quarta-feira, 2 de julho de 2008

Noite livre na prisão



Parou no sinal fechando, amarelo ainda. Poderia ter avançado, mas estava distraída. Com o que mesmo? O celular que não pára de tocar. O que esse pessoal do escritório faz da vida? Sexta-feira, dez horas da noite? Ninguém merece...Mas se não atender é aquele estresse, fica mó climão na hora do cafezinho, olhar torto e tal...
- Olha só, eu tô dirigindo, não posso falar agora. É rapidinho? Tá, então fala logo que eu tô no sinal e...
- Perdeu! Perdeu!
- Ai-meu-deus-do-céu! Calma moço, leva tudo, é tudo seu, é seu! Ganhou! Depois te ligo...
- Cala a boca, vaca! Celular! Relógio! Bolsa! Se o carro andar vai ter miolo de madame prá todo lado...
- Pronto, prontinho, tá tudo aí moço...
- Não me enrola não! Não me encara não, que eu tô doido prá dar um teco num hoje. Passa o espelho do rádio! Vai morrê! Vai morrê! Vai, vai acelera vaca! Não olha prá trás! Vai, vai, vai...
Foi.
Estranhamente a Bartolomeu Mitre pareceu-lhe tão vazia, grande e silenciosa. Quanto mais acelerava, maior era a sensação de flutuar - o carro ou ela ou ambos? - no vácuo de nenhum outro veículo; porque nada havia além dos sinais amarelos piscando sobre a mão esquerda trêmula agarrada ao volante suado. Ir para onde? Onde mais seria algo a mais? Têm um carro da PM ali. Vou parar. É o certo a ser feito. Mas o certo é o tempo, o meu tempo. Será que eu tenho esse tempo? B.O., delegado, viatura, elemento, meliante portando arma de fogo, autoridade, banco duro, foi-se a noite. Já não chega perder o celular, o relógio, o tocador de CD e ainda perder a noite? Não, isso não. A bolsa tudo bem, era falsa e cheia de cartão de crédito estourado; o moleque se deu mal. Tempo, tempo...Será que o negócio do escritório era sério? Não vão conseguir falar comigo até segunda-feira...Tenho o resto da noite livre e amanhã...amanhã vai dar um praião...

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