sexta-feira, 5 de março de 2010

Uma moto, um Astra e a chuva


Samuel é doido pela rua. Corre debaixo de sol e chuva, caminha pela cidade cheirando folha de árvore, procurando passarinho e macaco, entra em rua e vila só para conhecer. Circula também de moto com a viseira do capacete aberta para sentir melhor o vento. Piloto nato tirou a carteira de habilitação tipo AC na Marinha, onde as instruções foram claras: “Dirige aí!”. Desde então pilotar e dirigir com segurança é uma extensão do seu corpo.

Na última terça-feira, voltando estressadíssimo do trabalho pela Praia do Flamengo debaixo de chuva forte, Samuel pilotava na maciota quando passou ao lado de um Astra e percebeu uma sorridente menina de tranças com o rosto colado ao vidro da janela traseira. Gritou para o motorista apontando para o carro. O motorista do Astra não teve dúvidas e jogou o carro em cima da moto de Samuel que deitou no asfalto.

Quando acordou já estava algemado junto ao meio-fio. Com a calça e a camisa rasgadas sentiu o sangue escorrer pelo braço esfolado. Pelo andar das coisas perdera a pelada de terça à noite. Ainda confuso, tentou entender os acontecimentos questionando o policial que confabulava animadamente com o motorista do Astra. Samuel pensou, tranquilo, bastaria esclarecer tudo. Chamou a autoridade e levou um safanão no meio da cara. O estômago revirou, o sangue ferveu. Nunca apanhara na vida, quanto mais na cara. Começou a se debater tentando se livrar das algemas e a gritar que era trabalhador, tinha documentos no bolso e coisa e tal. Como ninguém lhe dava atenção começou a gritar por socorro e a xingar a mãe de todo mundo. Atendido, levou outro tapa e teve a boca selada com uma fita crepe. Antes de ser jogado na viatura, ainda ouviu o cara do Astra dizendo ser médico e ter certeza de que Samuel estava drogado e que se não fosse sua agilidade teria sido assaltado. O homem entrou no carro e partiu enquanto Samuel gemia sob o lacre.

Levou muito soco nas costelas e puxão nas algemas até chegar na Delegacia. O inspetor olhou o sujeito sujo, ensanguentado, encharcado, com os olhos arregalados e sentiu que a noite seria longa. Mandou tirar a mordaça do meliante e que falasse. Samuel gritou o mais alto que pode:

- Porta aberta, porra!

2 comentários:

Ivo de Souza disse...

Mais uma vez nota-se um magistral poder de síntese em suas hostórias. Percebe-se em suas crônicas algo de cotidiano mas também de trágico, que se enquadraria mais no estilo do conto. Por isso seu texto se situa no limite: é dia-a-dia mas também inusitado, é patético mas também essencial. Neste, como em outros, a suspense nos prende até o final da leitura e, como sempre, nos surpreende. Parabéns!

Sylvia Regina Marin disse...

Volta em grande estilo - o estilo Catarina de ser. Maravilha, amiga! Não sou sua fã à toa.
Beijos.