hidratante, para as penas, finalização com gel. Não tinha gaiola porque alguém falou que rouxinol não se cria preso. Então, era livre para voar no salão inteiro.
Muita gente, ciente, criticava alegando que eu estava preso quando deveria estar cantando livre numa árvore, no Canecão ou - quem sabe? - no Rock In Rio in Lisboa... Grande engano, eu não queria sair do salão, era muito divertido conversar o dia todo, sobrevoar os secadores e pousar no ombro de minha bem feitora. Ah!! Com a Anita não tinha tempo ruim, nem dela e nem dos outros. Mulata feiticeira de cara limpa brilhava como o Sol: para todos. Tinha a mania de dar lembrancinhas só para deixar mais claro ainda que, em algum minuto daquele seu iluminado dia atribulado, pensou naquele ser: você.
No final do dia, depois de transformar muitas cabeças ocas em luz, em vez de descansar, Anita pegava o violão para dedilhar uma canção comigo. E assim eu dormia no seu ombro.
Quando Anita estava triste, só eu percebia; quando alegre, até as cortinas comemoravam, tinha até roda de samba. Anita tinha um olho mágico na testa que a tudo via e sentia. Só quem a pegava para Cristo sabia que aquele olho, parceiro, chorava junto e a todos entendia.
De vez em quando, quando a porta abria, eu olhava para o lado de fora do salão. Via as árvores e um arrepio esquisito lambia minhas asas. Durava só um instantinho, mas Anita, com seu olho mágico, a tudo percebia: Esticou seu pequeno dedo indicador para que eu subisse e falou:
- Fala logo, meu roxo, quando você vai?
Nunca, minha flor, nunca!!!
Ela sorriu, me beijou a testa e me colocou na janela aberta para a árvore. Ouvi o canto dos pássaros, as folhas conversando e o vento fazendo bagunça. Quando percebi, já estava em um galho cantando, gritando. Lá de cima vi Anita apagar a luz do salão; saiu pela porta sem olhar para cima.
Fiquei ali no frio, sem Anita, com gente estranha...
Acordei cantando a música do violão de Anita. Em poucos minutos, vários passarinhos pararam ao meu lado para aprender a música de Anita. E cantamos juntos para Anita naquele dia, e no dia seguinte, com Anita, sempre enfeitada como surpresa de passarinha: um colar combinando com a blusa ou o cabelo, uma saia nova, uma palavra viva para os suicidas; ou mesmo, uma história engraçada da família que amava e guardava sob suas asas quentes.
O que se comentava era que, quando Anita pegava seu violão no final do dia, vários rouxinóis se perfilavam na janela para acompanhá-la. Só eu sabia que Anita tinha um rouxinol encravado em seu peito.

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