quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ninguém aprende a ser atleta em meia hora de esteira, muito menos a respeitá-lo.


Não vou falar da Copa. Ninguém aguenta mais; nem eu. O assunto de hoje é muito mais profundo. Quero falar do atleta, esse ser que de tão simples chega a ser complexo. Ao contrário da Copa, FIFA, CBF, Governo, que podem ser julgados politicamente, o atleta não pode ser confundido com elementos exteriores à sua essência. Ser atleta requer práticas e conhecimentos físicos e mentais desconhecidos da maioria ensandecida opinante nas redes sociais e até de alguns respeitáveis jornalistas que vêm divertindo a população com suas crônicas “esclarecedoras” quanto à incompetência dos jogadores.
                Li recentemente um texto apócrifo, logo covarde, que execrava os jogadores de futebol pela imerecida rápida ascensão econômica e social sem estudar, sem esforço. O texto alegava que a derrota da seleção brasileira para a alemã era merecida por serem os jogadores brasileiros uma cambada de vagabundos, ignorantes e malandros. Acho uma hipocrisia acreditar que toda sabedoria vem do estudo acadêmico. Eu valorizo todas as formas de aprendizado. O fato de alguns atletas semianalfabetos ganharem por mês mais do que doutores conseguem guardar a vida inteira me incomoda? Nem um pouco. Incomoda não termos nenhum doutor, cientista, escritor respeitável ou professor milionário com fama de herói. Mas a culpa não é dos atletas. O desenvolvimento intelectual não depende do estudo formal e sua aceitação social é um fenômeno que extrapola a questão do merecimento.  Minha experiência de vida e acadêmica me provou que dedicação e talento produz mais resultado do que estudo  e investimento financeiro.
A mente do atleta não gira em função da própria imagem ou de seus fãs, muito menos da alegria ou tristeza do país.  O atleta abre mão de várias coisas, assim como todos nós que lutamos para realizar sonhos. O atleta sofre com isso? Claro que sim, mas não é um sacrifício. Sacrifício ocorre quando se abre mão de algo que se ama para beneficiar outra pessoa. O atleta visa o benefício dele mesmo, de sua carreira e de sua família.  Como você. Mas ao contrário da maioria, começa a trabalhar muito cedo, em média aos dez anos de idade. O verdadeiro atleta visa resultado, marcas, bater recordes, ultrapassar seus próprios limites e para isso treina exaustivamente. Foca, se concentra e estuda, sim, estuda muito seus movimentos, técnicas, adversários e obstáculos. É uma escolha, mas escolha não representa resultados. Esta é a parte cruel da vida. Nem sempre os mais esforçados serão os  vencedores.  Mas todos são, indistintamente, atletas e possuem o mesmo valor. Quem, em algum momento da vida foi atleta vai entender esta afirmação.
No entanto quem nunca teve a oportunidade de viver o espírito esportivo e arrisca-se no terreno íngreme da critica esportiva em camadas de gordura intelectual e prefere transformar um resultado esportivo negativo em hecatombe político-social psicoantropológica com reflexo socioeconômico no clima do planeta; que vá catar coquinho, dar meia horinha para relaxar, fazer vinte minutos de esteira que é para começar devagar para não arrebentar as veias no primeiro dia. Não entende absolutamente nada do mundo esportivo, mas se acha no direito de julgar atletas que treinam há dez anos.
Ninguém aprende a ser atleta em meia hora de esteira, muito menos a respeitá-lo. Se você frequenta a academia três vezes por semana porque o trio do capeta fez a festa (colesterol, triglicerídeos, glicose)  ou para perder aquele pneu indesejável você não é um atleta. Você anda estressado e antes que mate o chefe, resolve dedicar o fim de semana para o ciclismo urbano, correr na praia, praticar surf, yoga e aquele negócio de caminhar numa corda bamba a meio metro do chão; funciona, relaxa, faz um bem danado, mas você não é um atleta. Atleta é outra coisa completamente diferente. Pode procurar no dicionário. O atleta aprende o autocontrole do corpo e da mente. Aprende muito cedo a ouvir, obedecer, mandar, dividir e principalmente seus limites e suas potências físicas e mentais. Isso o diferencia dos medíocres, não só em campo, como também na vida. O atleta de ponta aprende tanto sobre si mesmo que sabe que, a qualquer momento, o seu melhor ou o seu pior pode explodir.
                O escritor tem seu palco ao receber um prêmio literário ou autografar seu livro na noite de lançamento, o artista plástico na vernissage, o doutor na premiação pela tese, o atleta também pelo resultado. E assim como esses intelectuais agradecem em seus discursos à família, a Deus, aos Mestres, etc. O atleta que aponta para o céu oferecendo ou agradecendo a Deus a conquista, outros se curvam para Alá. Uns  fazem coraçõezinhos com as mãos, colocam a bola embaixo da camisa imitando a gravidez da esposa. E tem os que nem comemoram.  Os carecas, cabeludos, moicanos, fofos, canibais, todos, sem exceção, são atletas de ponta e lutaram muito para receber o seu olhar, o seu julgamento e o direito a existir para sempre em sua memória. Na vitória e na derrota. Se você se esforçou e pegou o espírito da coisa, ótimo; mas você ainda não é um atleta.

                

2 comentários:

Unknown disse...

Espetacular.
O Esporte é Espetacular. Não o da rede globo.
Eu fui atleta por uns tempos.
Admiro e respeito todos os atletas não somente aqueles "de ponta ou de alta performance".
Catarina você captou bem a essência desta incrível arte de ser um "ATLETA".
Vamos dar uma corridinha no aterro?
Sammy.

yvaniokunha@gmail.com disse...

Catarina: Confesso que jamais encontrei um texto com tanta força, beleza, vigor, justiça e conveniência sobre os atletas como este teu, que emocionou-me ao lê-lo. Grato, teu YK