sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Dia de Dorinha


Tia Liata não sai de casa sem maquiagem nem sem a bolsinha de tricô com Dorinha, apelido carinhoso de seu .22. Herdara do falecido marido que carregou a pequena arma na meia do coturno durante brilhante carreira de vigilante. Tia Liata aprendera a limpar, carregar e atirar nos passeios pela Floresta da Tijuca.

Todo dia cinco do mês a senhorinha atravessa a alça da bolsa no corpo e sai com a mão encaixada em Dorinha para receber a pensão. Hoje, na saída do Banco, ligadíssima no movimento, manja o moleque encostado na porta atendendo o celular e olhando para ela. Ela faz que vai para a esquerda e o moleque atrás, ela volta e o encara, ele desvia o olhar e retorna grudando sombra nas costas de tia Liata. Ela aperta Dorinha sentindo a respiração ofegante dele. Ela pensa se seria capaz de atirar em alguém. Nunca matara nada maior do que baratas. Nem rato. Morre de pena daqueles olhinhos inocentes. Mas se eu não me defender quem vai me guardar? É só eu e Deus. Se me levam a pensão vou comer o que o mês todo? Sente um toque no ombro. Saca Dorinha e aperta o gatilho até que do cano só saia tec-tec-tec. O coração voa na cabeça e as pernas falham num breu súbito. Sirenes entram e saem de sua boca inflando e murchando. Luz branca.

Acorda na enfermaria do Souza Aguiar. Lembra do que fez Dorinha e chora. O que você fez? O que você fez? Prefiro morrer a saber que você feriu alguém. Meu bom Deus, perdoa essa alma perturbada e guarda a vítima de Dorinha com fervor. Ela não fez por mal. Cadê você Dorinha? Onde você se meteu, menina? Volta prá mim. Eu vou te buscar.

- Que confusão é essa na porta do hospital?

- Lembra daquela velha maluca que ontem acertou seis tiros no boneco do posto de gasolina e enfartou?

- Morreu?

- Agora sim. Pulou pela janela.

Um comentário:

Anônimo disse...

A primeira reação é rir muito, apreciar sua prosa bem-humorada. Aos poucos a gente vai se dando conta da tragicomédia em que se transformou nossa vida. Sutileza de gênio. Demais.


Sylvia