quarta-feira, 23 de julho de 2008

Placas da sorte

Crônica vencedora do 1º Concurso Crônicas Cariocas 2008.


Bonifácio, homem cumpridor de suas obrigações matrimoniais e de ofício, pagador de impostos e fiel súdito das leis e da ordem pública, vinha de sua pequena fazenda dirigindo seu fusquinha 74 pela BR.101 assoviando um samba de Noel. Viu a blitz e diminuiu. Encostou ao primeiro sinal da autoridade.
- Bom dia, sargento! – Observando o uniforme do policial.
- Documentos.
- Está tudo aqui, senhor.
- Ligue a lanterna, pisca-pisca, limpador de pára-brisa.
- Sim, senhor.
-Pneus novos?
- Sim, senhor. Cuido deste fusquinha como um filho.
- Extintor de incêndio? Última revisão?
- Tudo aqui. Na validade.
- O senhor faria um teste com o bafômetro?
- Claro. Onde é que eu assopro?
- Parece que está tudo bem. No entanto reparei que suas placas estão totalmente encobertas. O senhor sabe quanto custa a multa pela ocultação das placas do veículo? Uma fortuna! Falta grave. – Já balançando a cabeça e pegando o talão.
Bonifácio, assustado, constatou que realmente estavam cobertas de lama. Diante dos fatos, não teve outra opção:
- Sargento, com todo o respeito, será que uma cervejinha limpa essas placas?
- É. Vou abrir uma exceção porque estou vendo que o senhor é pessoa de boa índole. Duas cervejas e está tudo certo.
Agradecido, Bonifácio foi até a mala do carro, pegou duas cervejas que dormiam no engradado reservado para o churrasco de domingo. Calmamente abriu a primeira cerveja e lavou com o líquido a placa da frente. Com a outra cerveja, repetiu a delicada operação com a placa traseira. Finda a faxina, olhou a autoridade e, muito sério, perguntou:
- Agora estão limpas, senhor?
- O senhor é bem engraçadinho... Vou deixar passar essa pela criatividade, mas vê se na próxima vez não abusa da sorte.

2 comentários:

Sylvia Regina Marin disse...

Ótima crônica, Catarina. Final inesperado. Amei!Beijos.Sylvia

Segredos de um Boa Comida disse...

Driblar a corrupção não é fácil...seria ótimo criarmos situações reais assim.