segunda-feira, 30 de junho de 2008

Notícias do limbo


Querido amor,
Trago notícias do limbo. Aqui não faz sol e nem chuva, frio ou calor. Os dias são iguais às noites assim como estas letras simétricas. Peço, desde já, desculpas pela forma sonolenta do relato, mas outra forma não haveria como chegar aos teus olhos, quiçá ao coração. Gostaria imensamente que recebesse esta cheia de descobertas e felizes encontros, flores na estrada e temperaturas inusitadas. Quero que saiba que jamais te escreveria à toa se, realmente, não estivesse esta pobre alma perdida entre um parágrafo e outro.
Ciente e arrependida de meus crimes cumpro abnegada minha pena. Conto os dias com riscos na parede e, ao mirar o mural de retalhos, desespero-me com o tempo esquartejado e jamais recuperável. Daqui do limbo contemplo o infinito do que não fiz, do que não comi e, principalmente, do que não fui. Faz parte da pena a turbulência dos próprios pensamentos e o silêncio do futuro.
Quanto tempo mais ficarei por aqui? Com certeza o meu nobre anjo está a perguntar. É necessário que entenda a natureza do meu crime imprescritível, inafiançável e incomensurável por seu torpor. Trata-se de uma abominação continuada, logo a pena também o é. Sei que há volta, há fim dentro deste enorme círculo vicioso, no entanto a data não foi registrada nos livros oficiais do limbo. Preciso ter paciência ao vislumbrar cada manhã sem cor, posto que seja chama escondida dentro de mim.
Certa de encontrá-lo bem, coloco neste envelope meus cacos. Guarde-os numa caixa grande e arejada. Voltarei para juntá-los.
Com amor, sempre tua.

Um comentário:

Sammy disse...

Vem comigo, que eu te ajudo.
Me dá tua mão.
Vamos dar uma corridinha leve em nosso jardim.
Beijo.