segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Lista de ódios


Quando eu tinha doze anos escrevi minha primeira lista de ódios. Nela incluí a professora de matemática rindo da minha prova e a boazuda da rua implicando com os meus peitos inexistentes. Lá figuravam as discotecas e qualquer coisa que brilhasse, a escola, os amigos (todos inimigos em potencial) e a sindica do prédio. Não poupei nem Deus e nem o Diabo, escrevi tudinho mesmo. Até mesmo calçada com pedras portuguesas porque eu odiava pisar em linhas.
Com o passar do tempo fui atualizando a famigerada lista que crescia a olhos vistos. No auge da adolescência, contabilizava mais de cem ódios, dos quais vinte profundos. Alguns ódios se mantiveram durante anos nas primeiras colocações, como matemática, ditadura militar, chocolate, anel, perfume, esmalte, dobradinha, maquiagem, apito de guarda noturno, carro, gente que grita e gente que não fala nada, mas ri o tempo todo.
Um dia, inspiradíssima, encontrei um novo ódio e escrevi sem pensar:
Odeio odiar.
Aquilo me arrepiou até o pino da caçoleta. Fiquei doente. Mesmo. Tremia de febre e insônia. Como eu poderia continuar minha sina depois de uma revelação dessa? As quatro paredes do quarto foram testemunhas do quanto eu tentei continuar, mas a danada da caneta não conseguia documentar mais nenhum ódio, muito pelo contrário, a facínora começou a riscar os ódios cultivados por duros anos. Sofrimento atroz. Ninguém sabe o quanto é difícil se livrar de ódios tão saudáveis, nutridos e bem apessoados. As lágrimas vertiam formando grandes rodelas azuis no papel manchado; tudo desconstruído.
Na manhã seguinte ao fim, acordei com a caneta na mão onde ficaria para os restos de meus dias escrevendo uma interminável lista de amores.

2 comentários:

Maria de Deus disse...

Oi Catarina!
Amei a crônica!
Essa palavra ódio creio que dá azar.
Bom mesmo na vida é amar.
Bjs
DD

Valente disse...

Mais uma crónica admirável, que nos reconduz através do tempo, e nos faz pensar o quanto as "bobeiras" que detestavamos, e com que implicávamos, hoje as vêmos tão distantes, olhando agora para elas com um misto de vergonha (porque eram "bobeiras"), ternura e ... saudade.
Catarina, obrigado por escrever, e por partilhar a sua escrita com nós.