quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A estrela baga



Eram amigos do colégio e tinham em comum o gosto pela poesia, rock’n’roll, praia e um fuminho de leve depois da aula.
Naquele fim de tarde de verão, último dia do ano letivo, pegaram a moto e rumaram para Fernão Velho, bucólica cidadezinha do interior de Alagoas. Estava mais para uma vila nascida de uma antiga fábrica de tecidos do que necessariamente uma cidade. As casinhas de desenho animado eram todas brancas com janelas e portas verdes. Cercada de uma rara floresta tropical, mantinha a áurea misteriosa com o cruzeiro no alto de um morro refletido no grande lago. A fábrica fechara há muito tempo, aumentando a sensação de que tudo ali parara.
Chegaram ao Cruzeiro em tempo de assistir o finzinho do pôr-do-sol. O céu rosado tingia a lagoa inspirando os dois a acenderem um. Enquanto André enrolava, Simone observava uma grande estrela perto do horizonte oferecendo luz branca azulada. Parecia oscilar para cima e para baixo. Deu o primeiro tapa e perguntou o nome daquela estrelona. André não sabia, mas achou uma viagem. Tentou lembrar os nomes das estrelas: Ursa-maior? Dalva? Uma desgarrada do Cruzeiro do Sul? Nunca a perceberam antes.
A coisa rolando e Simone e André viram a estrela crescer até pratear todo o lago. Anoitecia lua nova. Contrariando o esperado, tudo em volta estava iluminado pela luz. Um arco-íris formou-se do espelho d’água até o astro. O troço começou a subir lentamente e um som micro-ondas – ûûûû...- vinha de todos os lados. A moto, ele, ela, as folhas, as formigas, o planeta, nada se mexia, só a estrela vagava no vácuo. Quando chegou ao alto do céu brilhava tanto que era preciso proteger os olhos vermelhos com as mãos.
De súbito o som parou e um raio de estrela correu para o outro lado do céu, deixando um rastro de fogo numa lufada de vento. Ao sumir por detrás dos montes deixou só a escuridão e uma baga amassada na estrada.

Um comentário:

Teacher Flavio disse...

Catarina querida, quando iniciei a leitura de "A estrela baga" vi algumas semelhanças em um passado longínquo e caí na gargalhada. Você como sempre resgatando a memória da vida cotidiana. Beijos