sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Indivíduo coletivizado


Acorda cedo, jornal, barba, corte no queixo, que merda, logo hoje? Banho, café, jornal, terno preto, verão, acostumado, mas nem tanto. Pega a última vaga na sombra do poste no ponto de ônibus. Sorte. O dia começou bem. Entrevista para emprego não pode chegar com a camisa social colada nos peitos e a testa pingando na gravata. Meia horinha depois chega o coletivo bem coletivizado. Licença aqui, olha onde bota o pé, desculpa, segura, balança, não encosta, não dá, quer que segure a pasta?, abre a janela faz favor, alô? agora não posso tô no buzão, que cheiro, credo! vai descer, motorista, aqui não, no outro, é aqui, é aqui, valeu, ufa. Duas horas, dentro do previsto, muito bem, você é o cara. Sinal da Presidente Vargas com Rio Branco fechado. Calma, você ainda tem quinze minutos, segue o gado, dribla camelô, bicicleta, gente lerda, buraco na calçada, topada, fila para o elevador, ai-ai-ai...bora-bora-bora, agora sim, respira fundo, espera um pouco antes de entrar para se recompor. Bom dia, tudo bem, viagem tranquila, obrigado, sim, moro perto, é rapidinho até aqui. Nenhum problema, posso esperar o tempo que for necessário, este sofá está ótimo, não, obrigado, já tomei café, fique a vontade. Espera, espera, calma, não comece a tremer a perna, nada de TOC, lembra os conselhos do gestor de RH? Então espera, espera, meio-dia, o chefe foi almoçar? Tudo bem, eu espero, duas da tarde, três, café, chiclete. Chegou, calma, vai chamar, até que enfim, sorria, isso mesmo, disposição imediata, salário a combinar, admiro esta empresa por isso e por aquilo outro, meu currículo é generalista, atuo em várias frentes, sei, sei, entendo perfeitamente, claro, claro, entendo, a vaga é para júnior e não senior, eu aceitaria se pudesse...tudo bem, tudo bem, precisa de um perfil mais jovem, isso, não quero tomar mais o seu tempo,obrigado por me receber, foi um prazer, quem sabe em outra oportunidade?

Acorda cedo, jornal, barba, corte no queixo, que merda, logo hoje? Banho, café, jornal...

5 comentários:

Lilian disse...

Adoro ler suas crônicas!Bjs, Lilian

Sylvia Regina Marin disse...

Ai, Catarina! Tão bom se a gente não precisasse passar por isso, não é?
Grande Cata!
Beijos.

Maria de Deus Oliveira disse...

Amei a crônica Catarina. Retrata o dia-a-dia dos desempregados, principalmente das pessoas acima dos quarenta anos, em que se torna mais difícil conseguir um emprego num mercado de trabalho saturado e que exige das pessoas muitas qualificações.
Bjs
DD

Daniel Souza disse...

até o dia que a criança chora, filo, sabe como é, né?é preciso fazer algo. Não senhor, está tudo sob controle. Alô? Agora não dá, mulé, tô numa entrevista. Tá, eu sei, leite e pão. Entendo. Deixa comigo. Tudo bem, senhor. Eu entendo, a vaga é preferencial pra quem estuda ou tem experiência. Entendo. Fica pra próxima. ô, mulé, era o que deu pra comprar. Tá, amanhã eu dou um jeito. Aluguel atrasado? Calma, vai dar td certo. O Fulano disse que amanhã me liga pra agitar aquilo lá com o chefe dele. Alô? Babou. Pô, valeu, ta tranquilo. VAleu a tentativa. Calma, bem, tô tentando!!! Febre? Pô, sem nada em casa? Calma, sem desespero. Calma. Não, rapaz. Quero entrar nessa vida não. Vou tentar um emprego, tá? Não, quero não, valeu. Dois meses nessa, tá difícil, mas vou conseguir. Fome? Que isso, calma. Vou providenciar pão. Quê? Mil por semana? Pra fazer o q? Aquele importado? Não, nasci pra isso não camarada, desculpe. Oi amor, luz cortada? Vamo dar um jeito, calma. Eu sei que sempre falo isso, mas calma. PEraí, te ligo já. Fala, irmão. Qual vai ser? Não, nunca atirei não, mas aprendo rápido. ó aquele playboy lá de carrão tirando onda, bora?? Perdeu, mané, reage não. Quê? Tá maluco, porra? Pápápápá!! Sirenes, buzinas. Mão pra trás, porra!!! Baixa a cabeça. Entra no camburão, bora. Cala a boca, vagabundo. Decidido e martelado: 13 anos de prisão!!! Bem feito, bandido tem que ir pra cadeia. Se quisesse trabalhar. Mas não, quer vida boa...bem feito. Buáaaaa!!!!

Ah, esse filme é lançado diariamente! Já cansamos de ver. PAciência. Tá lá mais um corpo no chão, mais uma estatística e o que seja.

O resto é pior, mas ainda não temos noção do que seja.
Bjs,

Ivo de Souza disse...

É interessante como o assindetismo martela a estrutura desse texto, instaurando-lhe velocidade, ruídos e automatização. Podemos compará-lo àquele filme de Charles Chaplin, Tempos Modernos, no qual um trabalhador é afetado pela mecanização do homem.A Única diferença é que naqueles tempos ainda havia emprego. Hoje, a monotonia de uma grande massa em busca de um destino.