segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Viva a natureza!


Armou a barraca em dez minutos e correu pelado em direção ao mar. Ninguém à esquerda ou à direita. Abaixo só areia branca e oceano azul. Acima o céu idem. Perfeito.
Organizara estas férias por três meses. Aproveitava a hora do almoço para pesquisar na internet os paraísos mais inabitados. Desenhou mapas, fez planilhas de orçamento, revisão do carro. Comprou barraca, saco de dormir e todos os mantimentos listados nos melhores sites de amantes de acampamentos. Leu livros de sobrevivência, de Robson Crusoé a Almir Klink. Reservou cadernos para escrever e clássicos para ler durante o exílio de vinte dias. Fez curso de pescaria e adquiriu kit completo. Levou o básico para cozinhar, mini-farmácia e tudo mais que um homem civilizado precisa para sentir-se seguro.
Na primeira semana explorou o lugar, correu, nadou. Tirou fotos do pôr-do-sol, da espuma das ondas, da barraca, das formigas, dos coqueiros e de si mesmo orgulhoso ao lado da pesca. Escreveu laudas e mais laudas sobre o assombro do silêncio sob a luz da fogueira e a inspiração das estrelas. Dormia exausto até o sol nascer.
A segunda semana chegou tranqüila. Cheia de reticências sábias e autoconhecimento através do aprofundamento da alma e do valor do espírito no tempo e no espaço efêmero. Conversava com siris e gaivotas, brincava com o som dos ventos nos coqueiros e escrevia compulsivamente. Registrava em seu caderno cada impressão obtida na contemplação dos seres vivos, como um Darwin contemporâneo. Decidiu vender o quarto-e-sala onde morava e comprar um terreno por ali. Fazer uma cabana ecologicamente correta e viver do que a terra e o mar lhe oferecesse. Com determinação e ordem tudo é possível de ser realizado.
A terceira semana pegou nosso herói tremendo de febre e com uma dor de barriga fenomenal. Era uma coisa oleosa e líquida de um fedor infernal e impossível de ser contida a tempo de procurar uma moita. Tomou toda a farmácia e conseguiu parar só a diarréia e acalmar a febre por algumas horas. No dia seguinte acordou um pouco melhor e resolveu lavar as roupas e a barraca no mar. A operação durou mais tempo do que imaginava e, no cair da tarde, estava vermelho do sol, pisara num ouriço que não conseguia tirar nem com os dentes e a febre voltara com toda a disposição. Passou uma noite terrível lutando contra pterodátilos assassinos dentro da barraca. Acordou coberto de mordidas de mosquitos e suando frio. Foi até o espelho do carro e viu o homem-elefante, só que mais inchado, vermelho, descabelado e com olheiras enormes. Tomou um antialérgico e desmaiou o resto do dia.
Doze horas depois, com o pé latejando de dor, levantou acampamento dois dias antes do previsto. Estava exausto. Foi direto para a casa dos pais.
Tomou sopinha, recebeu beijos, cafuné, lençóis limpos, soro caseiro, pomadinha e dormiu vinte e quatro horas no ar-condicionado. Acordou comendo pão francês com ovos na manteiga e café-com-leite. É domingo, o pai faz churrasco de picanha e costela enquanto a mãe tira os espinhos do pé. Curte sua última noite de férias assistindo futebol na TV com uma bacia de pipoca com guaraná.
Chegou ao trabalho contando a grande aventura, as descobertas, os perrengues; mostrando fotos e curativos. Era puro orgulho e felicidade. Quanto a vender o apartamento e comprar o terreno, nem se lembrou de comentar.

2 comentários:

Sammy disse...

Conheço um cara assim.
Sammy

Sylvia Regina Marin disse...

Ah Catarina,
Tenho estado tão distante das letras... Hoje resolvi te visitar e, pronto, lavei minha alma.
Beijos.
Sylvia